Se o SEGA Mega Drive não triunfou no Japão, ele foi um grande sucesso no Brasil e EUA, além de alguns outros países, como por exemplo Reino Unido e Espanha. Mas sabem um outro país onde ele foi bem? Taiwan. Por lá ele conseguiu cerca de metade do que a Nintendo e seu SNES venderam... Olhando os números, até parece pouco... Porém há algo que precisa ser mencionado neste contexto: a SEGA não entrou lá oficialmente!
O que significa que os fãs do Mega Drive de lá obtinham o console ou importando ele do Japão, ou comprando um console "pirata". E por falar em pirataria, foi justamente o fato da SEGA não ter entrado em Taiwan que fez que fossem criados na época literalmente DEZENAS de jogos não oficiais para o console. Claro que muitos deles têm qualidade bem duvidosa, porém outros acabaram sendo interessantes e de bom nível final. Listo OITO destes jogos abaixo - em ordem alfabética - para vocês conhecerem. ;)
Beggar Prince (Xin Qi Gai Wang Zi)
Começando com um RPG bastante elogiado. Lançado em 1996 pela desenvolvedora C&E, dado o grande sucesso local dois anos depois ele também foi lançado para os PC's. Beggar Prince é tão completo (e longo) que foi a escolha da empresa estadunidense Super Fighter Team para que este fosse seu primeiro jogo do Mega Drive a ser licenciado e lançado nos EUA. Portanto, Beggar Prince foi traduzido para o inglês e lançado por esta distribuidora em 2006, e se tornou o primeiro "novo" jogo do Megão a ser vendido nos EUA em mídia física desde 1998(!), acompanhado de um belo manual colorido de 27 páginas.
Com seus 32 megabits de tamanho, o jogo segue o padrão dos bons RPGs japoneses de lutas por turno (reforçado com belos gráficos em visão isométrica). Porém Beggar Prince também traz algumas particularidades, como por exemplo, o game não possuir dinheiro... todos os itens são ganhos exclusivamente de baús e de derrotar monstros. Na história, baseada no conto "O Príncipe e o Mendigo" de Mark Twain (daí o nome do jogo), um entediado príncipe após encontrar um mendigo que é seu sósia, resolve trocar de papéis por um dia; porém quando tenta voltar ao seu castelo ainda sujo e todo esfarrapado, não consegue passar pelos guardas que não acreditam nele. Então o Príncipe realiza algumas aventuras para provar que é o real herdeiro e desmascarar o malvado "Ministro Gato" que sabe de toda a trama e agora comanda o Reino. Para quem gosta de RPG's japoneses, Beggar Prince é certamente um bom jeito para matar a saudade.
Bomboy (Hongzha Xiaozi)
Este clone do clássico jogo Bomberman, franquia criada nos anos 80 pela Hudson Soft, tem um motivo especial para estar na minha lista: é que ele pode ter feito parte da memória afetiva de milhares de brasileiros... Afinal, Bomboy era o jogo que vinha junto, em cartucho, com o console Dynacom Megavision, um "curioso" clone do Mega Drive lançado no Brasil em 1994.
Lançado em 1993 pela Gamtec, Bomboy é um bom jogo, com gráficos e sons bem decentes. O "problema" é que no ano seguinte a Hudson Soft, juntamente com a SEGA, lançaram oficialmente para o Mega Drive o jogo Mega Bomberman (também conhecido como Bomberman '94), superior à versão taiwanesa em todos os aspectos.
Legend of Wukong (Wu Kong Wai Zhuan)
O segundo RPG desta lista tem gráficos e mecânicas mais simples, e seu diferencial é a sua história, inspirada no mitológico conto chinês de nome Jornada ao Oeste, a mesma obra cujo personagem principal do livro, Sun Wukong, inspirou Akira Toriyama a criar seu Son Goku para Dragon Ball.
Na trama, Wukong é um jovem que invade o laboratório de seu vizinho, o louco e genial inventor Doutor Tang, e acidentalmente aciona uma máquina do tempo, indo cair na China antiga, na mesma época onde os eventos da Jornada ao Oeste ocorrem. Em suas aventuras para arrumar um jeito de voltar para casa, ele tem como ajuda os companheiros Pigsy (um homem em um corpo de porco) e Wujing, uma lutadora e maga.
Legend of Wukong é bastante elogiado pelo bom humor e piadas, que o tornam um experiencia divertida e um pouco diferente dos JRPG's da época. Lançado originalmente pela Gamtec em 1996, em 2008 este jogo também foi traduzido para o inglês e lançado internacionalmente em mídia física pela Super Fighter Team.
Magic Girl: Featuring Ling Ling the Little Witch
Lançado no ocidente em 2015 com o nome Magic Girl: Featuring Ling Ling the Little Witch, o jogo original Xiao Monu: Magic Girl foi lançado em 1993 pela desenvolvedora Gamtec, e se trata de um shoot'em up onde uma garota voadora atira contra vários inimigos que querem destruir sua vila.
O jogo é curto, mas é bem difícil, são muitos inimigos e tiros na tela o tempo todo. Ele conta com gráficos bons e bem coloridos, e forçando bastante uma analogia aqui, é como se tivessem tentado fazer um jogo da franquia Cotton: Fantastic Night Dreams, porém ao invés usar a perspectiva lateral, a ação é vista de cima. Ao mesmo tempo, a inspiração no jogo Twin Bee também é bem evidente.
A trilha sonora até é boa, porém toda vez que você leva um tiro (a garota não morre imediatamente, há uma barra de vida), você ouve um efeito sonoro que é bem irritante: está aí um motivo extra para não ser acertado!
A versão que joguei e de que também são as fotos acima, são do Magic Girl: Featuring Ling Ling the Little Witch, que refinou / melhorou algumas coisas do jogo original - e adivinhem quem fez este trabalho? Sim, a Super Fighter Team - principalmente em termos de jogabilidade, além de traduzí-lo para o inglês. Mais saibam que nós brazucas somos muito mais espertos e rápidos que a Super Fighter Team, tanto que lá mesmo na década de 90 a Dynacom lançou em mídia física aqui no Brasil a versão original deste game taiwanês sob nome Magic Girl, para ser jogado no seu Megavision, é claro.
Squirrel King
Por que também não "piratear" jogos da Disney, não é mesmo? Squirrel King, lançado Gamtec em 1994, contém como protagonistas os esquilos Tico e Teco, e reaproveitam bastante dos conceitos usados nos jogos Chip 'n Dale Rescue Rangers 1 e 2 do Nintendinho (NES).
Infelizmente não temos aqui a mesma qualidade de um jogo oficial da Disney. A trilha sonora, o refinamento do jogo como um todo, e principalmente a falta de expressividade do rosto dos personagens mostram que estamos diante de algo inferior. De qualquer forma, ainda assim Squirrel King é um bom jogo de plataforma. Curto, com bons gráficos, músicas agitadas, e ainda permite dois jogadores simultâneos! Até por não termos nenhum jogo oficial de Tico e Teco nem para o Mega Drive, nem para o Master System, Squirrel King acaba sendo uma opção interessante.
Curiosidade: alguns anos depois a Gamtec fez uma hack deste seu próprio jogo, e modificou o Squirrel King transformando-o em um Super Mario World para o Mega Drive.
The King of Fighters '98
Um dos melhores jogos de luta de todos os tempos, o The King of Fighters '98 do Neo Geo, quem diria, ganhou uma versão digamos "simplificada" para o Mega Drive via mãos taiwanesas, no caso pela desenvolvedora X Boy. Na verdade na verdade, trata-se uma pérola única, pois além de trazer os já esperados personagens de Fatal Fury e Art of Fighting, também traz alguns lutadores de Street Fighter!
The King of Fighters '98 traz 9 personagens para jogar: Terry Bogard [escrito Treey], Andy Bogard e Joe Higashi (de Fatal Fury); Ryo Sakazaki, Takuma Sakazaki e Robert Garcia [escrito Lobaut] (de Art of Fighting); Ryu, Cammy [escrito Canme] e Guile (de Street Fighter). Também se pode jogar com a versão "Orochi" ("malvada") de cada um deles (que como visto na imagem acima da tela de seleção, estão coloridos de cinza escuro); o que significa que não prática são 18 personagens jogáveis.
Os controles são simples. O botão A bloqueia, o B dá soco e o C dá chute. Cada lutador tem cerca de quatro combinações de golpes especiais, e sua respectiva versão "Orochi" apenas duas, mas completamente diferentes. Ou seja: os tais clones "dark", além de mais limitados, são de fato personagens diferentes.
Os gráficos e sons são surpreendentemente bons, mas a movimentação é um pouco lenta e a jogabilidade não é tão fluida. Pelo menos não temos flicker (piscadas na tela), o que já ajuda bem. Não deixei de rir ao perceber que a música tema da tela inicial é do Power Rangers. Apesar de todas as limitações, é um jogo "aceitável", dá para se divertir. E é melhor, por exemplo, do que a conversão do Street Fighter II' que a TecToy fez para o Master System.
Thunderbolt II (Lei Dian Chuan Shuo II)
Jogo de shoot'em up vertical lançado pela Gamtec 1995, nunca houve um Thunderbolt I. A teoria mais aceita é que o game seria uma continuação não oficial do jogo de nave Raiden, de 1990, e aí faria sentido o "II".
Thunderbolt II apresenta bons gráficos, principalmente seus cenários de fundo, sempre trazendo várias camadas distintas de profundidade, o que dá um efeito visual bacana. Por outro lado nem todos os inimigos tem uma movimentação fluida, e alguns deles parecem se movimentar "aos pulinhos". Em termos de jogo, ele é simples: um botão para tiro e outro para lançar bombas, limitadas. Aqui, ao invés de tomar um tiro e morrer, há uma barra de vida, o que não é comum para o gênero.
Com suas virtudes e defeitos, Thunderbolt II é provavelmente o melhor shoot'em up de naves desenvolvido em Taiwan e lançado em sua época.
Water Margin (Shui Hu Feng Yun Zhuan)
Water Margin é um dos melhores jogos taiwaneses e é bastante parecido com um dos jogos da SEGA que mais gosto: Golden Axe. Lançado em 1996 por uma desenvolvedora taiwanesa de nome Never Ending Soft, se em termos de jogabilidade Water Margin: A Tale of Clouds and Wind lembra muito o anteriormente citado beat 'em up de capa e espada da SEGA, já em termos de cores, design e sons, o jogo "rouba" alguns conceitos usados em Knights of the Round e Streets of Rage.
A trama de Water Margin se passa na China medieval, onde temos que lutar contra espíritos malignos e governantes corruptos; fora isso, o jogo lembra bem Golden Axe: um botão para pulo, um para golpear, e outro para soltar magia. Aliás, aqui a mecânica de magia é diferente: ao invés de você acumular mana para soltar mágicas cada vez mais fortes, aqui você coleta unidades de tipos diferentes de magia (fogo, gelo, trovão ou pedra), e invoca apenas uma unidade por vez. Cada uma delas é mais ou menos eficiente perante cada tipo de inimigo.
Também aqui você escolhe um dentre três personagens para jogar. Não gostei do terceiro, "Li Kui", achei sua movimentação "travada", difícil de controlar. Um diferencial de Water Margin é que o final do jogo para cada lutador é diferente. O game como um todo não é tão excepcional em gráficos, jogabilidade e sons quanto um Golden Axe, mas chega bem perto.
Water Margin foi portado para os arcades chineses em 1999, e em 2015 a editora estadunidense Piko Interactive traduziu o jogo para o inglês, também obtendo os direitos do game para lançá-lo no ocidente. Para quem, assim como eu, é fã de Golden Axe, descobrir que existe um novo jogo parecido com ele para se jogar, é bem empolgante.
E como jogar estas raridades do oriente???
É possível encontrar na internet, com alguma dificuldade, a ROM de todos os jogos acima para se jogar em emuladores. Mas para quem quiser estes jogos em mídia física, tenho uma boa notícia. A publicadora de jogos brasileira Big Uncle Games, também conhecida como "BUG", lançou NESTE MÊS aqui no Brasil tanto o Water Margin quanto o Thunderbolt II. É possível comprá-los em eventos especializados de games retrô, e nA Casa Do VideoGame, que fica na cidade de São Paulo. Jogos da BUG também costumam estar disponíveis para venda neste link, porém estes dois novos jogos ainda não se encontram por lá.










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