Após cerca de cinco anos de desenvolvimento, e de vários filmes biográficos de grandes astros da música lançados nos cinemas nos últimos anos, chegou a vez de Michael Jackson ganhar seu filme, que recebeu o simples nome de Michael. A história contada na produção abrange desde a criação dos Jackson 5, nos anos 60, até o fim da era Thriller, no meio dos anos 80, com o filme se encerrando em uma isolada apresentação já dentro da Bad Tour, em 1988.
Tendo como principal produtor o inglês Graham King, o mesmo do filme sobre Freddie Mercury, Bohemian Rhapsody (2018), Michael segue a mesma fórmula: ritmo acelerado, opção por retratar poucos episódios da vida do cantor - e alguns deles não tão fiéis a realidade - e muita música (com a trilha sonora original do artista homenageado), com boa parte do filme mostrando Michael Jackson (interpretado pelo seu sobrinho e filho de Jermaine, Jaafar Jackson) e seus irmãos se apresentando em shows ou TV; praticamente um videoclipe gigante.
Há de se ressaltar, entretanto, que se em Bohemian Rhapsody tanto as coreografias e figurinos foram fiéis, aqui em Michael o nível de perfeição beira o inacreditável. Jaafar imita bem as danças de seu tio, e até as roupas do mais distante figurante são iguais às que foram usadas na vida real.
E também, como dito acima, mesmo não tendo tantos episódios assim da vida de MJ, pelo menos o filme Michael supera Bohemian Rhapsody ao transmitir, através de rápidas falas do protagonista, algumas explicações e curiosidades sobre sua carreira, comportamento e processo criativo. Em outras palavras, este filme acaba sendo mais "informativo" que o primeiro citado.
Mas se pensarmos em tudo o que o filme poderia ser e contar, Michael pode acabar frustrando parte do público. Muito mais poderia ser contado com pequenas correções. Por exemplo, quando vemos Jackson no estúdio cantando pela primeira vez Don't Stop Til You Get Enough, ele já acerta de cara, usando seus famosos gritinhos e "barulhos vocais". Mas não foi assim: na vida real ele estava nervoso, não estava cantando bem, e após algumas tentativas de Quincy Jones falar para ele "sentir mais a música", Michael começou a fazer os barulhos, e aí tudo deslanchou. Com dois minutos de filme todo este "causo" da genialidade de MJ poderia ser contado.
E também não é que o roteiro de Michael não tenha drama ou conflitos, porém ele foca em apenas duas coisas: os maus tratos de seu pai Joseph (Colman Domingo) e a grande solidão que Michael viveu em toda sua vida. E ambos fatos são bem representados. O problema é que fica só nisso: não há conflito com os irmãos, com a gravadora, e mesmo Michael Jackson é representado sempre de modo ultra positivo.
A parte de não ter conflito com os irmãos me incomoda... afinal, quem na verdade está nos contando a história deste filme são 3 dos irmãos Jacksons, mais La Toya (irmã), Prince MJ (o filho mais velho do cantor), e John Branca, co-executor do Espólio de Michael Jackson. Ou seja, eles não vão falar mal deles mesmos... e mais ainda, chegaram ao cúmulo de colocar Branca (Miles Teller) como um dos personagens - e "mocinhos" - do filme!
Porém vou defender o fato de que MJ esteja sempre representado de modo respeitoso e bastante positivo. Oras, não estamos falando de uma pessoa qualquer; estamos falando de uma das pessoas mais difamadas em todo o planeta nas últimas três décadas. Portanto, nada mais justo que haja um contraponto, que alguém mostre algo 100% positivo. Além disto, os aspectos humanitários, filantrópicos e de conscientização social de Michael Jackson fizeram de fato parte de toda sua carreira, então faz sentido serem mencionados e redescobertos.
E acreditem: Michael Jackson é tão difamado que mesmo neste seu filme Michael fatos sobre ele foram modificados de forma negativa. Exemplo: o roteiro dá a entender que Jackson operou pela primeira vez o nariz porque queria ficar igual ao Peter Pan. Na vida real, ele quebrou o nariz em um acidente durante um ensaio de música e aí aproveitou para fazer uma redução, pois seu pai constantemente falava que o nariz dele era grande e feio. Além disto, a segunda operação no nariz - que o filme não explica os motivos - também não foi "de vontade própria", e sim, corretiva, já que a primeira não deu tão certo.
Outra crítica feita ao filme - e que não concordo - é que Michael não comenta sobre as acusações feitas ao cantor. Bem, a história que foi contada aqui termina no meio dos anos 80, ou seja, simplesmente ainda falta quase uma década para que, cronologicamente, a primeira acusação de assédio aconteça. A boa bilheteria que Michael vem obtendo no mundo todo faz com que muito provavelmente teremos um segundo filme, em que aí sim poderemos avaliar como este assunto será tratado. Quanto às minhas críticas? Sinceramente a coisa que mais me irritou no roteiro de Michael foi a insistência de associar Michael com Peter Pan o filme INTEIRO, que além de ser usado para contar fatos de modo errado (como visto acima), contribui para afastar o espectador de um Michael Jackson real, e o traz mais perto do Michael fantasioso contado pela mídia.
Michael acaba sendo um filme bem agradável para se assistir. Vê-lo no cinema então, com o público gritando, torna a experiência - e o próprio MJ - bem mais grandiosa (e recomendável). Quem é mais novo e pouco conhece da vida e músicas de Michael Jackson, certamente irá aproveitar e se empolgar mais com o que viu. Para quem é fã, a falta de ousadia e profundidade no roteiro pode decepcionar um pouco. Mas como disse antes, ver o filme foi divertido, tanto que para mim tudo passou muito rápido; afinal, ouvir Michael Jackson sempre é (muito) bom. Nota (de 1 a 6):
PS: a ausência de 3 mulheres
Dando mais detalhes sobre a produção de Michael. Para quem conhece a família Jackson, não precisa ser muito atento para reparar a completa ausência de Janet Jackson no filme. Ela não é citada, nem representada no filme por nenhuma atriz, parece que nunca existiu. Porém isso aconteceu a pedido da própria Janet, que juntamente com seu irmão Randy, não apoiam o Espólio de Michael Jackson.
Outra ausência bem importante é da cantora Diana Ross, que teve grande participação para promover os Jackson 5, foi uma grande amiga de Michael Jackson durante toda a vida do cantor e aliás, segundo alguns biógrafos, teria sido o grande e único amor da vida de Jackson. Na vida real, ao contrário do que Michael mostra, foi nas gravações do filme O Mágico Inesquecível, de 1978 (The Wiz, no original) que MJ conheceu - e trabalhou pela primeira vez - com o produtor / compositor musical Quincy Jones.
E mais ainda, durante as gravações de The Wiz - feitas em Nova York - Michael morou por lá sozinho, contradizendo a imagem desta biografia, de que até os 20 e poucos anos ele nunca soube o que era viver sem morar com os pais. Várias cenas com a atriz Kat Graham interpretando Diana foram gravadas para o filme Michael, porém Diana Ross entrou na justiça para que ela fosse completamente retirada da história. Ou seja: as ausências de Janet e Diana Ross, e as eventuais "adaptações na realidade" que o roteiro teve que fazer devido a estas perdas, não foram culpa dos produtores / roteiristas do filme.
Porém a "ausência" da terceira mulher do título desta seção é culpa dos produtores sim. Estou falando de Paris Jackson, a filha de Michael, e provavelmente a pessoa que mais amou seu pai. Após ler a primeira versão do roteiro de Michael, Paris pediu para remover algumas coisas - por serem falsas - e pediu para adicionar outras. Porém, sequer lhe deram uma resposta. Devido a isto, ela simplesmente se afastou de tudo relacionado ao filme e disse a imprensa que Michael era fantasioso... Da declaração dela até a versão final do filme foram mais de 3 anos e várias versões de roteiro. Muita coisa pode ter mudado, e certamente mudou. Ela teve alguma coisa atendida? Difícil... e provavelmente nunca saberemos. Ainda assim, fica aqui o registro.























