Crítica - Supergirl (2026)

Título
Supergirl (idem, EUA, 2026)
Diretor: Craig Gillespie
Atores principais: Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham, Jason Momoa, David Corenswet
 
Fui aos cinemas para ver a Supergirl... mas não a encontrei

Quando o filme de Supergirl foi anunciado pela primeira vez, em 2023, ele se chamava Supergirl: Mulher do Amanhã, em clara referência à excelente minissérie em quadrinhos de mesmo nome, a qual não canso de elogiar aqui no blog, escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely. Porém, em 2025, o título mudou para apenas Supergirl; seria um sinal que a história das HQs tinha sido abandonada? Pelo que vimos nos trailers que saíram meses depois, a história original de Supergirl: Mulher do Amanhã continuava lá, intacta. Ou será que não?

Neste filme da Supergirl, exatamente como na minissérie de HQ citada, vemos Kara Zor-El (Milly Alcock) comemorando seu aniversário de 23 anos fora da Terra, em um planeta de estrela vermelha, para que dessa maneira ela perca seus poderes e assim, conseguir se embebedar. Porém, em outro lugar deste planeta, algo muito mais sinistro acontecia: o pirata espacial Krem (Matthias Schoenaerts) acaba de matar os pais de adolescente Ruthye (Eve Ridley), que por sua vez, tenta contratar alguém para vingar sua família e matar o assassino. A Supergirl recusa a tarefa, porém logo depois os caminhos de Kara, Ruthye e Krem se cruzam, e ele foge, sem antes envenenar Krypto, o cachorro da nossa heroína. É então que Kara e Ruthye saem pelo universo procurando por Krem; a primeira em busca de um antídoto; e a segunda ainda pensando em sua vingança. 

Como acontece em qualquer adaptação de livro ou quadrinhos para o cinema, é esperado que a conversão para as telas perca alguma qualidade e alguma parte da trama; primeiro, há a limitação de ter que contar uma história, por mais longa que seja, em 2h. E principalmente no caso de quadrinhos, há a limitação orçamentária: na HQ de Supergirl: Mulher do Amanhã as duas garotas viajam o universo por vários planetas com paisagens deslumbrantes, encontram desafios diversos, encontram dragões, naves diversas... até temos um cavalo alado em boa parte da história! Portanto, dito isso, seria compreensível um filme bem menos "espetacular" em termos de cenários, criaturas e figurinos...

Mas o que o design de produção e o roteiro de Supergirl fizeram aqui é um exemplo para ser levado em qualquer curso de Cinema sobre como NÃO adaptar uma história de HQ.

Vamos começar pelo design de produção: ok, até temos algumas cenas no espaço (as melhores cenas do filme a meu ver), mas boa parte do filme acontece em ambientes urbanos cyberpunk genéricos. Vou mais além: na maioria do tempo você parece estar dentro de um filme do Mad Max filmado à noite. E eu não estou brincando: o jeito que os personagens se vestem, os veículos, localidades... tudo parece Mad Max... e sob uma escuridão constante. Nossa amiga Supergirl simplesmente passa quase o tempo todo do filme sem vestir o uniforme, ela só o veste na luta final. Na maioria do tempo ela mais parece uma humana comum do que uma heroína.

E quanto ao roteiro? A tal Ana Nogueira, roteirista de Supergirl, e que felizmente não é brasileira porém infelizmente tem pai brazuca, altera bastante a história original. E com exceção de UMA alteração (a inclusão de um confronto da Supergirl com ladras dentro de um ônibus espacial), TODAS as outras mudanças foram para pior, ou para MUITO pior.

A inclusão de Lobo (Jason Momoa) na trama até não distorce muito o roteiro, porém, sua personalidade é um bocado descaracterizada em relação aos quadrinhos; mas a deturpação em relação a personalidade da Supergirl é bem maior. Esta Kara Zor-El simplesmente não se importa com ser a Supergirl, e só vai mudar isso no final da história; além de confundir "ser corajosa e independente" com "grosseria". Nos quadrinhos de Supergirl: Mulher do Amanhã, mesmo estando totalmente quebrada por dentro, ela se mantém gentil com todos; a Supergirl está sempre vestindo o seu uniforme, e sabe que, apesar de todo seu sofrimento externo, ela sabe o que ela e o símbolo que ela carrega representam e que ela tem que "dar o exemplo", não transparecer seu sofrimento... para dar esperança. É isso que torna Kara Zor-El um ser ainda mais forte e admirável.

Me surpreendi negativamente ao ver que este filme abandonou a visão de otimismo, esperança - e  visualmente colorida - que James Gunn trouxe ao DCU e retrocedeu para a visão sombria de Zack Snyder; e não tem como não dizer que o diretor australiano Craig Gillespie teve bastante culpa nisso.

Mas, apesar de tantas distorções ao personagem da Supergirl, e pioras do material original, vamos fazer um exercício de chamar este filme de outra coisa... por exemplo, Furiosa. Fazendo isso, temos então uma história de ação aceitável, com cenas boas alternando com cenas ruins, e com um drama pessoal da personagem principal que ainda conseguiu preservar alguma emoção, crescimento e qualidade. Portanto, é pensando desta forma "não-Supergirl" que irei dar a nota deste filmeNota (de 1 a 6):


PS: sabia que este NÃO é o primeiro filme da Supergirl a chegar aos cinemas?!?

Pois é! Em 1984 tivemos o primeiro filme da Supergirl das telonas, como spin-off dos filmes do Superman das décadas de 70 e 80 estrelados pelo Christopher Reeve. O filme foi planejado como uma sequencia direta de Superman III (1983), e pelo roteiro original, ele teria uma grande participação na história... onde seria, além de primo, uma espécie de "mentor" para a Supergirl, porém foi capturado e a trama era ela indo em seu resgate.

Mas nada saiu como o esperado. Bastante insatisfeito com a baixa qualidade tanto do roteiro quanto da produção de Superman III (e também desapontado com a recepção do público), Reeve recusou a fazer o papel. Para piorar, o diretor Jeannot Szwarc se recusava a ter uma atriz famosa no papel principal, e para interpretar a Supergirl foi escalada a novata Helen Slater. Muito longe de ser culpa da atriz, o resultado final do filme foi terrível: cheio de "defeitos especiais", romance piegas, bastante machismo, os atores falando sobre o Superman (que não apareceu em tela) o tempo todo, e uma trama onde Kara Zor-El vive normalmente na cidade de Argo City (cidade de Krypton que sobreviveu à destruição), até que uma esfera metálica mágica (!!) de um de seus Feiticeiros (Peter O'Toole) é lançada de lá e cai no planeta Terra (!!), nas mãos de uma humana de nome Selena (Faye Dunaway), que resolve virar bruxa e fazer maldades. Kara vêm então ao nosso planeta para recuperar o artefato.

Além de Peter O'Toole e Faye Dunaway, Mia Farrow também estava no filme para formar um "trio de atores de peso", que ainda teve Marc McClure fazendo seu papel de Jimmy Olsen (que ele também fez nos Superman de I a IV). Mas não adiantou; o primeiro filme da Supergirl foi uma tristeza... :(

PS 2: não há cenas pós créditos neste novo Supergirl.


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