Mostrando postagens com marcador crítica-filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crítica-filmes. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de março de 2026

Crítica - Devoradores de Estrelas (2026)

TítuloDevoradores de Estrelas ("Project Hail Mary", EUA, 2026)
Diretores: Phil Lord, Christopher Miller
Atores principais: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz (vozes), Priya Kansara (vozes), Lionel Boyce

Filme acerta no humor mas falha na ciência

Temos de volta nos cinemas um blockbuster de ficção científica, Devoradores de Estrelas, que vem sendo sucesso de crítica e público. O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome lançado pelo estadunidense Andy Weir em 2021, mesmo autor de Perdido em Marte.

Na história, descobrimos que "algo" está consumindo não somente nosso Sol, como também todas as estrelas mais próximas a nós... menos uma: Tau Ceti; é então que a humanidade decide enviar para lá em uma nave três pessoas para descobrir o motivo, dentre eles nosso herói, o biólogo molecular Ryland Grace (Ryan Gosling). O problema é que para chegar em um lugar tão longe os astronautas são colocados em coma induzido na maioria do tempo, e quando Grace acorda, não apenas ele é o único que sobreviveu ao processo, como também sofre de grandes perdas de memória, se esquecendo de quem é, e do porquê que ele estaria em uma nave.

Todos os três livros escritos por Andy Weir até hoje possuem algumas características em comum: um protagonista solitário e inteligente que consegue se virar de modo criativo nas mais inusitadas e difíceis situações, otimismo em relação à capacidade humana, muito humor, conceitos de ciência e física tentando ser o mais reais e acessíveis possível para o público.

E no filme Perdido em Marte, de 2015, de certa forma tudo isto foi transportado com sucesso para as telas. Já neste Devoradores de Estrelas, comparativamente, temos um ator melhor, que igualmente realiza e supera desafios, temos uma quantidade muito maior de piadas e humor (e bem feitos, aliás), mas na hora de mostrar ciência... chega até a doer. Neste aspecto, o roteiro parece muito mais fantasia do que ficção científica.

Lá pela metade do filme, Grace acaba se encontrando com um alienígena, Rocky (James Ortiz): e a maneira com que eles se aprendem a comunicar foi tão rápida e fácil que me tirou completamente da história. Eu entendo que muita coisa precisa ser simplificada para que o público em geral consiga melhor compreensão, mas Devoradores de Estrelas exagerou. Fora os furos de roteiro que a "fantasia" colocada no filme traz... Por exemplo: aprendemos que Rocky não tem olhos e "enxerga" através do som, ou seja, ele precisa que um objeto tenha relevo para vê-lo. É por isso que Ryland coloca peças com números em 3D em cima do display do relógio para que Rocky consiga "ver" os números. Certo. E aí, uns vinte minutos depois, vemos a dupla assistindo imagens do planeta Terra em um telão plano de LCD (???!!!). É muita burrice.

Não sei até que ponto o livro explica de modo convincente a parte científica em Devoradores de Estrelas, pois não o li, mas sei que lá, como nos demais livros de Andy Weir, há a tentativa de levar a ciência a sério: por exemplo, diferentemente do filme, o sistema numérico de Rocky nem é decimal (vai até 6), e até isso o livro explica como eles tiveram que lidar. O livro também explica porque só Grace sobreviveu ao coma induzido, explicação que duraria apenas 15 segundos e o desleixado roteiro do filme ignora.

O que mais me espanta é que o roteirista de Devoradores de Estrelas é o mesmo de Perdido em Marte: Drew Goddard, e no outro filme a parte científica foi bem mais acurada. O que será que aconteceu? Seria influencia dos diretores? Já que em Perdido em Marte o diretor era Ridley Scott, especialista em Ficção Científica, e aqui os diretores são especialistas em Comédia + Aventura (as franquias de animação Uma Aventura Lego, Aranhaverso e Tá Chovendo Hambúrguer)?

A consequência de se trocar ciência por "fantasia" é que as dificuldades enfrentadas por Ryland e Rocky perdem muito do seu peso, e o filme perde bastante do seu drama. Pelo menos há as cenas em flashback no Planeta Terra para contrabalancear isso. Estas sim, são cenas sérias, mais pesadas, e a grande responsável por estas cenas funcionarem tão bem é a ótima atuação de Sandra Hüller, que consegue se mostrar firme, séria, mas ainda assim compassiva.

Em termos visuais, Devoradores de Estrelas também não é tão impressionante, a maioria das cenas são filmadas dentro da apertada nave de Grace, e portanto, não primam por grande beleza; e o próprio design visual do alienígena Rocky é quase uma versão dos robôs vistos em Perdido em Marte só que feito de pedra: aparentemente Andy Weir não tem muita criatividade para imaginar seres não-humanos(*). Entretanto, as poucas cenas em plano aberto no espaço, estas sim são belas e, embora não sejam espetaculares, justificam assistir Devoradores de Estrelas nas telonas do cinema.

Apesar de todas as críticas acima que fiz a Devoradores de Estrelas, o filme é um ótimo entretenimento e se você não for assisti-lo querendo uma ficção científica séria, mas um filme de aventura e comédia, vai se divertir bastante. Principalmente se encarar Devoradores de Estrelas como comédia. Ah, e mais uma vantagem: o filme é bastante otimista e good vibes; portanto, se você, assim como eu, está sobrecarregado de tanto pessimismo e notícia ruim vinda do mundo real atual, ir no cinema ver esta obra é um ótimo descanso para a mente e alma! Nota (de 1 a 6):



PS: o nome do livro e filme no original, "Project Hail Mary", que traduzido no literal seria "Projeto Ave Maria", tem um significado importante que foi perdido na tradução. É que nos países de língua inglesa, e principalmente nos EUA, um "Hail Mary" também serve como uma gíria para um ato desesperado com pouca chance de sucesso, que vai depender de sorte ou "milagre". É uma expressão bastante usada no Futebol Americano, quando um time tenta fazer um passe longo e desesperado nos segundos finais de um jogo, para concluir um touchdown para virar ou empatar a partida.

(*) Atualização/correção: devo uma pequena desculpa a Andy Weir: os tais robôs com quem Rocky se parece não são de Perdido em Marte, e sim de Interestelar (2014), que não possui nenhuma relação com o escritor. Rocky parece uma versão em menor escala dos robôs TARS e CASE deste filme.

terça-feira, 10 de março de 2026

Crítica - Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025)

TítuloHamnet: A Vida Antes de Hamlet ("Hamnet", EUA / Reino Unido, 2025)
Diretor: Chloé Zhao
Atores principais: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Olivia Lynes, David Wilmot, Bodhi Rae Breathnach
Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=3OovzJLVxUo
 
Jessie Buckley é o menos pior em um filme com emoções imaginárias

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme baseado no livro ficcional de 2020 de nome Hamnet, escrito pela Norte-Irlandesa Maggie O'Farrell, que aqui também é co-roteirista junto com a diretora Chloé Zhao (vencedora do Oscar com Nomadland). Ele trata da vida de William Shakespeare e sua esposa Agnes Hathaway, e de como eles lidam com a perda precoce de seu filho Hamnet.

Para quem acaba de ficar bravo comigo pelo spoiler acima, em minha defesa a morte do pequeno Hamnet é mostrada no trailer e também é citada na sinopse oficial do filme; e com este detalhe da trama já dá para perceber que o subtítulo "A Vida Antes de Hamlet" que colocaram aqui no Brasil, e que não existe no original, é um bocado idiota.

A história começa nos apresentando William (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley). Aprendemos que Shakespeare voltou da "cidade grande" para trabalhar em uma pequena vila rural para ajudar seu pai a pagar suas dívidas; já Agnes é apresentada como uma espécie de curandeira local, sempre em forte contato com a natureza, e que costuma ter visões proféticas. A dupla se conhece, rapidamente se apaixona e tem sua primeira filha.

E é com este clima bucólico e cotidiano que seguimos até a metade do filme, com alguns problemas. Hamnet constantemente mostra o casal como muito apaixonado um pelo outro, com eles declamando seu amor, até vemos eles em algumas cenas de sexo... porém não "sentimos" esse amor, não há qualquer demonstração verdadeira de afeto ou cumplicidade... tudo fica apenas em nossa imaginação. Eu não vi uma única cena no filme que me faça entender porque Agnes se apaixonou por Shakespeare, fora que a atuação de Paul Mescal é bem ruim. Para não ofender, vou dizer que ele passa o filme todo com uma única expressão, de "estou com dor de dente".

Aliás, o mesmo pode ser dito sobre a emoção de "ódio"... os personagens gritam com os outros do nada, você até entende porque estão gritando, mas não sente ser real. A primeira metade de Hamnet, em geral, é lenta e repleta de emoções ocas. Talvez um dos motivos disto acontecer seja a opção por não ter nenhuma trilha sonora, algo que costuma ajudar a trazer sentimentos para o espectador; de qualquer forma, a coisa mais próxima de "emoção" que o filme traz são algumas cenas que induzem tensão a platéia por nos fazerem a acreditar que algo muito ruim vá acontecer em breve. Porém isso não acontece, é sempre alarme falso.

Então exatamente na metade de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet uma tragédia de fato (e enfim) acontece, e os rumos do filme mudam, felizmente para melhor. E ainda assim, a maneira que a tal tragédia é contada não me agradou, pois de certa forma, acaba fazendo alusão a elementos sobrenaturais, que me parecem desnecessários para a mensagem da trama.

Em sua segunda metade o filme fica um pouco mais dinâmico, com as histórias de William e Agnes se alternando menos lentamente, e com alguma emoção genuína colocada, enfim, com o apoio de trilha sonora. O melhor vem com o ato final, onde Shakespeare apresenta para o público pela primeira vez sua nova peça, Hamlet.

É durante a apresentação da peça em que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet enfim faz sentido, amarrando tudo o que ele contou nas intermináveis 1h e 30min anteriores. Pela primeira vez vemos de forma convincente que Shakespeare tem algum sentimento, e de modo improvável até mesmo as visões que o pequeno Hamnet herdou de sua mãe se concretizaram. Tudo converge para emocionar o espectador e, pela reação das pessoas nas mídias sociais, parece ter funcionado perfeitamente.

Mas ainda assim, mesmo em seu ápice, Hamnet deixa um bocado a desejar; seu desfecho é bem piegas, e um exemplo disso é que até dá para aceitar Agnes se emocionar e querer tocar / acolher o ator do personagem de Hamlet, mas o restante do público não. Aliás, o comportamento de Agnes é totalmente inverossímil. Uma coisa é você estar abalada pela morte do filho, outra é se comportar durante a peça toda como se fosse o doidinho da praça. Também chego a ficar indignado com a facilidade com que Agnes "perdoa" Shakespeare, um "pai" totalmente ausente.

As únicas coisas que se realmente se salvam Hamnet: A Vida Antes de Hamlet são as atuações de Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet, e de Jessie Buckley, que está bem apesar dos exageros e provavelmente levará o Oscar de Melhor Atriz. A direção ruim de Chloé Zhao conseguiu fazer que a ótima Jessie não estivesse em seu melhor. Mas pelo menos serviu para a atriz provar mais uma vez que é versátil e carismática, e se ela levar o Oscar não acharei ruim. Só não seria tanto por Hamnet, e sim pelo conjunto da sua carreira. Nota (de 1 a 6):



PS 1: conforme o filme explica em seu letreiro incial, "Hamnet" também era escrito como "Hamlet" na época de Shakespeare, e portanto, dá para se dizer que ambos são o mesmo nome. Sobre a tese principal do filme (e do livro), de que Hamlet tenha sido escrito por William devido a morte de Hamnet, não há nenhuma comprovação histórica sobre isso.

Eu particularmente acredito que o nome da peça ter sido o nome de seu filho, e o próprio protagonista da história ser "um filho", não são coincidências; não tenho dúvidas que Shakespeare estava sim homenageando sua criança. Mas, e quanto ao resto da história de Hamlet? O que temos, além da tal homenagem, para indicar que houve uma inspiração direta? É fato que a peça debate bastante sobre a morte e a dor da perda; por outro lado, ela é principalmente uma história sobre vingança, fala do luto de um filho pelo pai (e não o contrário), e foi escrita 4 anos depois que Hamnet morreu.

PS 2: no caso do nome da esposa de William Shakespeare acontecia a mesma coisa, tanto podia se escrever Agnes quanto Anne Hathaway, ainda que nas referencias escritas que temos à ela sejam muito mais comuns a grafia Anne. O "triste" é o motivo da escolha pelo nome Agnes... a mudança foi feita apenas no filme (não existe no livro) para que o público não "confundisse" a protagonista com a atriz de mesmo nome do nosso tempo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Crítica - Valor Sentimental (2025)

TítuloValor Sentimental ("Affeksjonsverdi", Alemanha / Dinamarca / França / Noruega / Reino Unido / Suécia / Turquia, 2025)
Diretor: Joachim Trier
Atores principaisRenate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Anders Danielsen Lie, Jesper Christensen, Lena Endre
 
Valor Sentimental é uma aula de Cinema, roteiro e montagem

Estou de volta com as críticas dos filmes do Oscar 2026. Desta vez, venho com Valor Sentimental, filme de drama norueguês que recebeu 9 indicações, dentre elas a de Melhor Filme. E que, com a cerimônia do Oscar chegando, voltou aos cinemas brasileiros.

Embora acompanhemos na trama algumas pessoas da família Borg, o principal foco é na relação entre o pai Gustav Borg (Stellan Skarsgård) e sua filha mais velha, Nora Borg (Renate Reinsve). Com o recente falecimento da matriarca da família, Gustav - hoje um famoso diretor de cinema, e que no passado mudou de país abandonando as filhas ainda crianças - vai ao velório e desta forma enfim revê suas crias, quando aproveita para convidar Nora - hoje uma insegura porém bem sucedida atriz local de teatro - ser a protagonista de seu próximo filme, o que gera conflitos e a volta de fantasmas do passado.

Valor Sentimental é um filme sobre dor, sobre família, amor fraterno, sobre cinema, sobre ser diretor, ser atriz, sobre uma casa, sobre como se interpreta a arte, sobre comunicação, reconciliação... e o mais genial é que tudo isto é feito de um modo sutil, poético e metalinguístico: assistimos Gustav explicar e produzir seu filme, e ao mesmo tempo cenas da vida real que se comportam da mesma maneira, de modo entrelaçado, orgânico, complementar.

É por isso que destaquei no meu subtítulo que o filme é uma aula de cinema, roteiro e montagem; não à toa Valor Sentimental foi indicado no Oscar a todas estas categorias: Melhor Filme, Melhor DiretorMelhor Roteiro Original e Melhor Montagem. O filme também está indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional (o que será um problema para o nosso O Agente Secreto), e tem não somente Stellan Skarsgård indicado para ator, mas 3 das atrizes indicadas. Todos eles estão muito bem, mas para mim o grande destaque é mesmo Renate Reinsve, indicada para Melhor Atriz.

Renate está muito bem o filme inteiro, mas principalmente na primeira e na última sequência de cenas do filme, onde ela é destaque... sua atuação é bastante impressionante!

Valor Sentimental só não ganha uma nota maior minha pois eu achei que seus conflitos se encerram de um jeito muito fácil, até inverossímil... a personagem de Elle Fanning, por exemplo, é praticamente uma santa, não consigo conceber uma estrela do cinema atual (personagem que ela faz) ser assim no mundo real...

De qualquer forma, Valor Sentimental é um filmaço. Para quem gosta de cinema, ou arte em geral, é bastante impressionante. Ele é um exemplo prático de como o cinema pode ser usado de forma criativa para emocionar e contar uma história. Contar histórias, aliás, que nem sempre são possíveis com palavras. Nota (de 1 a 6): 




PSStellan Skarsgård, ator sueco de 74 anos, apesar de já ter feito dezenas de filmes em Hollywood, só agora conseguiu sua primeira indicação ao Oscar, com este Valor Sentimental, por Melhor Ator Coadjuvante. Como curiosidade, no filme ele fala (e muito bem) em norueguês, inglês e sueco, já que é fluente em todos estes idiomas. Em 2022 ele sofreu um AVC e apesar ter se recuperado consideravelmente bem, perdeu bastante a capacidade de memória a curto prazo, e desde então tem grandes dificuldades para decorar suas falas. É por isso que a partir do incidente, ou seja, a partir das filmagens de Duna: Parte DoisStellan grava suas cenas com um ponto eletrônico no ouvido para receber suas falas em tempo real. Parece fácil? É exatamente o contrário: afinal ele precisa repetir o que lhe é falado e atuar, tudo ao mesmo tempo!

PS2: e no elenco de Valor Sentimental não temos apenas Stellan Skarsgård como poliglota... são vários os exemplos. A norueguesa Inga Ibsdotter Lilleaas, que concorre ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, morou em Goiânia por um ano, com 17 anos de idade. E ainda fala português muito bem, como vemos no pequeno vídeo abaixo:



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Dupla Crítica Prime Video - Código Preto (2025) e Dupla Perigosa (2026)


Mais uma vez vamos de "pague um e leve dois". Embora não seja produção da Prime Video - Código Preto esteve nos cinemas brasileiros em Março de 2025 - ele chegou nos streamings faz poucos meses; já Dupla Perigosa, esse sim lançamento exclusivo e direto na Prime Video, foi lançado há poucas semanas e traz um inusitado encontro dos brutamontes Dave Bautista e Jason Momoa. Bora ver minha opinião sobre eles!



Código Preto
 (2025)
Diretor: Steven Soderbergh
Atores principais: Cate Blanchett, Michael Fassbender, Marisa Abela, Tom Burke, Naomie Harris, Regé-Jean Page, Pierce Brosnan

O diretor estadunidense Steven Soderbergh tem em sua filmografia vários filmes de ação e suspense envolvendo múltiplos personagens, como por exemplo Traffic (2000), a trilogia de Onze Homens e Um SegredoO Desinformante! (2009), e Contágio (2011). Em Código Preto não temos tantos personagens, mas o clima de correria com constante tensão que lhe fez famoso continua presente.

Na história, George (Michael Fassbender) e Kathryn (Cate Blanchett) são casados e ambos funcionários da mais avançada célula da NCSC, o Centro de Segurança Cibernética do Reino Unido. George é avisado de que um programa altamente secreto de nome Severus vazou do Centro, e uma das poucas pessoas que poderiam estar envolvidas no vazamento é justamente sua esposa. É então que ele começa uma investigação para descobrir quem de seu time (incluindo Kathryn) é de fato o culpado.

Sinceramente, achei algumas coisas de Código Preto bem inverossímeis: simplesmente todos os personagens se odeiam, se atacam o tempo todo em grande nível de competitividade, e ainda assim trabalham na mesma equipe há anos? Mas, deixando detalhes com este de lado, a trama de suspense  do filme é bem feita - você não sabe até o final se Kathryn é inocente ou culpada - e temos algumas reviravoltas interessantes. Em resumo, temos um bom filme de suspense com bons atores, e o filme merece um pouco mais de reconhecimento. Nota (de 1 a 6):




Dupla Perigosa
 (2026)
DiretorAngel Manuel Soto
Atores principais: Dave Bautista, Jason Momoa, Temuera Morrison, Roimata Fox, Morena Baccarin, Frankie Adams, Claes Bang, Jacob Batalon, Maia Kealoha, Stephen Root
 
Pensem em uma fórmula repetida em filmes. Pois é: um filme de ação com uma dupla de policiais abusando de cenas de humor. Não estamos falando de Máquina Mortífera, A Hora do Rush ou Bad Boys... Desta vez vamos de Dupla Perigosa, com os irmãos Jonny (Jason Momoa) e James (Dave Bautista), aprontando todas no Havaí.

Se Bautista está sempre sério e nas poucas vezes que faz rir é por ser ranzinza, Momoa é o bêbado rebelde que está sempre fazendo suas palhaçadas. Na trama, basicamente a dupla sai lutando contra a máfia para se vingar do assassinato do pai. Dirigido pelo jovem diretor porto-riquenho Angel Manuel Soto, o mesmo de Besouro Azul (2023), tanto no humor quanto nas cenas de ação Dupla Perigosa tem muitos altos e baixos; passagens boas contrastando com passagens ruins.

Curiosamente o melhor do filme é Morena Baccarin, que não tem tanto tempo de tela, e que no filme também é brasileira. No final das contas, mesmo atuando tão bem com o Cigano Igor, a dupla Bautista e Momoa até combinou. Dupla Perigosa é um filme de Sessão da Tarde legalzinho, mas é divertido. Nota (de 1 a 6):

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dupla Crítica Filmes do Oscar - Sonhos de Trem (2025) e Pecadores (2025)


Aproveitando que o assunto Oscar está em alta, já que a lista de indicados para o Oscar 2026 foi divulgada semana passada, hoje trago a crítica de duas produções que figuram entre a lista dos indicados a Melhor Filme. Primeiro, Sonhos de Trem, é distribuído apenas pela Netflix e somou 4 indicações; e depois vamos de Pecadores, com suas inéditas DEZESSEIS indicações. Curiosamente, os dois filmes se passam mais ou menos na mesma época, ou seja, no começo do século XX. Veja a seguir o que eu achei de ambos!


Sonhos de Trem (2025)
Diretor: Clint Bentley
Atores principais: Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry Condon, Will Patton, William H. Macy, John Diehl, Nathaniel Arcand, Ignatius Jack

Sonhos de Trem é um filme baseado em um livro de mesmo nome, cujos direitos de transmissão foram comprados pela Netflix. Ou seja, para vê-lo, terá mesmo que ser via o streaming do "N" vermelho.

Na história, acompanhamos praticamente toda a vida adulta de Robert Grainier (Joel Edgerton), um órfão meio "bruto", calado, que passa as primeiras décadas dos anos 1900 trabalhando na construção de ferrovias, principalmente como lenhador, e eventualmente ajudando a assentar os trilhos.
 
Sonhos de Trem é, mais do que qualquer outra coisa, um filme bastante contemplativo sobre luto e passagem do tempo. Assim como seu personagem principal, o roteiro pouco se preocupa com diálogos, em falar algo... o que temos, em geral, é uma lenta contemplação de belíssimas (e muitas vezes tristes) imagens.
 
Imagens estas que ganharam a indicação para o Oscar de Melhor Fotografia, que, não sei se vocês sabem, foram produzidas pelo brasileiro Adolpho Veloso. Ou seja, caso Sonhos de Trem leve esta estatueta, sim, ela será do Brasil! Olha, e seria merecida... a fotografia aqui é realmente maravilhosa!
 
Não há uma conclusão para Sonhos de Trem... assim como não há uma conclusão para o sentido da vida. Mesmo assim, acompanhar a melancólica passagem de Robert por este planeta é uma experiência comovente, com final satisfatório, e que vale a pena assistir para nos fazer parar, respirar, e refletir; nem que seja apenas por algumas horasNota (de 1 a 6):
 




Pecadores
 (2025)
DiretorRyan Coogler
Atores principais: Michael B. Jordan, Hailee Steinfeld, Miles Caton, Jack O'Connell, Wunmi Mosaku, Delroy Lindo
 
Eu assisti Pecadores no ano passado, mas devido a ele conseguir nada menos que 16 indicações ao Oscar - novo recorde absoluto - tive que voltar aqui para escrever minha crítica e deixar minha opinião. O filme é uma história que mistura drama histórico com terror, e se passa no ano de 1932 na região do rio Mississippi, em um racista sul dos EUA.

Vamos começar pelas coisas que Pecadores é realmente bom. Primeiro, sua ótima fotografia, e o fato de boa parte das cenas serem a noite só torna este trabalho ainda mais admirável. Em segundo lugar, o filme é um grande tributo ao Blues, fazendo este gênero musical parte da trama em todo momento, e de um jeito muito bonito. Pecadores mostra suas origens (este estilo musical de fato surgiu naquela região, incorporando tradições musicais africanas), exibindo empolgação e emoção genuínas dos personagens com o ritmo, conduz a história com canções e melodias belíssimas (a trilha sonora, recheada de blues, é excelente), e também, não esquece de mostrar que esta música servia para "amenizar" o trabalho do trabalhador negro nos campos de colheita durante o dia, e ser uma das poucas válvulas de escape para eles à noite.
 
E finalmente o melhor e mais impactante de Pecadores é sua mensagem final: que para alguém preto nos EUA dos anos 30, não importa trabalhar duro do jeito honesto ou do jeito desonesto; no filme os personagens tentaram dos dois jeitos, mas em ambos os casos é impossível ser bem sucedido... sim, você até pode ter alguma melhora de vida... como empregado; mas nunca será um "patrão" (mensagem que, dadas as devidas proporções, ainda é um bocado aplicável nos dias de hoje).
 
Pecadores é, de fato, um filme... diferente. Afinal, ele passa a maioria de sua história sem nos mostrar nada de sobrenatural, e então, em seu ato final, aparecem vampiros de tudo quanto é lado. Porém, isso já foi feito antes, em Um Drink no Inferno (1996), de Robert Rodriguez. Foi feito antes e foi feito melhor, já que os vampiros de Robert Rodriguez são mais assustadores do que estes aqui criados por Ryan Coogler. Em Um Drink no Inferno tínhamos uma história policial interessante, mas seu desfecho com vampiros era o melhor do filme: apoteótico, marcante. Isso não acontece em Pecadores: quando os dentuços chegam, o filme piora.
 
Há mais problemas em Pecadores: o desenvolvimento dos personagens é questionável. Sim, nós simpatizamos com eles porque são bastante oprimidos; porém o que conhecemos de verdade sobre cada um deles? Com exceção do "Preacher Boy" (Miles Caton), o pouco que aprendemos sobre os personagens são através de insinuações sobre o passado dos mesmos através de diálogos, e temos uma amarga  sensação de que "pegamos o bonde já andando". Esta falta de aprofundamento não permite que os atores tenham momentos de grande necessidade de atuação em tela (com uma única possível exceção para o novato Miles Caton, em seu primeiro filme da carreira). Desde modo, mesmo que em geral o elenco todo esteja bem, para mim as indicações de Melhor Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante e Melhor Elenco dadas pelo Oscar são exageradas.
 
Como resultado final, Pecadores acaba sendo um drama histórico muito bom, mas como filme de terror - que aliás é a forma na qual ele mais se vende - é mediano. Imagino que Coogler quis trazer o terror para a história para que seu filme ficasse "único"; porém, o gênero não combinou direito: o verdadeiro confronto do bem contra o mal do filme não é espiritual, é bem terreno. Toda vez que em Pecadores que a história puxa para o sobrenatural, algo parece deslocado, e pior ela fica.
 
Somando prós e contras o filme é sem nenhuma dúvida acima da média. Aquelas "três coisas em que o filme é bom" que citei no começo deste artigo fazem muita diferença. Por outro lado, a produção não é tudo o que falam, a meu ver. O fato dos dois filmes com mais indicações ao Oscar 2026 serem Pecadores (com 16) e Uma Batalha Após a Outra (com 13) aparenta ser reflexo de uma temporada com produções concorrentes mais fracas e a Academia querendo passar um recado político ao péssimo governo estadunidense atual. Nota (de 1 a 6):
 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Crítica - A Empregada (2025)

TítuloA Empregada ("The Housemaid", EUA, 2025)
Diretor: Paul Feig
Atores principaisSydney Sweeney, Amanda Seyfried, Brandon Sklenar, Michele Morrone, Indiana Elle
 
Diretor insere comédia em drama, mas filme se salva no final

Ano novo, filmes novos! Estreando hoje, 1º de Janeiro, nos cinemas brasileiros temos A Empregada, filme de suspense com orçamento respeitável e que até agora tem se saído melhor nas bilheterias norte-americanas do que o previsto.

A história de A Empregada é baseada em um livro de mesmo nome de 2022, escrito pela escritora estadunidense Freida McFadden. Mas apesar de ser baseado em uma obra literária o roteiro é no máximo mediano, contando com várias situações improváveis, clichês, e muitos diálogos dignos de novelas mexicanas. Os atores também são bem ruins, canastrões. Já as atrizes estão bem: Sydney Sweeney atua de forma competente e sem comprometer (e além disso a produção explora um bocado de sua beleza), e a atuação de Amanda Seyfried é provavelmente a melhor coisa do filme.

A Empregada é definitivamente vendido como um filme de suspense psicológico, beirando o terror, até pelo livro original. Porém, talvez porque o diretor é Paul Feig, que está bem mais acostumado a fazer filmes de comédia, o que temos aqui, alternando com os momentos de tensão, são dezenas de cenas surreais, vergonhosas, que levam o publico a rir de tanto constrangimento e absurdo. O mesmo pode ser dito da trilha sonora, que acompanha o clima "pastelão" de A Empregada, e reforça, de modo surpreendente e equivocado que o filme não se leva a sério.

Felizmente nem tudo de A Empregada é ruim. A fotografia é muito bem feita e nos momentos em que o filme não está envergonhando o espectador, as cenas de suspense são realmente tensas, sufocantes, o que eleva a qualidade da produção e, afinal de contas, cumpre o que prometeu entregar.

E principalmente, com as reviravoltas de sua parte final, o filme melhora bem em todos os aspectos, e mesmo com algumas explicações continuarem a não fazer sentido, o desfecho é bem satisfatório para o publico, salvando de vez A Empregada.

Com baixos gigantescos e altos, A Empregada ainda assim deverá agradar o público em geral, tanto masculino como feminino, e talvez até mais o último. Nota (de 1 a 6):

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Dupla Crítica Filmes Netflix - O Filho de Mil Homens (2025) e A Noite Sempre Chega (2025)


Hoje publico minhas duas últimas críticas de filmes de 2025, ambos lançamentos exclusivos na Netflix. O primeiro e mais recente, O Filho de Mil Homens, foi lançado em Outubro e é produção nacional. Já A Noite Sempre Chega é um filme estadunidense que estreou em Agosto, e resolvi trazê-lo aqui porque ele teve pouca repercussão, então é uma oportunidade para mais pessoas conhecerem. Bora para as análises!



O Filho de Mil Homens
 (2025)
Diretor: Daniel Rezende
Atores principais: Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Miguel Martines, Johnny Massaro. Grace Passô, Juliana Caldas, Zezé Motta

Baseado em um livro de mesmo nome de 2011, escrito pelo português Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens conta a história de algumas pessoas em um pequeno vilarejo à beira-mar, nos anos 1950 (informação esta que só aparece no livro, o filme não traz nenhuma informação de data). São 5 personagens principais, todos eles rejeitados pela sociedade, e que vivem em imensa solidão.

O Filho de Mil Homens é lento, contemplativo... e pesadíssimo: vemos os personagens principais sofrerem os mais diversos tipos de violência (o filme tem indicação mínima para 16 anos), mas ao mesmo tempo, têm muita beleza, seja pela suas imagens e fotografias belíssimas, mostradas como se fossem pinturas em quadros, ou pela narração que parece poema, ou ainda, nos tocantes momentos de afeto que estes sofridos protagonistas recebem e/ou proporcionam.

Exemplificando alguns dos dramas apresentados, um dos personagens passou a vida sendo forçadamente trancado em casa por ser homossexual; outra, viveu igualmente trancada para poder se casar virgem... e não contarei mais para não estragar as surpresas emocionais do filme.

Roteiro e montagem de O Filho de Mil Homens são brilhantes em mostrar como a vida de cada um dos 5 personagens, a princípio histórias isoladas, se encaixam umas com as outras formando uma história única. Outro ponto muito elogiável são as atuações: o elenco é bem numeroso, e com várias interpretações ótimas.

Pelo que verifiquei, filme e livro são bem parecidos, sendo as principais diferenças que no livro o personagem Crisóstomo (Rodrigo Santoro) tem mais destaque, além de trazer muito mais reflexões internas e detalhes típicos da cultura de Portugal. Ainda assim, apesar das mudanças, o filme de O Filho de Mil Homens conseguiu manter a essência da obra original, é comovente, e em uma definição simples, uma poesia audiovisual. Nota: 8,0.



A Noite Sempre Chega 
(2025)
Diretor: Benjamin Caron
Atores principais: Vanessa Kirby, Jennifer Jason Leigh, Zack Gottsagen, Stephan James, Randall Park

O segundo filme deste artigo também é adaptação de um livro, trata-se do livro de mesmo nome escrito pelo estadunidense Willy Vlautin, publicado em 2021. Porém, mesmo sendo a adaptação de algo escrito já há alguns anos, fiquei com a sensação de que A Noite Sempre Chega teve fortes influências do cinema recente. Explico:

Do modo que A Noite Sempre Chega foi filmado, parece que seus produtores e diretor quiseram fazer aqui um novo Anora, aproveitando o hype do filme que havia acabado de vencer o prêmio máximo do Festival de Cannes (e vários meses depois, levaria também o prêmio máximo dOs Oscars).

Assim como no filme anteriormente citado, A Noite Sempre Chega é filmado em um ritmo frenético de muita ação e caos. As semelhanças também aparecem na paleta de cores escolhida na fotografia, cenários, e maneira de enquadramento da câmera. As protagonistas também são parecidas, já que aqui a personagem principal Lynette (Vanessa Kirby) é uma (ex?) garota de programa.

Entretanto os paralelos com Anora se encerram aí. Se lá, apesar do drama, há alívio cômico e cenas mais leves e sensuais, aqui em A Noite Sempre Chega não há nenhum respiro, tudo é sério, muito tenso e violento. Na trama, também totalmente diferente, Lynette mora há muitos anos com sua mãe (Jennifer Jason Leigh) e seu irmão mais velho com síndrome de Down, Kenny (Zack Gottsagen), em uma casa alugada cujo dono vai vendê-la; então ela tem apenas alguns poucos dias para cobrir a oferta e comprar a casa ela mesma, ou a família será despejada. Conforme o pouco tempo vai passando e ela vai tendo dificuldade para arrumar o dinheiro, Lynette começa a fazer coisas cada vez mais condenáveis e arriscadas.

Não sei como a história de A Noite Sempre Chega é no livro, mas o roteiro exibido no filme deixa a desejar. Ao não contextualizar nada do passado de Lynette e sua mãe, fica muito difícil entender algumas ações de ambas, principalmente da matriarca. Já o final do filme, que em teoria "conclui tudo", na prática deixa uma sensação de não concluir nada... Não me parece plausível que tudo o que vimos não terá consequências futuras, ou mesmo, que o final tenha de fato concluído minimamente todas as questões que o filme propôs.

Como drama, A Noite Sempre Chega não é ruim, seu clima de constante tensão e reviravoltas são muito bem executados e o ponto alto da produção. Mas com um roteiro não muito convincente, e sem se preocupar em nenhum momento em cativar o público, o filme não chega perto daquele que, em minha teoria, tentou imitar. Nota: 6,0.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Crítica Netflix - Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025)

Título
: Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out ("Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery", EUA, 2025)
Diretor: Rian Johnson
Atores principais: Daniel Craig, Josh O'Connor, Glenn Close, Josh Brolin, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Thomas Haden Church, Jeffrey Wright
Nota: 7,0

Rian Johnson completa sua "Trilogia Knives Out" com o melhor dos três filmes

Depois de seu Entre Facas e Segredos (2019) e sua seqüência Glass Onion: Um Mistério Knives Out (2022), o diretor e roteirista Rian Johnson encerra com Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out os dois filmes da franquia "Knives Out" que ele prometeu fazer e entregar para a Netflix vendendo os direitos de exclusividade por absurdos US$ 469 milhões. Quando criou a franquia, em 2019, sua idéia era trazer uma roupagem moderna para histórias de whodunnit, como as de Agatha Christie, e foi o que ele fez.

Além da história de assassinato em si, para cada um dos filmes Johnson quis trazer algum tema para fazer suas críticas. No primeiro filme, a crítica foi dirigida à velha aristocracia estadunidense, a como eles se acham superiores e tratam os imigrantes; no segundo, os ataques foram aos bilionários da tecnologia. E agora, neste Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, o tema escolhido foi o Cristianismo.

Na trama, o jovem padre Jud Duplenticy (Josh O'Connor) é transferido para uma pequena paróquia rural, liderada pelo controverso Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), cujo estranho comportamento e "ortodoxas" pregações mantém sua igreja com um número muito reduzido de estranhos fiéis. Durante uma missa de Sexta-Feira Santa, Wicks é assassinado dentro de uma câmara completamente fechada, o que parece simplesmente impossível. Por isso a chefe de polícia Geraldine Scott (Mila Kunis) convoca o famoso detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig) para investigar a morte.

Comparado com os outros filmes da série, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é o que menos se importa em focar em seus múltiplos personagens (mais uma vez um elenco bem numeroso e com várias estrelas) e concentra-se mais na vida do padre e ex-boxeador Jud. E isso também faz com que em sua primeira metade o filme mais discorra sobre igrejas, padres e fiéis desviando do que Jesus pregou, do que temas relacionados a crimes e filmes de detetive. Mas, quando a morte ocorre, tudo muda totalmente e o clima "policial" entra com tudo, de modo bem acelerado, até a conclusão da história.

Contando com objetos misteriosos e várias reviravoltas (e algumas que certamente não vão surpreender, porém outras sim) no final das contas achei a trama aceitável, divertida e interessante para quem curte histórias de detetive / assassinato. Dentre todos os filmes da franquia, é certamente o menos caótico e engraçado, mas vejo isto como qualidade, o resultado final é o melhor filme dos três, certamente o com menos problemas.

Mas por falar em "problemas", vamos ao que me mais me incomodou... a falta de coragem de Rian Johnson. Acho interessante trazer críticas da sociedade atual para os filmes de detetive... mas se vai fazer isto, por que o fazer de forma tão rasa? Veja: por exemplo no filme anterior, onde a critica foi aos "bilionários da tecnologia"... o filme até mostra que eles são "maus" porém a crítica maior não é neles, e sim nas pessoas que os idolatram.

E agora em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, o filme começa criticando, de forma clara até, o mal causado por pessoas que usam a fé por motivos pessoais e/ou por poder, e ele até chega a associar isso com política... mas depois, mal toca no assunto, e nunca associa a religião com o dinheiro. É como se o filme começasse com uma forte critica geral (endossada inclusive pelo seu "herói", o detetive Benoit Blanc), e terminasse com um... ah, esqueçam o que eu critiquei... foi só um padre louco mesmo...

Rian Johnson, que desde que ficou famoso a partir de 2012 por dirigir e escrever o bom Looper: Assassinos do Futuro, e na época foi considerado um "gênio promissor", mais uma vez não realizou a promessa; porém desta vez parece ter colocado sua franquia querida nos eixos. Nota: 7,0.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Crítica - Bugonia (2025)

Título
: Bugonia (idem, Canadá / Coreia do Sul / EUA / Irlanda / Reino Unido, 2025)
Diretor: Yorgos Lanthimos
Atores principaisEmma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis, Stavros Halkias, Alicia Silverstone
Nota: 7,0

Emma Stone brilha em filme mais comportado (porém ainda louco) de Lanthimos

Pelo terceiro ano consecutivo, após Pobres Criaturas (2023) e Tipos de Gentileza (2024) a atriz Emma Stone e o diretor grego Yorgos Lanthimos estão juntos para entregar um filme esquisito. Algo novo, entretanto, é que se a maioria dos filmes de Yorgos usam roteiros originais escritos por ele, este Bugonia na verdade é uma refilmagem do filme sul-coreano Jigureul Jikyeora! de 2003 (Salvem o Planeta Verde!, em tradução livre).

Na trama de Bugonia, somos apresentados à Michelle Fuller (Emma Stone), uma aparentemente insensível CEO de uma megacorporação farmacêutica, que então é sequestrada por dois cidadãos "comuns": o conspiracionista Teddy Gatz (Jesse Plemons) e seu primo Don (Aidan Delbis). O motivo? Teddy acredita que Michelle na verdade seja de uma raça alienígena maligna que está destruindo a Terra, e portanto, quer que ela o coloque em contato com seu líder para negociar o fim desta destruição.

Além dos personagens / atores citados acima, há outro bem importante em Bugonia: a trilha incidental. Forte e marcante, ela dita os momentos de tensão e os surtos psicóticos de Teddy. Portanto é o som de Bugonia que dá ritmo ao filme, e se ele não estivesse presente, o resultado seria bem menos impactante.

A trama vai direto ao ponto, sem muitas enrolações, focando nos diálogos entre captor e vítima; mas ainda assim o filme tem 2h de duração com várias partes clichês... as acusações que Teddy faz mostrando que Michelle é "malvada", e as maneiras que ela, por sua vez tenta enganar seus algozes, já foi mostrado em filmes tantas vezes que chega a ser um pouco tedioso.

Mesmo assim, o elemento "alienígena" traz algumas novidades, e, claro, a trama têm mais de uma reviravolta. A maior delas eu previ, o que foi um pouco frustrante... porém as demais me surpreenderam. A dúvida se Michelle seria de fato alienígena é curiosamente abordada de forma realista e adequada, enquanto que o personagem de Teddy também não é deixado de lado, com sua complexidade sendo revelada aos poucos, ao mesmo tempo que vemos o aumento de suas manipulações sobre o primo; tudo isso também contribui para uma crescente em caos e tensão.

Jesse Plemons e Emma Stone atuam muito bem, especialmente a atriz. Mais uma vez ela mostra o quanto é versátil, e uma das melhores atrizes de sua geração.

Como bônus, Bugonia se encerra contando uma historinha que nos faz refletir e que me entreteve um bocado pela novidade. Não é um dos melhores trabalhos de Yorgos Lanthimos, mas até por não ser uma obra original dele, é um de seus filmes menos bizarros. E principalmente, muito melhor e mais satisfatório que seu anterior, Tipos de Gentileza. Nota: 7,0

domingo, 23 de novembro de 2025

Crítica Prime Video - Éden (2024)

Título
Éden ("Eden", EUA, 2024)
DiretorRon Howard
Atores principais: Jude Law, Ana de Armas, Vanessa Kirby, Daniel Brühl, Sydney Sweeney, Jonathan Tittel, Felix Kammerer, Toby Wallace
Nota: 7,0

Estrelado e com ótimas atuações, filme é baseado em bizarra história real

Lançado nos cinemas mundiais ano passado, Éden, o mais recente filme do prestigiado diretor estadunidense Ron Howard (já vencedor do Oscar pelo filme Uma Mente Brilhante) sequer chegou nos cinemas brasileiros, e por aqui estreou diretamente nos streamings, mês passado, via Prime Video.

A chocante história, que ocorre no início dos anos 1930, é baseada em fatos reais, onde um pequeno grupo de pessoas, por motivos diversos, decidiu recomeçar sua vida na ilha Floreana, a ilha mais ao sul do arquipélago vulcânico que conhecemos popularmente como Ilhas Galápagos, e que já se encontrava desabitada há décadas.

A trama começa com a família Wittmer chegando à ilha: Heinz (Daniel Brühl), Margret (Sydney Sweeney) e o filho Harry (Jonathan Tittel) perderam praticamente tudo e, inspirados pela história dos "heróicos aventureiros" Dr. Friedrich Ritter (Jude Law) e sua companheira Dore Strauch (Vanessa Kirby), que já estavam em Floreana há vários anos, resolveram começar uma nova vida por lá.

Todos eles eram alemães, mas mesmo assim, Friedrich não gostou nem um pouco de receber novos integrantes no local. O clima na ilha ficou tenso, mas ainda controlável. Porém tudo explodiu quando um terceiro grupo chegou: a Baronesa Eloise (Ana de Armas) com seus dois amantes / empregados Robert (Toby Wallace) e Rudolph (Felix Kammerer). A interação entre os três grupos iria escalar a tal ponto de tensão onde a história de Éden chegaria até a mortes.

Como ponto mais forte do filme, o elenco estrelar de Éden faz jus a sua contratação e temos ótimas atuações, só por isto valendo a pena assisti-lo. Os conflitos e clima de constante tensão e imprevisibilidade são mais destacados pelos atores do que pelo próprio roteiro.

O que sabemos hoje do que aconteceu na ilha provêm de 3 fontes: dos relatos de Dore Strauch, dos relatos de Margret Wittmer, e das cartas enviadas via correio por Friedrich Ritter (além, é claro, das evidências encontradas via investigações ao longo dos anos pós incidente). Claro que todos os relatos foram bem parciais e muita coisa ficou sem resposta; com isso, os roteiristas Noah Pink e o próprio Ron Howard, disseram que para escrever o roteiro "simplesmente juntaram todas as histórias para criar a única versão que faria sentido". Mas não é bem assim. E no "PS" ao final deste texto eu conto as maiores diferenças do que o filme conta e o que aconteceu na vida real.

De qualquer forma, em linhas gerais, Éden é bem fiel aos fatos verdadeiros dos fatídicos eventos ocorridos na ilha Floreana, e tudo o que aconteceu lá é perturbadoramente interessante. A lamentar, a escolha do diretor / roteirista de praticamente ignorar o desenvolvimento dos personagens, e focar quase em 100% neles fazendo maldades um com os outros. Isso deu mais espaço para os atores brilharem, porém, enfraqueceu a história, tirando dela seus detalhes, além de praticamente impedir a empatia do público com qualquer um dos humanos em tela.

É uma pena em que Éden fracassou absurdamente nas bilheterias, e os motivos disso foram vários: marketing e divulgação fracos, recepção apenas morna da crítica especializada, e chegada aos cinemas no auge da polêmica quanto ao (racista?) comercial de jeans estrelado por Sydney Sweeney para a marca American Eagle.

Pela enorme audiência que programas de "real crime" alcançam na TV e na Internet, mesmo não sendo literalmente deste gênero, Éden tem tudo para manter o interesse deste mesmo tipo de público, e mais ainda, de despertar o interesse nas pessoas que curtem "mistérios do passado", ou ainda, quem simplesmente gosta de ver grandes atuações. Em suma, Éden poderia e merecia um roteiro melhor, porém sua história real mais que se sustenta por conta própria, e seus atores justificam que ele mereça uma melhor chance. Nota: 7,0.

 

PS: as principais diferenças entre o filme e os fatos reais (são spoilers grandes do filme, leia por conta e risco)

As maiores diferenças são em relação ao "desaparecimento" da Baronesa Eloise e seu amante Robert. O filme mostra todos os homens restantes da ilha em grupo para matá-los, e posteriormente o Dr. Ritter enviando uma carta ao governador acusando Heinz Wittmer de ter assassinado o casal. Para começar, na vida real, esta carta não existiu... ou melhor, existiu, porém de modo diferente... Só depois de 6 meses após o sumiço de Eloise e Robert, foi então que o Dr. Ritter escreveu uma carta contando que a dupla havia desaparecido, mas que ele não pôde enviar a carta antes porque os Wittmer o haviam impedido (ou seja, não houve uma acusação direta de assassinato).

Pelos relatos de Margret Wittmer, a Baronesa lhe disse que havia chegado em um iate para levá-la ao Taiti, e que ela deixaria seus pertences para Lorenz; já pela versão de Dore Strauch, ela comenta que na noite anterior ao desaparecimento ela ouviu um grito, e que não viu nenhum barco no dia seguinte, o que a fez suspeitar que ambos teriam sido assassinados pelo outro amante, Rudolf Lorenz. Hoje, a teoria mais "votada" pelos especialistas no caso é que este teria sido mesmo o ocorrido... Lorenz matado os dois e se livrado dos corpos.

Sobre a morte do Dr. Ritter, oficialmente ficou registrado que ele morreu por intoxicação alimentar e desidratação; mas teria sido ele "assassinado" de verdade por Dore? Não dá para saber. Nos relatos de Margret Wittmer há apenas uma leve indireta sobre isso. Ainda assim parece pouco provável que o Dr. Ritter real tivesse se deixado "enganar" daquele jeito. De qualquer forma, o filme não deixa isso claro, mas a Dore real já odiava Ritter quando as demais pessoas chegaram a ilha. E, de fato, as últimas palavras dele antes de morrer, segundo o livro escrito por Margret, foram realmente ele amaldiçoando Dore Strauch.

E finalmente, outra "mentira" que considero relevante, é que embora os 3 grupos se odiassem (e principalmente, que todos odiassem a Baronesa), não há nenhum relato de que ela mandava roubar provisões dos outros grupos, e que ficasse maquiavelicamente jogando um grupo contra o outro; de qualquer forma, alguns incidentes (como o da morte do burro), de fato aconteceram.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Crítica - O Agente Secreto (2025)

Título
: O Agente Secreto (idem, Alemanha / Brasil / França / Países Baixos, 2025)
Diretor: Kleber Mendonça Filho
Atores principais: Wagner Moura, Carlos Francisco, Tânia Maria, Robério Diógenes, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Roney Villela, Hermila Guedes, Isabél Zuaa, Laura Lufési, Thomás Aquino, Udo Kier, João Vitor Silva, Kaiony Venâncio, Alice Carvalho
Nota: 8,0

Kleber Mendonça Filho entrega seu melhor filme e de mais fácil recepção

E finalmente chegou aos cinemas brasileiros O Agente Secreto, nosso filme indicado para o Oscar 2026, e já vencedor de dois prêmios em Cannes 2025: o de Melhor Ator (Wagner Moura) e o de Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho).

Na história, que se passa em 1977, somos apresentados a Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que está retornando à sua cidade natal Recife após muitos anos, e aparentemente fugindo de algo. Porém este seu afastamento não foi suficiente, e ainda há pessoas querendo vê-lo morto...

Já adianto que o mais impressionante e elogiável de O Agente Secreto é seu roteiro, que consegue apresentar, de forma coerente e bem familiar para nós brasileiros, temas como corrupção na política, na polícia e dos empresários, pobreza, racismo, preconceito contra o nordeste, perseguição da ditadura militar, violência policial, complexo de vira-lata, memória, manipulação da verdade e folclore (ufa!) dentre outros temas. É muita coisa agrupada, e de forma magistral!

E a qualidade do roteiro não fica apenas em seus temas, mas também no que desperta no espectador, com direito a vários momentos bizarros e inesperados, e algumas grandes quebras de expectativas do público. O ápice destas "reviravoltas" acontecem na sequência de ação final do filme, cenas estas que talvez somente nós brasileiros conseguiríamos inventar.

Em termos técnicos, O Agente Secreto tenta reproduzir os anos 70, tanto em termos de fotografia (com cores mais "desgastadas") como na música e design de produção. A trilha sonora é muito boa, nacional, e na maioria das cenas combina muito bem com a ação da tela. Objetos e figurino não me impressionaram tanto... menos os carros, que são destaque: não pouparam esforços para colocarem Fuscas "de colecionador" no filme rs.

O Agente Secreto é facilmente o melhor filme de Kleber Mendonça Filho que assisti até hoje (os outros foram O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023)) e também, digamos, o menos "diferentão", sendo o mais fácil para ser aceito pelo público em geral. Mas apesar de ser um filme excelente, assim como todos os outros filmes de Kleber que acabo de citar O Agente Secreto também possui algumas imperfeições bem claras, que impedem de dar uma nota maior para esta produção.

Algo que me incomodou foram as constantes inserções de rápidas cenas de figurantes fazendo sexo, o tempo todo no filme, para efeito cômico. Precisava? Só para reforçar para os gringos o "clichê" de que aqui no Brasil tudo é uma "putaria"? Também são constantes as citações à filmes estadunidenses. Até imagino que isso tem um propósito claro de agradar a Academia. Mas é sério que precisava disso também? No atual momento político mundial?

Outro problema bem relevante é mais técnico: ao optar por colocar alguns personagens dos "dias de hoje" para interromper a narrativa, O Agente Secreto sofre com várias quebras de ritmo. Em algumas vezes até fazem sentido - para fazer o público respirar - mas na maior parte das incursões atrapalha, e acabam tirando o espectador de dentro do filme, além de que, a interrupção final é tão abrupta e acelerada que pode confundir (presenciei algumas pessoas da minha sessão que não entenderem o final da história).

E finalmente, a meu ver Kleber Mendonça Filho também costuma "divagar" em seus filmes e colocar cenas desnecessárias; O Agente Secreto é seu trabalho em que isso menos acontece, mas o problema está lá novamente. Também não há a necessidade, por exemplo, de tantos personagens, de vários diálogos, e consequentemente, de um filme com 2h e 40min de duração. A longa duração somada às quebras de ritmo "estranhas" tornam O Agente Secreto cansativo em alguns momentos.

Com muitas qualidades e alguns defeitos, O Agente Secreto funciona como uma genial cápsula do tempo, mostrando de maneira bem inusitada mas muito real os múltiplos problemas da sociedade brasileira nos anos 70 e se credencia para a inclusão para a lista de melhores filmes nacionais dos últimos tempos. Nota: 8,0.


Atualização: o ator alemão Udo Kier, presente tanto neste O Agente Secreto como também em Bacurau, faleceu neste 23 de novembro de 2025, aos 81 anos. As causas da morte não foram reveladas.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Crítica Netflix - Frankenstein (2025)

Título
: Frankenstein (idem, EUA / México, 2025)
Diretor: Guillermo del Toro
Atores principais: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth, Felix Kammerer, Charles Dance, David Bradley, Lars Mikkelsen, Christian Convery
Nota: 7,0

Del Toro esbanja no visual e entrega a sua versão de Frankenstein

O diretor oscarizado mexicano Guillermo del Toro volta para a Netflix, desta vez pensando bastante nos prêmios da Academia. Tanto é que semanas antes da estréia no streaming, seu Frankenstein chegou a ser lançado em salas limitadas de cinemas pelo mundo todo, inclusive no Brasil (!), o que é muito surpreendente.
 
O filme, meio que obviamente, é a adaptação de del Toro para o livro escrito por Mary Shelley em 1818, de nome Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno, contando a história de Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e Monstro (Jacob Elordi) a quem ele deu vida. A trama começa com Victor e o Monstro tendo seu confronto derradeiro no gelado Ártico (o que também acontece no livro), e então há uma pausa, onde primeiro assistimos Victor contando toda sua história, e em seguida, o Monstro detalhando a dele.
 
Ainda que conte com um elenco estrelado e boas atuações (em especial a de Oscar Isaac), o melhor de Frankenstein é seu visual. Como sempre nos filmes do diretor, a fotografia é excelente. O design de produção também é muito bom, mesmo com os figurinos sendo apenas "ok".

É importante ressaltar que aqui estamos diante da versão de Guillermo del Toro em relação a obra original, portanto ele faz várias adições e mudanças em relação aos escritos de Mary Shelley; diria eu, muito mais inclusões do que alterações, na verdade. Principalmente, aqui temos uma maior "história de origem" de Victor, dando-lhe um pai tirano (Charles Dance), traumas de infância e uma abordagem inicialmente mais científica. O diretor também não se conteve e, seguindo a imaginação popular, faz a criação do Monstro ser algo gigantesco, em um "castelo"; pelo menos o visual do Monstro é razoavelmente parecido com o que Mary Shelley descreveu. Para mais detalhes sobre como é o Monstro de Frankenstein do livro, sugiro fortemente ler este breve artigo de curiosidades que escrevi anos atrás.

Ainda sobre o aparência da criatura, um problema: para mim o "Monstro" não é visualmente muito assustador. Muito mais "assustador", entretanto, são as muitas imagens de pedaços de cadáveres que aparecem no filme em close e sem nenhuma cerimônia; para as pessoas mais sensíveis isso pode ser perturbador.
 
Já a história da vida do Monstro é bastante fiel ao livro, mas algumas partes foram cortadas e a narrativa está um pouco corrida. Ah, e temos uma diferença importante: neste Frankenstein a "bondade" do Monstro é bem exagerada, assim como um pouco da "maldade" de Victor. Confesso que esse maniqueísmo constantemente presente nos trabalhos do diretor me fazem gostar menos do seu trabalho.
 
As alterações feitas por del Toro têm seus prós e contras. Por exemplo, é interessante ele trazer via a personagem de Elizabeth (Mia Goth) críticas de como as mulheres eram deixadas a margem da sociedade na época. Por outro lado, entendo que tivemos mais "contras": a presença do "romance", com Victor se apaixonando por Elizabeth, e ela se apaixonando pelo Monstro, é tão clichê e piegas que decepciona.
 
Como resultado final, após várias mudanças e adições, Frankenstein ainda consegue ser mais fiel ao texto original do que a maioria das adaptações que a obra máxima de Mary Shelley costuma receber. E, como a história primordial é boa, por consequência este filme também o é. Ambos fazem refletir sobre a vida e a maldade humana. E um ponto positivo para a adaptação áudio-visual: o filme é mais bem sucedido em emocionar. Nota: 7,0.

Você conhece Hokuto no Ken mais do que imagina... e agora pode conhecer ainda mais!

Graças à explosão de publicações de mangás iniciada no Brasil nos anos 90, hoje em dia quase todas as grandes obras de quadrinhos japon...