Temos de volta nos cinemas um blockbuster de ficção científica, Devoradores de Estrelas, que vem sendo sucesso de crítica e público. O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome lançado pelo estadunidense Andy Weir em 2021, mesmo autor de Perdido em Marte.
Na história, descobrimos que "algo" está consumindo não somente nosso Sol, como também todas as estrelas mais próximas a nós... menos uma: Tau Ceti; é então que a humanidade decide enviar para lá em uma nave três pessoas para descobrir o motivo, dentre eles nosso herói, o biólogo molecular Ryland Grace (Ryan Gosling). O problema é que para chegar em um lugar tão longe os astronautas são colocados em coma induzido na maioria do tempo, e quando Grace acorda, não apenas ele é o único que sobreviveu ao processo, como também sofre de grandes perdas de memória, se esquecendo de quem é, e do porquê que ele estaria em uma nave.
Todos os três livros escritos por Andy Weir até hoje possuem algumas características em comum: um protagonista solitário e inteligente que consegue se virar de modo criativo nas mais inusitadas e difíceis situações, otimismo em relação à capacidade humana, muito humor, conceitos de ciência e física tentando ser o mais reais e acessíveis possível para o público.
E no filme Perdido em Marte, de 2015, de certa forma tudo isto foi transportado com sucesso para as telas. Já neste Devoradores de Estrelas, comparativamente, temos um ator melhor, que igualmente realiza e supera desafios, temos uma quantidade muito maior de piadas e humor (e bem feitos, aliás), mas na hora de mostrar ciência... chega até a doer. Neste aspecto, o roteiro parece muito mais fantasia do que ficção científica.
Lá pela metade do filme, Grace acaba se encontrando com um alienígena, Rocky (James Ortiz): e a maneira com que eles se aprendem a comunicar foi tão rápida e fácil que me tirou completamente da história. Eu entendo que muita coisa precisa ser simplificada para que o público em geral consiga melhor compreensão, mas Devoradores de Estrelas exagerou. Fora os furos de roteiro que a "fantasia" colocada no filme traz... Por exemplo: aprendemos que Rocky não tem olhos e "enxerga" através do som, ou seja, ele precisa que um objeto tenha relevo para vê-lo. É por isso que Ryland coloca peças com números em 3D em cima do display do relógio para que Rocky consiga "ver" os números. Certo. E aí, uns vinte minutos depois, vemos a dupla assistindo imagens do planeta Terra em um telão plano de LCD (???!!!). É muita burrice.
Não sei até que ponto o livro explica de modo convincente a parte científica em Devoradores de Estrelas, pois não o li, mas sei que lá, como nos demais livros de Andy Weir, há a tentativa de levar a ciência a sério: por exemplo, diferentemente do filme, o sistema numérico de Rocky nem é decimal (vai até 6), e até isso o livro explica como eles tiveram que lidar. O livro também explica porque só Grace sobreviveu ao coma induzido, explicação que duraria apenas 15 segundos e o desleixado roteiro do filme ignora.
O que mais me espanta é que o roteirista de Devoradores de Estrelas é o mesmo de Perdido em Marte: Drew Goddard, e no outro filme a parte científica foi bem mais acurada. O que será que aconteceu? Seria influencia dos diretores? Já que em Perdido em Marte o diretor era Ridley Scott, especialista em Ficção Científica, e aqui os diretores são especialistas em Comédia + Aventura (as franquias de animação Uma Aventura Lego, Aranhaverso e Tá Chovendo Hambúrguer)?
A consequência de se trocar ciência por "fantasia" é que as dificuldades enfrentadas por Ryland e Rocky perdem muito do seu peso, e o filme perde bastante do seu drama. Pelo menos há as cenas em flashback no Planeta Terra para contrabalancear isso. Estas sim, são cenas sérias, mais pesadas, e a grande responsável por estas cenas funcionarem tão bem é a ótima atuação de Sandra Hüller, que consegue se mostrar firme, séria, mas ainda assim compassiva.
Em termos visuais, Devoradores de Estrelas também não é tão impressionante, a maioria das cenas são filmadas dentro da apertada nave de Grace, e portanto, não primam por grande beleza; e o próprio design visual do alienígena Rocky é quase uma versão dos robôs vistos em Perdido em Marte só que feito de pedra: aparentemente Andy Weir não tem muita criatividade para imaginar seres não-humanos(*). Entretanto, as poucas cenas em plano aberto no espaço, estas sim são belas e, embora não sejam espetaculares, justificam assistir Devoradores de Estrelas nas telonas do cinema.
Apesar de todas as críticas acima que fiz a Devoradores de Estrelas, o filme é um ótimo entretenimento e se você não for assisti-lo querendo uma ficção científica séria, mas um filme de aventura e comédia, vai se divertir bastante. Principalmente se encarar Devoradores de Estrelas como comédia. Ah, e mais uma vantagem: o filme é bastante otimista e good vibes; portanto, se você, assim como eu, está sobrecarregado de tanto pessimismo e notícia ruim vinda do mundo real atual, ir no cinema ver esta obra é um ótimo descanso para a mente e alma! Nota (de 1 a 6):
PS: o nome do livro e filme no original, "Project Hail Mary", que traduzido no literal seria "Projeto Ave Maria", tem um significado importante que foi perdido na tradução. É que nos países de língua inglesa, e principalmente nos EUA, um "Hail Mary" também serve como uma gíria para um ato desesperado com pouca chance de sucesso, que vai depender de sorte ou "milagre". É uma expressão bastante usada no Futebol Americano, quando um time tenta fazer um passe longo e desesperado nos segundos finais de um jogo, para concluir um touchdown para virar ou empatar a partida.
(*) Atualização/correção: devo uma pequena desculpa a Andy Weir: os tais robôs com quem Rocky se parece não são de Perdido em Marte, e sim de Interestelar (2014), que não possui nenhuma relação com o escritor. Rocky parece uma versão em menor escala dos robôs TARS e CASE deste filme.


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