Crítica - A Odisseia (2026)

Título
: A Odisseia ("The Odyssey", EUA / Reino Unido, 2026)
Diretor: Christopher Nolan
Atores principais: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Zendaya, Charlize Theron, John Leguizamo, Himesh Patel, Samantha Morton, Jon Bernthal, Lupita Nyong'o, Elliot Page, Mia Goth, Corey Hawkins
 
Nolan entrega um épico ótimo e sombrio, mas...

Mantendo sua "tradição" de lançar nos cinemas um novo filme grandioso e épico a cada três anos, assumindo tanto a direção quanto os roteiros, algo cumprido religiosamente desde Interestelar (2014), o cineasta Christopher Nolan volta às telonas com A Odisseia, adaptação do clássico poema grego de mesmo nome, escrito por Homero no século VIII a.C.. Ele conta a difícil saga de Odisseu (que para nós de língua latina nos livros sempre teve o nome traduzido para Ulisses, mas o filme manteve o nome de Odisseu) e seus homens para retornar sua casa Ítaca - uma ilha grega - após a famosa e demorada vitória contra Tróia.

No poema épico grego, Odisseu (Matt Damon) sofre um grande número de desafios / provações. E aí já vai meu primeiro elogio à Nolan, já que ele não deixou nenhum deles de fora e ainda assim fez um filme com pouco menos de 3h. Mas para isso, ele também fez uma pequena "trapaça" ao unir os encontros do protagonista com os Lotófagos, os Feácios e Calipso (Charlize Theron) em uma coisa só: a convivência com esta última, o que achei inteligente e bem feito.

Um ponto que me surpreendeu é que esta A Odisseia de Nolan foca bastante nos aspectos humanos, em diálogos e divagações, na trama que ocorre em paralelo às aventuras de Odisseu em seu reino (onde sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) são constantemente ameaçados por dezenas de pretendentes ao trono). Há pelo menos uns três momentos bem emocionantes mais para o final do filme, e eles não estão relacionados a feitos heróicos / militares.

O elenco de atores em A Odisseia é vasto e recheado de nomes famosos e premiados, e a reunião fez muito bem ao filme, que tem várias atuações muito boas, deixando tudo mais satisfatório.

Algo que já estava meio claro no trailer, é que a abordagem de Nolan em seu filme em termos dos "elementos fantásticos" não foi a mesma, por exemplo, escolhida por Tróia (2004), onde tudo foi modificado para ter uma explicação mais racional, "mundana". Neste A Odisseia, monstros e outros seres mitológicos como por exemplo ciclopes, sereias e gigantes simplesmente existem sem nenhum estranhamento, assim como a magia; entretanto - o que também gostei bastante - é que esta parte "sobrenatural" tem algumas limitações: os deuses de fato existem? Veja: todos os gregos do filme são tementes aos deuses, seguem suas leis, fazem sacrifícios a eles... mas vários deles desafiam / duvidam dos "desígnios" das divindades em muitas situações; e mais ainda, nenhum deus aparece neste A Odisseia; ou melhor, vemos Atena (Zendaya) constantemente. Mas será que ela está lá mesmo, ou seriam alucinações de Odisseu? Deixo esta pergunta para cada um de vocês ter sua própria opinião após ver o filme. ;)

Este sentimento de estarmos vendo seres fantasiosos e mesmo assim tudo parecer algo coerente dentro do nosso universo "real" é reforçado pelo fato de que o filme foi rodado em sua grande maioria em localidades reais ao longo do Mar Mediterrâneo, dispensando estúdios de filmagem, e também usando muito mais efeitos especiais práticos (físicos) do que efeitos digitais para objetos e personagens. Tudo isso torna a produção mais cara, porém nos proporciona uma experiência diferente e rara nos tempos atuais.

Em resumo, em linhas gerais Christopher Nolan adapta A Odisseia de uma forma bem próxima à obra original, e como esta é de fato uma história épica muito rica e interessante, consequentemente o filme, ao ser bem feito, se tornou igualmente ótimo e interessante. E é por isso que este A Odisseia terá a alta nota que vocês verão no final deste artigo. Mas...

... Nolan não consegue deixar de ser Nolan, e insistir nos mesmos defeitos dos seus filmes desde que atingiu a fama. A Odisseia é ótimo, mas poderia ter sido muito melhor com escolhas simples, que irei descrever a seguir. A partir de agora irei dar detalhes da trama, mas que na verdade são simplesmente trechos da obra de Homero. Então seriam spoilers... mas de algo escrito há 3000 anos.

Em primeiro lugar, vamos a duas alterações cujo propósito foi unicamente trazer impacto visual, mas os resultados são catastróficos: o personagem de Agamenon, que sequer tem fala no filme, parece muito mais um Batman robô futurista do que qualquer coisa remotamente grega; e tão ruim quanto é o tal Cavalo de Tróia. A Odisseia mostra um cavalo lindíssimo, em uma pose empinada, sem base de apoio (???). Em outras palavras, o imponente cavalo sequer para em pé. Se o objetivo dos gregos era que transportassem o cavalo para dentro de Tróia, por que construir algo de tão difícil transporte? E tem mais. em uma cena que vemos no trailer, para dar dramaticidade, um troiano perfura o cavalo com uma espada, para "investigar" o que tem lá dentro; e a espada, claro, atravessa um soldado grego, que é obrigado a segurar o grito de dor. Porém o que o trailer não mostra é o complemento desta cena, onde o troiano tirando a espada e a avaliando... para em seguida nada acontecer. Fiquei curioso... não era pra ter sangue na espada não? Ou aquele soldado grego não sangrava por ser um reptiliano disfarçado?

Eu disse anteriormente que para minha surpresa, Nolan deu bastante destaque aos conflitos humanos de A Odisseia; mas ao fazer isto, aparentemente resolveu economizar com a parte mitológica. Os "monstros" são mecanicamente bem feitos, porém em termos de design, são o mais genéricos e ridículos possíveis. O ciclope Polifemo parece um Gollum gigante; os Lestrigões são cavaleiros medievais que fugiram do jogo Golden Axe (lembrem-se que estamos na Antiguidade, não na Idade Média), e o monstro Cila então, descrito nos poemas como "um ser de doze patas e seis cabeças", é tão mal feito que no filme parece uma coleção de tubos cinza de massa de modelar. Notem que apesar dessa "economia" estamos diante do filme mais caro da vida deste diretor: US$ 250 milhões, que imagino terem sido então gastos em locações e cachês do elenco estrelado.

Aliás, Nolan também quis esnobar ao fazer deste filme o primeiro da história a ser filmado 100% em câmeras IMAX de 70 mm, o que pra mim, sinceramente, não fez nenhuma diferença. Eu não vejo nenhuma necessidade de assistir este A Odisseia em IMAX, já que temos poucas cenas "abertas" mostrando grandes planos, e a maior parte do filme é escura, cinzenta, à noite, onde pouco enxergamos o que está acontecendo; algo bem criticável, alías. Entretanto, recomendo ver o filme nos cinemas, pois sentir a escuridão e todos os sons - bastante utilizados, principalmente com uma trilha sonora alta, forte e impactante, algo bastante comum nos filmes deste diretor - fazem diferença para aumentar a tensão e melhorar a experiência.

E finalmente, como tem sido o grande pecado em todos os filmes de Christopher desde o filme Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), ele sempre tem que terminar a história com alguma grande "sacada inteligente". Nesta aqui, ele faz Odisseu confessar, no final da projeção, que assim que a guerra de Tróia terminou, ele sentiu humildemente o quanto eles tinham ofendido os deuses e o quanto aquele evento fôra cruel e seria danoso para a humanidade; bem, isso já seria meio incompatível com a personalidade de Odisseu... mas piora: notem que isso até faria sentido se o filme fosse todo contado cronologicamente, porém, na prática, é justamente após esta suposta "revelação" que Odisseu disse ter tido é que ele, de forma muito arrogante, desafiou os deuses e justamente por isso foi "amaldiçoado" e teve tanta dificuldade para voltar para casa... Dá-lhe incoerência...

E aparentemente Nolan não se contenta em sempre escrever algo falsamente genial em todo filme, ele também precisa sempre ser a pessoa mais inteligente da sala. E como ele faz isso? Deixando de colocar em seu filme uma das passagens mais legais de A Odisseia. No material original, no confronto contra o ciclope Polifemo, nosso herói se apresenta com o nome de "Ninguém", e quando o monstro clama por socorro, é questionado "quem está te atacando?", no que ele responde "Ninguém", e então é ignorado. É só quando Odisseu volta e grita orgulhosamente que foi ele, Odisseu que o derrotou, que o Ciclope têm como direcionar sua vingança. Esta genial passagem também é o exemplo mais explícito de uma das "lições de moral" de A Odisseia: que a única maneira de salvação para nosso protagonista é renunciar a tudo e ser ninguém... Mas Nolan não ia deixar uma "sacada genial" no filme que não fosse escrita por ele... ¬¬

Reitero que o material original de A Odisseia é tão bom para se fazer um filme que, se bem feito tecnicamente - e é o caso - ele automaticamente se torna um ótimo filme. A história original está bastante preservada e suas poucas alterações se dividiram em coisas boas e ruins. Some-se à isso um ótimo elenco que por si só já valeria o ingresso. Resumindo, A Odisseia tem de tudo para ser uma das maiores bilheterias do ano, e isso será justo. Nota (de 1 a 6):


 
PS.: sabiam que as sereias, na verdade NÃO são mulheres-peixe, e sim, mulheres-pássaro? Pois é! E vejam como isso faz muito mais sentido, afinal, qual animal na natureza é famoso pelo belo canto?
 
Desde sempre, as sereias surgiram na mitologia grega como seres que causavam naufrágios ao atrair marinheiros com a voz; porém isto delas virarem metade peixe ao invés de metade pássaro foi algo que só ficou popular na Idade Média. A imagem abaixo mostra a foto de um vaso grego do século V a.C. retratando sereias (mulheres-pássaro!) atacando o barco de Odisseu.


Nolan poderia ter aproveitado seu filme para mostrar mais essa curiosidade para seu público, porém em seu A Odisseia as sereias mal aparecem, vemos apenas suas cabeças, em rochedos, à distância. Em nenhum momento vemos os corpos. Teria sido proposital para não causar "polêmica"?

Comentários