sexta-feira, 20 de março de 2026

Curiosidades Cinema Vírgula #053 - Sabia que a ciência já acreditou ter descoberto Vulcano, o planeta de Spock (e por duas vezes)?


Para quem não reconhece as duas entidades da foto acima, à esquerda temos Spock, um dos personagens principais da franquia Star Trek (ou Jornada nas Estrelas), oficial de ciências e primeiro oficial da nave estelar USS Enterprise, e também meio humano e meio vulcano. Estes seus 50% vulcano, que lhe conferem as inconfundíveis orelhas pontudas, vieram de seu pai, um extraterrestre do fictício planeta... Vulcano (!), que é o planeta da imagem ao seu lado.

Segundo a mitologia de Star Trek, o planeta Vulcano de Spock orbita a estrela 40 Eridani A, uma estrela que realmente existe e fica a 16,3 anos-luz da Terra. Segundo a franquia, trata-se de um planeta árido e quente, coberto principalmente por desertos e cadeias montanhosas, com apenas alguns pequenos mares e lagos isolados de água salgada. Vulcano seria levemente maior que Terra e teria uma gravidade 40% mais forte; sua cor, vista do espaço, seria avermelhada.


A "primeira descoberta" de Vulcano

Voltando algumas centenas de anos para o Universo real, saibam que todos os planetas dos Sistema Solar, de Mercúrio até Urano foram descobertos pela humanidade através da observação visual direta (seja via olho "nu", ou por telescópio, que foi o caso de Urano). Porém os dois corpos mais distantes, o planeta Netuno e o planeta-anão Plutão, foram descobertos indiretamente através de cálculos. Os cientistas observaram a órbita de Urano, e como não batiam com o esperado pelas leis da física conhecidas, imaginavam haver um outro corpo que estava causando esta distorção orbital. Dito e feito, de distorções na órbita de Urano a humanidade encontrou Netuno (em 1846), e de distorções em Netuno encontramos Plutão (em 1930).

Porém enquanto se via anormalidades na órbita de Urano, o mesmo acontecia ao analisar a órbita do primeiro planeta do Sistema Solar, Mercúrio: ela também estava "errada". Em 1846 o astrônomo francês Jacques Babinet especulou a existência de um novo planeta entre o Sol e Mercúrio, e a ele deu o nome de Vulcano, o deus romano do fogo; afinal, para Jacques o novo corpo celeste deveria ser tão quente que chegaria a ser um planeta "incandescente".

Em 1859, o astrônomo francês Urbain Le Verrier - o mesmo que previu corretamente a existência de Netuno - publicou um estudo (re) confirmando os cálculos de que a órbita de Mercúrio estava errada e que entre o Sol e Mercúrio deveria haver portanto um objeto de massa similar ao próprio Mercúrio: ou um novo planeta ou um cinturão de asteróides.

Pedaço de um mapa do Sistema Solar de 1846, por Hall Colby, já incluindo Vulcano

Em dezembro do mesmo ano outro astrônomo francês, Edmond Modeste Lescarbault, disse ter conseguido, enfim, observado o novo planeta. Le Verrier foi até ele e, após revisar os estudos de Lescarbault, acreditou na descoberta de seu compatriota. Em 2 de Janeiro de 1860 a dupla anunciou a descoberta do novo planeta "Vulcano" em uma reunião da Academia de Ciências de Paris.

Porém o anúncio foi contestado na própria reunião, e nas décadas seguintes a humanidade continuou tentando localizar o planeta Vulcano na região indicada por Le Verrier. A existência de Vulcano, entretanto, foi descartada em definitivo em 1919, quando se comprovou que a Teoria da Relatividade Geral de um tal Albert Einstein, formulada poucos anos atrás (1915), conseguia explicar a órbita "errada" de Mercúrio através da curvatura que o próprio Sol gera no espaço-tempo ao seu redor; ou seja, Vulcano não precisaria mais existir para as contas darem certo.


A "segunda descoberta" de Vulcano

Em Setembro de 2018, Vulcano seria "descoberto" mais uma vez, quando um grupo de astrônomos do projeto Dharma Planet Survey, liderado pela Universidade da Flórida, anunciaram ter descoberto um novo planeta orbitando 40 Eridani A. E olha só, a mesma estrela do planeta Vulcano da ficção!

Segundo estes cientistas, este novo objeto era uma "Super Terra": um planeta rochoso com cerca do dobro do tamanho do nosso, e dentro de uma zona habitável de temperatura - nem muito quente, nem muito frio - completando uma órbita a cada 42 dias terrestres. E claro, os cientistas que fizeram a descoberta aproveitaram a "coincidência" com a ficção para aparecer na imprensa mundial para dizer brincando que descobriram Vulcano.

Mas... não foi desta vez novamente...

Após alguns questionamentos mais sérios que se iniciaram em 2023, em 2024 um estudo científico publicado na revista científica The Astronomical Journal, por um grupo de pesquisadores liderados pela estadunidense ex-NASA Abigail Burrows, diz provar que o estudo de 2018 foi na verdade uma ilusão astronômica, e o que foi observado na época teria sido um sinal captado devido alguma atividade na superfície da própria estrela; ou seja, nada de novo planeta.

40 Eridani A, B e C via telescópio amador

E então continuamos na busca por Vulcano rs. Ah, e para finalizar o artigo de curiosidades, a tal estrela se chama 40 Eridani A pois ela compõe um sistema estrelar triplo (!!), formado pelas estrelas A, B e C. A estrela "A" é bem maior que as outras duas, que acabam orbitando em seu redor.




PS: Já viu as outras curiosidades do Cinema Vírgula? É só clicar aqui!

2 comentários:

Anônimo disse...

Estou tentando me lembrar de um filme antigo, só me lembro que próximo do fim uma equipe de aventureiros entra numa caverna e se depara com um "monstro" (uma salamandra ou lagartixa em tamanho maximizado). Nunca mais vi esse filme, e gostaria de ver se consigo ainda vê-lo. Titulos como Terra que o Mundo Esqueceu ou similares parecem ser da mesma época. Última vez que vi foi numa Sessão da Tarde à muito tempo atrás. Sei que não tem ralação com o conteúdo do texto, mas gostaria de saber mais desse filme que nunca consegui referência nenhuma. O texto é ótimo e muito bem escrito, pega dois assuntos que normalmente geram muito debates não deixando de ser uma curiosidade única por si só. Parabéns ao autor.

Ivan disse...

Obrigado pelos elogios! E quanto ao filme antigo que você descreveu, tentei pesquisar pela sua descrição, e encontrei o filme "No Coração da Terra", de 1976. Será que seria ele? Abraços!

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