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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Crítica Netflix - The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa


Paulinho da Costa é o músico brasileiro mais famoso que você não conhece. E um gênio. Ele já trabalhou, por exemplo, com Michael Jackson, Madonna, Whitney Houston, Prince, Stevie Wonder, Celine Dion, Bee Gees, Red Hot Chili Peppers, dentre muitos outros. Aliás, muitos mesmos: conforme o texto final do documentário The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, foram mais de 970 artistas diferentes em mais de 6700 canções. As músicas que Paulinho participou totalizaram 161 indicações ao Grammy (com 59 vitórias) e 12 indicações ao Oscar (somando as categorias de Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original).

O carioca Paulinho da Costa é um percussionista, certamente um dos melhores que já existiu; segundo a própria definição do documentário a percussão são as batidas... os sons produzidos através do impacto ou fricção de objetos; ou ainda, a percussão é o groove... aquele ritmo repetitivo e envolvente que te dá vontade de dançar. Desde o finalzinho do século XX muito do trabalho dos percussionistas foi substituído pelas trilhas eletrônicas. O que aliás me faz questionar se não é por isso que não se fazem mais grandes clássicos como antigamente...

Lançado no mês passado na Netflix, como filme The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa não chega a brilhar, principalmente pois ele parece perdido no tempo: composto basicamente de entrevistas curtas onde músicos famosos elogiam Paulinho, nota-se que elas estão um bocado datadas, gravadas há uns 10... 5 anos atrás. É como se o documentário estivesse engavetado há tempos, e estivessem esperando uma desculpa para lançá-lo. Ah, e curiosamente, mesmo sendo um filme nacional, ele é em sua maioria falado e narrado em inglês.

Bem, a "desculpa" veio, e é muito boa: foi anunciado em 2026 que Paulinho será uma das pessoas que receberá uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood. A cerimônia será no final de Maio, e ele será o primeiro brasileiro a receber esta homenagem (*)!! 

Porém se como "filme" The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa não é tão bom, musicalmente ele certamente vale a pena. Pois ouvimos na prática muito do seu trabalho, conforme sua história é contada. No meio do filme há um depoimento da Ivete Sangalo, onde ela comenta que quando criança, ela pegava os encartes de discos famosos internacionais, e via em muitos deles um tal de "Paulinho da Costa", e o tempo todo exclamava admirada... "gente, esse cara é brasileiro!". E eu passei exatamente por isso, quando criança, ao ler os encartes de Thriller e Bad, de Michael Jackson. Mas se neste filme Bad não é citado, vemos (e ouvimos) na prática Paulinho e Quincy Jones mostrar como nosso brasileiro criou várias das batidas de sucesso dos álbuns Off the Wall e Thriller. Muito impressionante!

E se removermos a parte musical do filme, que certamente é sua melhor parte, o destaque vai para a pessoa que é Paulinho da Costa: apesar de sua importância e genialidade, sempre uma pessoa humilde, sempre alegre, com um enorme sorriso no rosto. Ele provavelmente é o maior embaixador da música brasileira de todos os tempos!

Para quem gosta de música pop e/ou música brasileira, The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa é obrigatório; não pela qualidade como filme, mas pelos seus sons e por referenciar um dos nossos maiores músicos de todos os tempos.


(*): fica a observação que Paulinho da Costa será oficialmente o primeiro brasileiro a ganhar uma estrela na Calçada da Fama, mas que Carmem Miranda recebeu sua estrela lá em 1960; embora nascida em Portugal e nunca tenha se naturalizado brasileira, nossa "Pequena Notável" veio para o Brasil com apenas 10 meses de vida e sempre se considerou brasileira.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Curiosidades Cinema Vírgula #053 - Sabia que a ciência já acreditou ter descoberto Vulcano, o planeta de Spock (e por duas vezes)?


Para quem não reconhece as duas entidades da foto acima, à esquerda temos Spock, um dos personagens principais da franquia Star Trek (ou Jornada nas Estrelas), oficial de ciências e primeiro oficial da nave estelar USS Enterprise, e também meio humano e meio vulcano. Estes seus 50% vulcano, que lhe conferem as inconfundíveis orelhas pontudas, vieram de seu pai, um extraterrestre do fictício planeta... Vulcano (!), que é o planeta da imagem ao seu lado.

Segundo a mitologia de Star Trek, o planeta Vulcano de Spock orbita a estrela 40 Eridani A, uma estrela que realmente existe e fica a 16,3 anos-luz da Terra. Segundo a franquia, trata-se de um planeta árido e quente, coberto principalmente por desertos e cadeias montanhosas, com apenas alguns pequenos mares e lagos isolados de água salgada. Vulcano seria levemente maior que Terra e teria uma gravidade 40% mais forte; sua cor, vista do espaço, seria avermelhada.


A "primeira descoberta" de Vulcano

Voltando algumas centenas de anos para o Universo real, saibam que todos os planetas dos Sistema Solar, de Mercúrio até Urano foram descobertos pela humanidade através da observação visual direta (seja via olho "nu", ou por telescópio, que foi o caso de Urano). Porém os dois corpos mais distantes, o planeta Netuno e o planeta-anão Plutão, foram descobertos indiretamente através de cálculos. Os cientistas observaram a órbita de Urano, e como não batiam com o esperado pelas leis da física conhecidas, imaginavam haver um outro corpo que estava causando esta distorção orbital. Dito e feito, de distorções na órbita de Urano a humanidade encontrou Netuno (em 1846), e de distorções em Netuno encontramos Plutão (em 1930).

Porém enquanto se via anormalidades na órbita de Urano, o mesmo acontecia ao analisar a órbita do primeiro planeta do Sistema Solar, Mercúrio: ela também estava "errada". Em 1846 o astrônomo francês Jacques Babinet especulou a existência de um novo planeta entre o Sol e Mercúrio, e a ele deu o nome de Vulcano, o deus romano do fogo; afinal, para Jacques o novo corpo celeste deveria ser tão quente que chegaria a ser um planeta "incandescente".

Em 1859, o astrônomo francês Urbain Le Verrier - o mesmo que previu corretamente a existência de Netuno - publicou um estudo (re) confirmando os cálculos de que a órbita de Mercúrio estava errada e que entre o Sol e Mercúrio deveria haver portanto um objeto de massa similar ao próprio Mercúrio: ou um novo planeta ou um cinturão de asteróides.

Pedaço de um mapa do Sistema Solar de 1846, por Hall Colby, já incluindo Vulcano

Em dezembro do mesmo ano outro astrônomo francês, Edmond Modeste Lescarbault, disse ter conseguido, enfim, observado o novo planeta. Le Verrier foi até ele e, após revisar os estudos de Lescarbault, acreditou na descoberta de seu compatriota. Em 2 de Janeiro de 1860 a dupla anunciou a descoberta do novo planeta "Vulcano" em uma reunião da Academia de Ciências de Paris.

Porém o anúncio foi contestado na própria reunião, e nas décadas seguintes a humanidade continuou tentando localizar o planeta Vulcano na região indicada por Le Verrier. A existência de Vulcano, entretanto, foi descartada em definitivo em 1919, quando se comprovou que a Teoria da Relatividade Geral de um tal Albert Einstein, formulada poucos anos atrás (1915), conseguia explicar a órbita "errada" de Mercúrio através da curvatura que o próprio Sol gera no espaço-tempo ao seu redor; ou seja, Vulcano não precisaria mais existir para as contas darem certo.


A "segunda descoberta" de Vulcano

Em Setembro de 2018, Vulcano seria "descoberto" mais uma vez, quando um grupo de astrônomos do projeto Dharma Planet Survey, liderado pela Universidade da Flórida, anunciaram ter descoberto um novo planeta orbitando 40 Eridani A. E olha só, a mesma estrela do planeta Vulcano da ficção!

Segundo estes cientistas, este novo objeto era uma "Super Terra": um planeta rochoso com cerca do dobro do tamanho do nosso, e dentro de uma zona habitável de temperatura - nem muito quente, nem muito frio - completando uma órbita a cada 42 dias terrestres. E claro, os cientistas que fizeram a descoberta aproveitaram a "coincidência" com a ficção para aparecer na imprensa mundial para dizer brincando que descobriram Vulcano.

Mas... não foi desta vez novamente...

Após alguns questionamentos mais sérios que se iniciaram em 2023, em 2024 um estudo científico publicado na revista científica The Astronomical Journal, por um grupo de pesquisadores liderados pela estadunidense ex-NASA Abigail Burrows, diz provar que o estudo de 2018 foi na verdade uma ilusão astronômica, e o que foi observado na época teria sido um sinal captado devido alguma atividade na superfície da própria estrela; ou seja, nada de novo planeta.

40 Eridani A, B e C via telescópio amador

E então continuamos na busca por Vulcano rs. Ah, e para finalizar o artigo de curiosidades, a tal estrela se chama 40 Eridani A pois ela compõe um sistema estrelar triplo (!!), formado pelas estrelas A, B e C. A estrela "A" é bem maior que as outras duas, que acabam orbitando em seu redor.




PS: Já viu as outras curiosidades do Cinema Vírgula? É só clicar aqui!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Dupla Crítica Prime Video - Código Preto (2025) e Dupla Perigosa (2026)


Mais uma vez vamos de "pague um e leve dois". Embora não seja produção da Prime Video - Código Preto esteve nos cinemas brasileiros em Março de 2025 - ele chegou nos streamings faz poucos meses; já Dupla Perigosa, esse sim lançamento exclusivo e direto na Prime Video, foi lançado há poucas semanas e traz um inusitado encontro dos brutamontes Dave Bautista e Jason Momoa. Bora ver minha opinião sobre eles!



Código Preto
 (2025)
Diretor: Steven Soderbergh
Atores principais: Cate Blanchett, Michael Fassbender, Marisa Abela, Tom Burke, Naomie Harris, Regé-Jean Page, Pierce Brosnan

O diretor estadunidense Steven Soderbergh tem em sua filmografia vários filmes de ação e suspense envolvendo múltiplos personagens, como por exemplo Traffic (2000), a trilogia de Onze Homens e Um SegredoO Desinformante! (2009), e Contágio (2011). Em Código Preto não temos tantos personagens, mas o clima de correria com constante tensão que lhe fez famoso continua presente.

Na história, George (Michael Fassbender) e Kathryn (Cate Blanchett) são casados e ambos funcionários da mais avançada célula da NCSC, o Centro de Segurança Cibernética do Reino Unido. George é avisado de que um programa altamente secreto de nome Severus vazou do Centro, e uma das poucas pessoas que poderiam estar envolvidas no vazamento é justamente sua esposa. É então que ele começa uma investigação para descobrir quem de seu time (incluindo Kathryn) é de fato o culpado.

Sinceramente, achei algumas coisas de Código Preto bem inverossímeis: simplesmente todos os personagens se odeiam, se atacam o tempo todo em grande nível de competitividade, e ainda assim trabalham na mesma equipe há anos? Mas, deixando detalhes com este de lado, a trama de suspense  do filme é bem feita - você não sabe até o final se Kathryn é inocente ou culpada - e temos algumas reviravoltas interessantes. Em resumo, temos um bom filme de suspense com bons atores, e o filme merece um pouco mais de reconhecimento. Nota (de 1 a 6):




Dupla Perigosa
 (2026)
DiretorAngel Manuel Soto
Atores principais: Dave Bautista, Jason Momoa, Temuera Morrison, Roimata Fox, Morena Baccarin, Frankie Adams, Claes Bang, Jacob Batalon, Maia Kealoha, Stephen Root
 
Pensem em uma fórmula repetida em filmes. Pois é: um filme de ação com uma dupla de policiais abusando de cenas de humor. Não estamos falando de Máquina Mortífera, A Hora do Rush ou Bad Boys... Desta vez vamos de Dupla Perigosa, com os irmãos Jonny (Jason Momoa) e James (Dave Bautista), aprontando todas no Havaí.

Se Bautista está sempre sério e nas poucas vezes que faz rir é por ser ranzinza, Momoa é o bêbado rebelde que está sempre fazendo suas palhaçadas. Na trama, basicamente a dupla sai lutando contra a máfia para se vingar do assassinato do pai. Dirigido pelo jovem diretor porto-riquenho Angel Manuel Soto, o mesmo de Besouro Azul (2023), tanto no humor quanto nas cenas de ação Dupla Perigosa tem muitos altos e baixos; passagens boas contrastando com passagens ruins.

Curiosamente o melhor do filme é Morena Baccarin, que não tem tanto tempo de tela, e que no filme também é brasileira. No final das contas, mesmo atuando tão bem com o Cigano Igor, a dupla Bautista e Momoa até combinou. Dupla Perigosa é um filme de Sessão da Tarde legalzinho, mas é divertido. Nota (de 1 a 6):

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dupla Crítica Filmes do Oscar - Sonhos de Trem (2025) e Pecadores (2025)


Aproveitando que o assunto Oscar está em alta, já que a lista de indicados para o Oscar 2026 foi divulgada semana passada, hoje trago a crítica de duas produções que figuram entre a lista dos indicados a Melhor Filme. Primeiro, Sonhos de Trem, é distribuído apenas pela Netflix e somou 4 indicações; e depois vamos de Pecadores, com suas inéditas DEZESSEIS indicações. Curiosamente, os dois filmes se passam mais ou menos na mesma época, ou seja, no começo do século XX. Veja a seguir o que eu achei de ambos!


Sonhos de Trem (2025)
Diretor: Clint Bentley
Atores principais: Joel Edgerton, Felicity Jones, Kerry Condon, Will Patton, William H. Macy, John Diehl, Nathaniel Arcand, Ignatius Jack

Sonhos de Trem é um filme baseado em um livro de mesmo nome, cujos direitos de transmissão foram comprados pela Netflix. Ou seja, para vê-lo, terá mesmo que ser via o streaming do "N" vermelho.

Na história, acompanhamos praticamente toda a vida adulta de Robert Grainier (Joel Edgerton), um órfão meio "bruto", calado, que passa as primeiras décadas dos anos 1900 trabalhando na construção de ferrovias, principalmente como lenhador, e eventualmente ajudando a assentar os trilhos.
 
Sonhos de Trem é, mais do que qualquer outra coisa, um filme bastante contemplativo sobre luto e passagem do tempo. Assim como seu personagem principal, o roteiro pouco se preocupa com diálogos, em falar algo... o que temos, em geral, é uma lenta contemplação de belíssimas (e muitas vezes tristes) imagens.
 
Imagens estas que ganharam a indicação para o Oscar de Melhor Fotografia, que, não sei se vocês sabem, foram produzidas pelo brasileiro Adolpho Veloso. Ou seja, caso Sonhos de Trem leve esta estatueta, sim, ela será do Brasil! Olha, e seria merecida... a fotografia aqui é realmente maravilhosa!
 
Não há uma conclusão para Sonhos de Trem... assim como não há uma conclusão para o sentido da vida. Mesmo assim, acompanhar a melancólica passagem de Robert por este planeta é uma experiência comovente, com final satisfatório, e que vale a pena assistir para nos fazer parar, respirar, e refletir; nem que seja apenas por algumas horasNota (de 1 a 6):
 




Pecadores
 (2025)
DiretorRyan Coogler
Atores principais: Michael B. Jordan, Hailee Steinfeld, Miles Caton, Jack O'Connell, Wunmi Mosaku, Delroy Lindo
 
Eu assisti Pecadores no ano passado, mas devido a ele conseguir nada menos que 16 indicações ao Oscar - novo recorde absoluto - tive que voltar aqui para escrever minha crítica e deixar minha opinião. O filme é uma história que mistura drama histórico com terror, e se passa no ano de 1932 na região do rio Mississippi, em um racista sul dos EUA.

Vamos começar pelas coisas que Pecadores é realmente bom. Primeiro, sua ótima fotografia, e o fato de boa parte das cenas serem a noite só torna este trabalho ainda mais admirável. Em segundo lugar, o filme é um grande tributo ao Blues, fazendo este gênero musical parte da trama em todo momento, e de um jeito muito bonito. Pecadores mostra suas origens (este estilo musical de fato surgiu naquela região, incorporando tradições musicais africanas), exibindo empolgação e emoção genuínas dos personagens com o ritmo, conduz a história com canções e melodias belíssimas (a trilha sonora, recheada de blues, é excelente), e também, não esquece de mostrar que esta música servia para "amenizar" o trabalho do trabalhador negro nos campos de colheita durante o dia, e ser uma das poucas válvulas de escape para eles à noite.
 
E finalmente o melhor e mais impactante de Pecadores é sua mensagem final: que para alguém preto nos EUA dos anos 30, não importa trabalhar duro do jeito honesto ou do jeito desonesto; no filme os personagens tentaram dos dois jeitos, mas em ambos os casos é impossível ser bem sucedido... sim, você até pode ter alguma melhora de vida... como empregado; mas nunca será um "patrão" (mensagem que, dadas as devidas proporções, ainda é um bocado aplicável nos dias de hoje).
 
Pecadores é, de fato, um filme... diferente. Afinal, ele passa a maioria de sua história sem nos mostrar nada de sobrenatural, e então, em seu ato final, aparecem vampiros de tudo quanto é lado. Porém, isso já foi feito antes, em Um Drink no Inferno (1996), de Robert Rodriguez. Foi feito antes e foi feito melhor, já que os vampiros de Robert Rodriguez são mais assustadores do que estes aqui criados por Ryan Coogler. Em Um Drink no Inferno tínhamos uma história policial interessante, mas seu desfecho com vampiros era o melhor do filme: apoteótico, marcante. Isso não acontece em Pecadores: quando os dentuços chegam, o filme piora.
 
Há mais problemas em Pecadores: o desenvolvimento dos personagens é questionável. Sim, nós simpatizamos com eles porque são bastante oprimidos; porém o que conhecemos de verdade sobre cada um deles? Com exceção do "Preacher Boy" (Miles Caton), o pouco que aprendemos sobre os personagens são através de insinuações sobre o passado dos mesmos através de diálogos, e temos uma amarga  sensação de que "pegamos o bonde já andando". Esta falta de aprofundamento não permite que os atores tenham momentos de grande necessidade de atuação em tela (com uma única possível exceção para o novato Miles Caton, em seu primeiro filme da carreira). Desde modo, mesmo que em geral o elenco todo esteja bem, para mim as indicações de Melhor Ator, Ator Coadjuvante, Atriz Coadjuvante e Melhor Elenco dadas pelo Oscar são exageradas.
 
Como resultado final, Pecadores acaba sendo um drama histórico muito bom, mas como filme de terror - que aliás é a forma na qual ele mais se vende - é mediano. Imagino que Coogler quis trazer o terror para a história para que seu filme ficasse "único"; porém, o gênero não combinou direito: o verdadeiro confronto do bem contra o mal do filme não é espiritual, é bem terreno. Toda vez que em Pecadores que a história puxa para o sobrenatural, algo parece deslocado, e pior ela fica.
 
Somando prós e contras o filme é sem nenhuma dúvida acima da média. Aquelas "três coisas em que o filme é bom" que citei no começo deste artigo fazem muita diferença. Por outro lado, a produção não é tudo o que falam, a meu ver. O fato dos dois filmes com mais indicações ao Oscar 2026 serem Pecadores (com 16) e Uma Batalha Após a Outra (com 13) aparenta ser reflexo de uma temporada com produções concorrentes mais fracas e a Academia querendo passar um recado político ao péssimo governo estadunidense atual. Nota (de 1 a 6):
 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Retrospectiva Cinema Vírgula 2025: confira os Melhores e Piores filmes e séries do ano que passou!

FELIZ 2026 a todos os leitores do Cinema Vírgula! Em 2025 eu quase bati o recorde de publicações em um único ano deste blog... foram 74; contra 76 do ainda recordista 2015.

E novamente, como já acontece há vários anos, trago no primeiro final de semana do nosso novo ciclo solar uma retrospectiva do melhor e pior de filmes e seriados do ano que se passou. Lembrando que o critério para ser citado aqui é eu ter assistido, e de ter sido lançado no Brasil em 2025. Bora!


Os filmes de 2025

Assim como no ano passado, em geral os melhores filmes apareceram no começo do ano, afinal, eram os "filmes do Oscar". Depois disso, nada de muito interessante. E novamente os estúdios internacionais focaram pesado em continuações ao invés de criarem coisas novas... O resultado? Sono. Outra tendência que vem se consolidando é que as pessoas vão mais para o cinema ver filmes infantis, e ligam cada vez menos para os filmes mais "adultos". Tanto que o Top 3 de bilheteria mundial ficou com a animação chinesa Ne Zha 2 - O Renascer da Alma em primeiro lugar, Zootopia 2 em segundo, e com o live-action de Lilo & Stitch em terceiro.

Melhores: com muito orgulho, para mim os 3 melhores que assisti neste ano são... brasileiros!! Trata-se de Ainda Estou Aqui, responsável nada menos pelo primeiro Oscar do Brasil na história, O Agente Secreto e O Filho de Mil Homens, este último exclusivo da Netflix. Escrevi a crítica de todos eles aqui no Cinema Vírgula, basta clicar no nome para ler. ;)

Em termos internacionais, o melhor pra mim foi um anime, o espetacular Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito. E também faço questão de citar aqui entre os melhores o filme do Superman. Poderia ter sido melhor? Sem dúvida. Mas foi o melhor filme de super-heróis do ano e, dada a enorme responsabilidade que ele tinha - reconstruir e reiniciar o Universo DC nos cinemas - o fez de modo satisfatório.

Walter Salles (ao centro) e Fernanda Torres nas gravações de Ainda Estou Aqui

Piores: aqui vamos começar com meu Top 2: em segundo lugar vem The Old Guard 2, da Netflix. O primeiro filme até tinha sido bom e promissor... mas sua continuação errou tudo. Agora o pior filme que assisti no ano, disparadamente, foi Um Filme Minecraft, que infelizmente para mim aliás, foi grande sucesso de bilheteria. O filme é tão horroroso que não tive vontade sequer de escrever sua crítica aqui para o blog.

Como menções honrosas, quero citar também A Fonte da Juventude, da AppleTV+, e The Electric State, da Netflix. Como todos bem sabemos, as empresas de streaming prezam pela quantidade ao invés da qualidade, e por isso que são deles que vemos muitos filmes ruins envolvendo artistas famosos. Porém com The Electric State a dona Netflix se superou, já que gastou US$ 320 milhões para fazer essa bomba, um dos filmes mais caros da história.

DecepçõesMissão: Impossível - O Acerto Final não é ruim. Mas sendo este oitavo Missão Impossível o final da franquia, é um pouco decepcionante que ele seja o filme menos bom desde o terceiro. Outra decepção que tive foi com O Esquema Fenício, filme do diretor Wes Anderson, que gosto bastante. Também não é um filme ruim, mas certamente é o mais fraco de toda a carreira de Wes, cujos filmes estão piorando, mas parecia ter se recuperado com sua série de curtas lançada na Netflix.

O horror! Simplesmente, o horror!

A surpresa: depois de um ano tão tenso e problemático como 2025, quis me dar o direito de descansar o cérebro com um filme em que não tenha que me preocupar com discussões da vida real, apenas me divertir. No caso, falo de F1: O Filme. E ele entra na minha lista de surpresas porque os estadunidenses costumam não entender de Fórmula 1, então não estava esperando por um filme bom. F1: O Filme é basicamente uma história de conto de fadas para amantes desse esporte. Conexão com a realidade? Muito pouco. Mas é épico, vaza testosterona, e conta com uma fotografia primorosa, além de uma trilha sonora boa e empolgante.


As séries de 2025

Entendo que 2025 não foi um ano tão bom para as séries de TV, primeiro porque o que mais gostei de assistir foi Frieren (Crunchyroll e Netflix), que não tem episódios novos desde meados de 2024. E temporadas bem esperadas, como as finais de The Boys (Prime Video) e Dungeon Meshi (Netflix), e a segunda temporada de Fallout (Prime Vídeo), ficaram só para 2026. E praticamente todos os seriados que gostei muito em anos anteriores, entregaram temporadas inferiores em 2025. Enfim, vamos aos meus comentários...

Melhores: com o grande número de decepções, deu para trazer de volta Black Mirror (Netflix) como uma das melhores séries do ano. Sua 7ª temporada não trouxe temas muito recentes e originais, mas ainda sim, achei que 5 dos seus 6 episódios trouxeram histórias muito boas; e o outro que entra aqui é a 2ª e última temporada de Sandman (Netflix), que conforme disse anteriormente nesta lista, perdeu bastante qualidade em sua metade final, mas ainda assim, como um todo, encerra a série muito acima da média.

Sandman (2ª temporada)

Piores: agora a escolha ficou fácil: os piores são facilmente identificáveis e vieram em dose dupla. Trata-se das 2ª temporadas de Wandinha (Netflix) e de The Last of Us (HBO Max). Não bastando uma trama bem parecida (e piorada), e reciclando os mesmos vilões da temporada anterior, o roteiro de Wandinha faz algo ainda pior: tira muito tempo de tela da então protagonista, interpretada pela ótima Jenna Ortega, e dá bastante espaço para vários outros personagens, infinitamente menos interessantes. Já os "jênios" roteiristas de The Last of Us pegam a maior e mais chocante reviravolta que, nos videogames, acontece no meio de The Last of Us Part II, e já a revela no final do primeiro episódio, o que estraga muito o impacto da trama, tanto desta 2ª temporada, quanto da futura 3ª. Mas os problemas não param por aí: a personagem Ellie é absurdamente inconsistente, alternando entre uma "bocó fofa" e a pessoa violenta e vingativa que deveria ser, seguindo o material original. Ah, deixando claro, isso NÃO é culpa da atriz, é culpa do roteiro. Certamente não continuarei a assistir nenhuma destas duas séries.

Wandinha (2ª temporada)

Decepções: a lista tem vários nomes, e já aviso que gostei da temporada 2025 de todos eles. O problema é que em todos os casos eu esperava mais, e o que estes seriados entregaram, foi certamente a pior temporada de seus respectivos programas. São eles: Pacificador (HBO Max), The White Lotus (HBO Max), Only Murders in the Building (Disney+) e 1670 (Netflix). Uma pena, pois tenho apreço a todas estas séries. Provavelmente não irei mais assistir The White Lotus, entendo que a fórmula está 100% esgotada. Para os outros 3, vou dar novas chances. E, não acredito no que vou falar mas lá vai: Only Murders in the Building precisa renovar bastante os personagens, e principalmente, se livrar da personagem de Meryl Streep, a pior coisa da última temporada.

A surpresa: e não é que a estréia de James Gunn como novo chefão do universo DC foi boa apesar de ser com um título totalmente desconhecido (e portanto arriscado)? A primeira temporada da animação Creature Commandos (HBO Max) me surpreendeu positivamente, e apesar de ser uma espécie de continuação direta de um inconsistente Esquadrão Suicida, o resultado final foi muito bom.


Top 5: os mais lidos do Cinema Vírgula em 2025

A lista do Top 5 de artigos mais lidos do ano no Cinema Vírgula costuma me surpreender e desta vez não foi diferente. No Top 3 temos a crítica de 2 filmes do Oscar, porém, no segundo lugar aparece um "intruso", o surpreendente Nosferatu, que jamais esperava ter tanto interesse das pessoas.

Em quarto lugar temos o novo Superman, mostrando a força da DC Comics no Brasil, e em quinto tivemos um artigo que não foi crítica cinematográfica. Eu sempre fico feliz quando uma de minhas "curiosidades" é bem lida; porém das 16 que publiquei no ano passado, jamais apostaria minhas fichas nela. Vejam a lista:

Lista dos filmes que assisti em 2025

E finalmente, encerro minha retrospectiva com a lista de todos os filmes que assisti neste 2025, somando filmes novos ou antigos, sendo a primeira vez que os vi ou não. No total foram 93.

Lembrando que os filmes em laranja negrito e com um (*) são aqueles a que dou uma nota de no mínimo 8,0 e portanto, recomendo fortemente.

O Agente Secreto (idem, Alemanha / Brasil / França / Países Baixos, 2025)   (*)
Ainda Estou Aqui (idem, Brasil / França, 2024)   (*)
Algo de Errado Não Está Certo (idem, Brasil, 2020)
Alta Ansiedade ("High Anxiety", EUA, 1977)
O Amor Está no Ar ("Love Is in the Air", Austrália, 2023)
Anora (idem, EUA, 2024)
O Aprendiz ("The Apprentice", Canadá / Dinamarca / EUA / Irlanda, 2024)
Aqui ("Here", EUA, 2024)
O Auto da Compadecida 2 (idem, Brasil, 2024)
A Avaliação ("The Assessment", Alemanha / EUA / Reino Unido, 2024)
Balada de Um Jogador ("Ballad of a Small Player", Alemanha / Reino Unido, 2025)
Bananas (idem, EUA, 1971)
Uma Batalha Após a Outra ("One Battle After Another", EUA, 2025)
Borderlands (idem, EUA / Hungria, 2024)
Bugonia (idem, Canadá / Coreia do Sul / EUA / Irlanda / Reino Unido, 2025)
O Brutalista ("The Brutalist", Canadá / EUA / Reino Unido, 2024)
Chainsaw Man - O Filme: Arco da Reze ("Gekijô-ban Chensô Man Reze-hen", Japão, 2025)
Clonaram Tyrone! ("They Cloned Tyrone", EUA, 2023)
A Comédia dos Pecados ("The Little Hours", Canadá / EUA / Itália, 2017)
Cora Coralina - Todas as Vidas (idem, Brasil, 2017)
Corra que a Polícia Vem Aí! ("The Naked Gun", Canadá / EUA, 2025)
Cúpula do Caos ("Rumours", Alemanha / Canadá / EUA / Hungria Reino Unido, 2024)
A Cura ("A Cure for Wellness", Alemanha / EUA / Luxemburgo, 2016)
Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito ("Gekijô-ban Kimetsu no Yaiba Mugen Jô-hen", EUA / Japão, 2025)   (*)
Deu a Louca na História: O Filme ("Horrible Histories: The Movie - Rotten Romans", Reino Unido / Suíça, 2019)
Deus e o Diabo na Terra do Sol (idem, Brasil, 1964)
O Doador de Memórias ("The Giver", África do Sul / Canadá / EUA, 2014)
Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes ("Dungeons & Dragons: Honor Among Thieves", Austrália / Canadá / EUA / Irlanda / Islândia / Reino Unido, 2023)   (*)
Éden ("Eden", EUA, 2024)
The Electric State (idem, EUA, 2025)
Eles Não Usam Black-Tie (idem, Brasil, 1981)
Elio (idem, EUA, 2025)
Emilia Pérez (idem, Bélgica / França, 2024)
A Empregada ("The Housemaid", EUA, 2025)
O Esquema Fenício ("The Phoenician Scheme", Alemanha / EUA, 2025)
Extermínio 2 ("28 Weeks Later", Espanha / Reino Unido, 2007)
F1: O Filme ("F1", EUA, 2025)
Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars ("Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga", Canadá / EUA / Islândia, 2020)
O Filho de Mil Homens (idem, Brasil, 2025)   (*)
Um Filme Minecraft ("A Minecraft Movie" / Canadá / EUA / Nova Zelândia / Suécia, 2025)
Flow (idem, Bélgica / França/ Letônia, 2024)   (*)
Flor do Mal ("The Strange Woman", EUA, 1946)
A Fonte da Juventude ("Fountain of Youth", EUA / Reino Unido, 2025)
Frankenstein (idem, EUA / México, 2025)
Garotas em Fuga ("Drive-Away Dolls", EUA / Reino Unido, 2024)
Grande Hotel ("Four Rooms", EUA, 1995)
O Grinch ("The Grinch", EUA, 2018)
Honey, Não! ("Honey Don't!", EUA / Reino Unido, 2025)
Indiana Jones e a Relíquia do Destino ("Indiana Jones and the Dial of Destiny", EUA, 2023)
Ingrid Vai Para o Oeste ("Ingrid Goes West", EUA, 2017)
Jay Kelly (idem, EUA / Itália / Reino Unido, 2025)
Jogador Nº 1 ("Ready Player One", Austrália / Canadá / EUA / Índia / Japão / Reino Unido / Singapura, 2018)
Lilo & Stitch (idem, Austrália / Canadá / EUA, 2025)
O Mágico de Oz ("The Wizard of Oz", EUA, 1939)
Um Maluco no Golfe 2 ("Happy Gilmore 2", EUA, 2025)
MaXXXine (idem, EUA / Nova Zelândia / Reino Unido, 2024)
O Menino e a Garça ("Kimitachi wa Dô Ikiru ka", Japão, 2023)
Meu Jantar com André ("My Dinner with Andre", EUA, 1981)
Mickey 17 (idem, Coréia do Sul / EUA, 2025)
Missão: Impossível - O Acerto Final ("Mission: Impossible - The Final Reckoning", EUA / Reino Unido, 2025)
A Morte lhe Cai Bem ("Death Becomes Her", EUA, 1992)
Os Mortos Não Morrem ("The Dead Don't Die", EUA / Japão / Suécia, 2019)
Mulan (idem, China / EUA, 2020)
A Mulher na Cabine 10 ("The Woman in Cabin 10", EUA / Reino Unido, 2025)
Mussum: O Filmis (idem, Brasil, 2023)
Ne Zha ("Nezha: Mo tong jiang shi", China, 2019)
A Noite Sempre Chega ("Night Always Comes", EUA / Reino Unido, 2025)
Nosferatu (idem, EUA / Hungria / Reino Unido, 2024)
O Pagador de Promessas (idem, Brasil, 1962)   (*)
Pecadores ("Sinners", Austrália / Canadá / EUA, 2025)
Pisque Duas Vezes ("Blink Twice", EUA / México, 2024)
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos ("The Fantastic Four: First Steps", EUA, 2025)
O Quarto ao Lado ("The Room Next Door", Espanha / EUA / França, 2024)
A Queda ("Fall", EUA / Reino Unido, 2022)
Ricky Stanicky (idem, Austrália / EUA / Reino Unido, 2024)
Robô Selvagem ("The Wild Robot", EUA, 2024)   (*)
Saturday Night: A Noite que Mudou a Comédia ("Saturday Night", EUA, 2024)
O Senhor dos Anéis: A Guerra dos Rohirrim ("The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim", EUA / Japão/ Nova Zelândia, 2024)
Sonhos de Trem ("Train Dreams", EUA, 2025)
S.O.S. - Tem um Louco Solto no Espaço ("Spaceballs", EUA, 1987)
Superman (idem, EUA, 2025)
The New Yorker: 100 Anos de História ("The New Yorker at 100", EUA, 2025)
The Old Guard 2 (idem, EUA, 2025)
Thunderbolts* (idem, EUA, 2025)
Transformers: O Início ("Transformers One", EUA, 2024)
Os Três Mosqueteiros: Milady ("Les Trois Mousquetaires: Milady", Alemanha/ Bélgica / Espanha / França, 2023)
TV Pirada ("UHF", EUA, 1989)
A Última Loucura de Mel Brooks ("Silent Movie", EUA, 1976)
A Vida por Philomena Cunk ("Cunk on Life", Reino Unido, 2024)
Viúva Negra ("Black Widow", EUA, 2021)
Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out ("Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery", EUA, 2025)
Wallace & Gromit: Avengança ("Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl", Reino Unido, 2024)
The Witcher: Sereias das Profundezas ("The Witcher: Sirens of the Deep", Coréia do Sul / EUA / Polônia, 2025)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Dupla Crítica Filmes Netflix - O Filho de Mil Homens (2025) e A Noite Sempre Chega (2025)


Hoje publico minhas duas últimas críticas de filmes de 2025, ambos lançamentos exclusivos na Netflix. O primeiro e mais recente, O Filho de Mil Homens, foi lançado em Outubro e é produção nacional. Já A Noite Sempre Chega é um filme estadunidense que estreou em Agosto, e resolvi trazê-lo aqui porque ele teve pouca repercussão, então é uma oportunidade para mais pessoas conhecerem. Bora para as análises!



O Filho de Mil Homens
 (2025)
Diretor: Daniel Rezende
Atores principais: Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Miguel Martines, Johnny Massaro. Grace Passô, Juliana Caldas, Zezé Motta

Baseado em um livro de mesmo nome de 2011, escrito pelo português Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens conta a história de algumas pessoas em um pequeno vilarejo à beira-mar, nos anos 1950 (informação esta que só aparece no livro, o filme não traz nenhuma informação de data). São 5 personagens principais, todos eles rejeitados pela sociedade, e que vivem em imensa solidão.

O Filho de Mil Homens é lento, contemplativo... e pesadíssimo: vemos os personagens principais sofrerem os mais diversos tipos de violência (o filme tem indicação mínima para 16 anos), mas ao mesmo tempo, têm muita beleza, seja pela suas imagens e fotografias belíssimas, mostradas como se fossem pinturas em quadros, ou pela narração que parece poema, ou ainda, nos tocantes momentos de afeto que estes sofridos protagonistas recebem e/ou proporcionam.

Exemplificando alguns dos dramas apresentados, um dos personagens passou a vida sendo forçadamente trancado em casa por ser homossexual; outra, viveu igualmente trancada para poder se casar virgem... e não contarei mais para não estragar as surpresas emocionais do filme.

Roteiro e montagem de O Filho de Mil Homens são brilhantes em mostrar como a vida de cada um dos 5 personagens, a princípio histórias isoladas, se encaixam umas com as outras formando uma história única. Outro ponto muito elogiável são as atuações: o elenco é bem numeroso, e com várias interpretações ótimas.

Pelo que verifiquei, filme e livro são bem parecidos, sendo as principais diferenças que no livro o personagem Crisóstomo (Rodrigo Santoro) tem mais destaque, além de trazer muito mais reflexões internas e detalhes típicos da cultura de Portugal. Ainda assim, apesar das mudanças, o filme de O Filho de Mil Homens conseguiu manter a essência da obra original, é comovente, e em uma definição simples, uma poesia audiovisual. Nota: 8,0.



A Noite Sempre Chega 
(2025)
Diretor: Benjamin Caron
Atores principais: Vanessa Kirby, Jennifer Jason Leigh, Zack Gottsagen, Stephan James, Randall Park

O segundo filme deste artigo também é adaptação de um livro, trata-se do livro de mesmo nome escrito pelo estadunidense Willy Vlautin, publicado em 2021. Porém, mesmo sendo a adaptação de algo escrito já há alguns anos, fiquei com a sensação de que A Noite Sempre Chega teve fortes influências do cinema recente. Explico:

Do modo que A Noite Sempre Chega foi filmado, parece que seus produtores e diretor quiseram fazer aqui um novo Anora, aproveitando o hype do filme que havia acabado de vencer o prêmio máximo do Festival de Cannes (e vários meses depois, levaria também o prêmio máximo dOs Oscars).

Assim como no filme anteriormente citado, A Noite Sempre Chega é filmado em um ritmo frenético de muita ação e caos. As semelhanças também aparecem na paleta de cores escolhida na fotografia, cenários, e maneira de enquadramento da câmera. As protagonistas também são parecidas, já que aqui a personagem principal Lynette (Vanessa Kirby) é uma (ex?) garota de programa.

Entretanto os paralelos com Anora se encerram aí. Se lá, apesar do drama, há alívio cômico e cenas mais leves e sensuais, aqui em A Noite Sempre Chega não há nenhum respiro, tudo é sério, muito tenso e violento. Na trama, também totalmente diferente, Lynette mora há muitos anos com sua mãe (Jennifer Jason Leigh) e seu irmão mais velho com síndrome de Down, Kenny (Zack Gottsagen), em uma casa alugada cujo dono vai vendê-la; então ela tem apenas alguns poucos dias para cobrir a oferta e comprar a casa ela mesma, ou a família será despejada. Conforme o pouco tempo vai passando e ela vai tendo dificuldade para arrumar o dinheiro, Lynette começa a fazer coisas cada vez mais condenáveis e arriscadas.

Não sei como a história de A Noite Sempre Chega é no livro, mas o roteiro exibido no filme deixa a desejar. Ao não contextualizar nada do passado de Lynette e sua mãe, fica muito difícil entender algumas ações de ambas, principalmente da matriarca. Já o final do filme, que em teoria "conclui tudo", na prática deixa uma sensação de não concluir nada... Não me parece plausível que tudo o que vimos não terá consequências futuras, ou mesmo, que o final tenha de fato concluído minimamente todas as questões que o filme propôs.

Como drama, A Noite Sempre Chega não é ruim, seu clima de constante tensão e reviravoltas são muito bem executados e o ponto alto da produção. Mas com um roteiro não muito convincente, e sem se preocupar em nenhum momento em cativar o público, o filme não chega perto daquele que, em minha teoria, tentou imitar. Nota: 6,0.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Crítica Netflix - Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025)

Título
: Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out ("Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery", EUA, 2025)
Diretor: Rian Johnson
Atores principais: Daniel Craig, Josh O'Connor, Glenn Close, Josh Brolin, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Thomas Haden Church, Jeffrey Wright
Nota: 7,0

Rian Johnson completa sua "Trilogia Knives Out" com o melhor dos três filmes

Depois de seu Entre Facas e Segredos (2019) e sua seqüência Glass Onion: Um Mistério Knives Out (2022), o diretor e roteirista Rian Johnson encerra com Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out os dois filmes da franquia "Knives Out" que ele prometeu fazer e entregar para a Netflix vendendo os direitos de exclusividade por absurdos US$ 469 milhões. Quando criou a franquia, em 2019, sua idéia era trazer uma roupagem moderna para histórias de whodunnit, como as de Agatha Christie, e foi o que ele fez.

Além da história de assassinato em si, para cada um dos filmes Johnson quis trazer algum tema para fazer suas críticas. No primeiro filme, a crítica foi dirigida à velha aristocracia estadunidense, a como eles se acham superiores e tratam os imigrantes; no segundo, os ataques foram aos bilionários da tecnologia. E agora, neste Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, o tema escolhido foi o Cristianismo.

Na trama, o jovem padre Jud Duplenticy (Josh O'Connor) é transferido para uma pequena paróquia rural, liderada pelo controverso Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), cujo estranho comportamento e "ortodoxas" pregações mantém sua igreja com um número muito reduzido de estranhos fiéis. Durante uma missa de Sexta-Feira Santa, Wicks é assassinado dentro de uma câmara completamente fechada, o que parece simplesmente impossível. Por isso a chefe de polícia Geraldine Scott (Mila Kunis) convoca o famoso detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig) para investigar a morte.

Comparado com os outros filmes da série, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é o que menos se importa em focar em seus múltiplos personagens (mais uma vez um elenco bem numeroso e com várias estrelas) e concentra-se mais na vida do padre e ex-boxeador Jud. E isso também faz com que em sua primeira metade o filme mais discorra sobre igrejas, padres e fiéis desviando do que Jesus pregou, do que temas relacionados a crimes e filmes de detetive. Mas, quando a morte ocorre, tudo muda totalmente e o clima "policial" entra com tudo, de modo bem acelerado, até a conclusão da história.

Contando com objetos misteriosos e várias reviravoltas (e algumas que certamente não vão surpreender, porém outras sim) no final das contas achei a trama aceitável, divertida e interessante para quem curte histórias de detetive / assassinato. Dentre todos os filmes da franquia, é certamente o menos caótico e engraçado, mas vejo isto como qualidade, o resultado final é o melhor filme dos três, certamente o com menos problemas.

Mas por falar em "problemas", vamos ao que me mais me incomodou... a falta de coragem de Rian Johnson. Acho interessante trazer críticas da sociedade atual para os filmes de detetive... mas se vai fazer isto, por que o fazer de forma tão rasa? Veja: por exemplo no filme anterior, onde a critica foi aos "bilionários da tecnologia"... o filme até mostra que eles são "maus" porém a crítica maior não é neles, e sim nas pessoas que os idolatram.

E agora em Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out, o filme começa criticando, de forma clara até, o mal causado por pessoas que usam a fé por motivos pessoais e/ou por poder, e ele até chega a associar isso com política... mas depois, mal toca no assunto, e nunca associa a religião com o dinheiro. É como se o filme começasse com uma forte critica geral (endossada inclusive pelo seu "herói", o detetive Benoit Blanc), e terminasse com um... ah, esqueçam o que eu critiquei... foi só um padre louco mesmo...

Rian Johnson, que desde que ficou famoso a partir de 2012 por dirigir e escrever o bom Looper: Assassinos do Futuro, e na época foi considerado um "gênio promissor", mais uma vez não realizou a promessa; porém desta vez parece ter colocado sua franquia querida nos eixos. Nota: 7,0.

domingo, 23 de novembro de 2025

Crítica Prime Video - Éden (2024)

Título
Éden ("Eden", EUA, 2024)
DiretorRon Howard
Atores principais: Jude Law, Ana de Armas, Vanessa Kirby, Daniel Brühl, Sydney Sweeney, Jonathan Tittel, Felix Kammerer, Toby Wallace
Nota: 7,0

Estrelado e com ótimas atuações, filme é baseado em bizarra história real

Lançado nos cinemas mundiais ano passado, Éden, o mais recente filme do prestigiado diretor estadunidense Ron Howard (já vencedor do Oscar pelo filme Uma Mente Brilhante) sequer chegou nos cinemas brasileiros, e por aqui estreou diretamente nos streamings, mês passado, via Prime Video.

A chocante história, que ocorre no início dos anos 1930, é baseada em fatos reais, onde um pequeno grupo de pessoas, por motivos diversos, decidiu recomeçar sua vida na ilha Floreana, a ilha mais ao sul do arquipélago vulcânico que conhecemos popularmente como Ilhas Galápagos, e que já se encontrava desabitada há décadas.

A trama começa com a família Wittmer chegando à ilha: Heinz (Daniel Brühl), Margret (Sydney Sweeney) e o filho Harry (Jonathan Tittel) perderam praticamente tudo e, inspirados pela história dos "heróicos aventureiros" Dr. Friedrich Ritter (Jude Law) e sua companheira Dore Strauch (Vanessa Kirby), que já estavam em Floreana há vários anos, resolveram começar uma nova vida por lá.

Todos eles eram alemães, mas mesmo assim, Friedrich não gostou nem um pouco de receber novos integrantes no local. O clima na ilha ficou tenso, mas ainda controlável. Porém tudo explodiu quando um terceiro grupo chegou: a Baronesa Eloise (Ana de Armas) com seus dois amantes / empregados Robert (Toby Wallace) e Rudolph (Felix Kammerer). A interação entre os três grupos iria escalar a tal ponto de tensão onde a história de Éden chegaria até a mortes.

Como ponto mais forte do filme, o elenco estrelar de Éden faz jus a sua contratação e temos ótimas atuações, só por isto valendo a pena assisti-lo. Os conflitos e clima de constante tensão e imprevisibilidade são mais destacados pelos atores do que pelo próprio roteiro.

O que sabemos hoje do que aconteceu na ilha provêm de 3 fontes: dos relatos de Dore Strauch, dos relatos de Margret Wittmer, e das cartas enviadas via correio por Friedrich Ritter (além, é claro, das evidências encontradas via investigações ao longo dos anos pós incidente). Claro que todos os relatos foram bem parciais e muita coisa ficou sem resposta; com isso, os roteiristas Noah Pink e o próprio Ron Howard, disseram que para escrever o roteiro "simplesmente juntaram todas as histórias para criar a única versão que faria sentido". Mas não é bem assim. E no "PS" ao final deste texto eu conto as maiores diferenças do que o filme conta e o que aconteceu na vida real.

De qualquer forma, em linhas gerais, Éden é bem fiel aos fatos verdadeiros dos fatídicos eventos ocorridos na ilha Floreana, e tudo o que aconteceu lá é perturbadoramente interessante. A lamentar, a escolha do diretor / roteirista de praticamente ignorar o desenvolvimento dos personagens, e focar quase em 100% neles fazendo maldades um com os outros. Isso deu mais espaço para os atores brilharem, porém, enfraqueceu a história, tirando dela seus detalhes, além de praticamente impedir a empatia do público com qualquer um dos humanos em tela.

É uma pena em que Éden fracassou absurdamente nas bilheterias, e os motivos disso foram vários: marketing e divulgação fracos, recepção apenas morna da crítica especializada, e chegada aos cinemas no auge da polêmica quanto ao (racista?) comercial de jeans estrelado por Sydney Sweeney para a marca American Eagle.

Pela enorme audiência que programas de "real crime" alcançam na TV e na Internet, mesmo não sendo literalmente deste gênero, Éden tem tudo para manter o interesse deste mesmo tipo de público, e mais ainda, de despertar o interesse nas pessoas que curtem "mistérios do passado", ou ainda, quem simplesmente gosta de ver grandes atuações. Em suma, Éden poderia e merecia um roteiro melhor, porém sua história real mais que se sustenta por conta própria, e seus atores justificam que ele mereça uma melhor chance. Nota: 7,0.

 

PS: as principais diferenças entre o filme e os fatos reais (são spoilers grandes do filme, leia por conta e risco)

As maiores diferenças são em relação ao "desaparecimento" da Baronesa Eloise e seu amante Robert. O filme mostra todos os homens restantes da ilha em grupo para matá-los, e posteriormente o Dr. Ritter enviando uma carta ao governador acusando Heinz Wittmer de ter assassinado o casal. Para começar, na vida real, esta carta não existiu... ou melhor, existiu, porém de modo diferente... Só depois de 6 meses após o sumiço de Eloise e Robert, foi então que o Dr. Ritter escreveu uma carta contando que a dupla havia desaparecido, mas que ele não pôde enviar a carta antes porque os Wittmer o haviam impedido (ou seja, não houve uma acusação direta de assassinato).

Pelos relatos de Margret Wittmer, a Baronesa lhe disse que havia chegado em um iate para levá-la ao Taiti, e que ela deixaria seus pertences para Lorenz; já pela versão de Dore Strauch, ela comenta que na noite anterior ao desaparecimento ela ouviu um grito, e que não viu nenhum barco no dia seguinte, o que a fez suspeitar que ambos teriam sido assassinados pelo outro amante, Rudolf Lorenz. Hoje, a teoria mais "votada" pelos especialistas no caso é que este teria sido mesmo o ocorrido... Lorenz matado os dois e se livrado dos corpos.

Sobre a morte do Dr. Ritter, oficialmente ficou registrado que ele morreu por intoxicação alimentar e desidratação; mas teria sido ele "assassinado" de verdade por Dore? Não dá para saber. Nos relatos de Margret Wittmer há apenas uma leve indireta sobre isso. Ainda assim parece pouco provável que o Dr. Ritter real tivesse se deixado "enganar" daquele jeito. De qualquer forma, o filme não deixa isso claro, mas a Dore real já odiava Ritter quando as demais pessoas chegaram a ilha. E, de fato, as últimas palavras dele antes de morrer, segundo o livro escrito por Margret, foram realmente ele amaldiçoando Dore Strauch.

E finalmente, outra "mentira" que considero relevante, é que embora os 3 grupos se odiassem (e principalmente, que todos odiassem a Baronesa), não há nenhum relato de que ela mandava roubar provisões dos outros grupos, e que ficasse maquiavelicamente jogando um grupo contra o outro; de qualquer forma, alguns incidentes (como o da morte do burro), de fato aconteceram.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Crítica Netflix - Frankenstein (2025)

Título
: Frankenstein (idem, EUA / México, 2025)
Diretor: Guillermo del Toro
Atores principais: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth, Felix Kammerer, Charles Dance, David Bradley, Lars Mikkelsen, Christian Convery
Nota: 7,0

Del Toro esbanja no visual e entrega a sua versão de Frankenstein

O diretor oscarizado mexicano Guillermo del Toro volta para a Netflix, desta vez pensando bastante nos prêmios da Academia. Tanto é que semanas antes da estréia no streaming, seu Frankenstein chegou a ser lançado em salas limitadas de cinemas pelo mundo todo, inclusive no Brasil (!), o que é muito surpreendente.
 
O filme, meio que obviamente, é a adaptação de del Toro para o livro escrito por Mary Shelley em 1818, de nome Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno, contando a história de Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e Monstro (Jacob Elordi) a quem ele deu vida. A trama começa com Victor e o Monstro tendo seu confronto derradeiro no gelado Ártico (o que também acontece no livro), e então há uma pausa, onde primeiro assistimos Victor contando toda sua história, e em seguida, o Monstro detalhando a dele.
 
Ainda que conte com um elenco estrelado e boas atuações (em especial a de Oscar Isaac), o melhor de Frankenstein é seu visual. Como sempre nos filmes do diretor, a fotografia é excelente. O design de produção também é muito bom, mesmo com os figurinos sendo apenas "ok".

É importante ressaltar que aqui estamos diante da versão de Guillermo del Toro em relação a obra original, portanto ele faz várias adições e mudanças em relação aos escritos de Mary Shelley; diria eu, muito mais inclusões do que alterações, na verdade. Principalmente, aqui temos uma maior "história de origem" de Victor, dando-lhe um pai tirano (Charles Dance), traumas de infância e uma abordagem inicialmente mais científica. O diretor também não se conteve e, seguindo a imaginação popular, faz a criação do Monstro ser algo gigantesco, em um "castelo"; pelo menos o visual do Monstro é razoavelmente parecido com o que Mary Shelley descreveu. Para mais detalhes sobre como é o Monstro de Frankenstein do livro, sugiro fortemente ler este breve artigo de curiosidades que escrevi anos atrás.

Ainda sobre o aparência da criatura, um problema: para mim o "Monstro" não é visualmente muito assustador. Muito mais "assustador", entretanto, são as muitas imagens de pedaços de cadáveres que aparecem no filme em close e sem nenhuma cerimônia; para as pessoas mais sensíveis isso pode ser perturbador.
 
Já a história da vida do Monstro é bastante fiel ao livro, mas algumas partes foram cortadas e a narrativa está um pouco corrida. Ah, e temos uma diferença importante: neste Frankenstein a "bondade" do Monstro é bem exagerada, assim como um pouco da "maldade" de Victor. Confesso que esse maniqueísmo constantemente presente nos trabalhos do diretor me fazem gostar menos do seu trabalho.
 
As alterações feitas por del Toro têm seus prós e contras. Por exemplo, é interessante ele trazer via a personagem de Elizabeth (Mia Goth) críticas de como as mulheres eram deixadas a margem da sociedade na época. Por outro lado, entendo que tivemos mais "contras": a presença do "romance", com Victor se apaixonando por Elizabeth, e ela se apaixonando pelo Monstro, é tão clichê e piegas que decepciona.
 
Como resultado final, após várias mudanças e adições, Frankenstein ainda consegue ser mais fiel ao texto original do que a maioria das adaptações que a obra máxima de Mary Shelley costuma receber. E, como a história primordial é boa, por consequência este filme também o é. Ambos fazem refletir sobre a vida e a maldade humana. E um ponto positivo para a adaptação áudio-visual: o filme é mais bem sucedido em emocionar. Nota: 7,0.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Crítica Netflix - A Mulher na Cabine 10 (2025)

Título: A Mulher na Cabine 10 ("The Woman in Cabin 10", EUA / Reino Unido, 2025)
Diretor: Simon Stone
Atores principais: Keira Knightley, Guy Pearce, David Ajala, Gitte Witt, Art Malik, Gugu Mbatha-Raw, Hannah Waddingham, Kaya Scodelario, David Morrissey, Daniel Ings, Amanda Collin, Lisa Loven Kongsli, Paul Kaye, Charles Craddock
Nota: 6,0

Um bom filme de suspense / detetive para se passar o tempo

A Mulher na Cabine 10, filme produção original Netflix, é uma adaptação de um livro homônimo de 2017 escrito por Ruth Ware e best-seller do New York Times. Na trama, conhecemos Laura Blacklock (Keira Knightley), uma premiada jornalista que recebe um convite para passar 3 dias em um luxuoso iate junto com um grupo de milionários. O motivo: escrever sobre a fundação de caridade que irá ser oficializada durante esta viagem, pelo casal Richard (Guy Pearce) e Anne Bullmer (Lisa Loven Kongsli). Com câncer terminal, Anne quer deixar a fundação como seu legado.

Apesar de tanta beleza e luxo, nem tudo ocorre de maneira com que se espera. Durante a primeira madrugada dentro do navio, Laura acorda assustada com barulhos vindo de uma cabine vizinha à sua, a cabine 10. E após ouvir algo grande caindo na água, ela corre para a janela do seu aposento e descobre que o que caiu foi uma mulher. Após gritar por socorro e pararem o navio, um duplo choque: não somente todos os tripulantes continuam sãos e salvos dentro da embarcação, como a tal cabine 10 não possuía nenhum passageiro registrado.

Então vemos a luta de Laura, literalmente conta todos (pois nem seu amigo jornalista que se encontra no barco a ajuda) para provar que não estava louca. A Mulher na Cabine 10 conta com um bom clima de suspense durante o tempo todo, e também consegue transportar muito bem para o expectador o clima de "inadequação" da personagem perante aos milionários esnobes.

Estaria Laura tendo algum delírio? Seria tudo fruto de sua imaginação? Ou tudo o que ela fala de fato aconteceu? Da maneira em que o diretor Simon Stone filmou A Mulher na Cabine 10, a dúvida é bem pequena. O filme é corrido e cheio de ação, não dando muito tempo para a platéia pensar... e se pensar, irá concluir que as chances de Laura estar imaginando tudo são pequenas. Esse tipo de condução da trama foi proposital, pois o diretor não queria que o público passasse pela mesma sensação do leitor na obra original, onde lá, Laura não é uma narradora confiável, pois sofre de insônia e está sempre entupida de fortes remédios.

A trama policial / investigativa dentro do filme é boa - com exceção de um detalhe da explicação da trama que me incomodou bastante, e o qual comentarei no P.S. ao final do texto - e roda de modo bem competente até chegar nas cenas finais, onde então aí sim, finalmente, A Mulher na Cabine 10 decepciona, com um desfecho um bocado implausível e melodramático, baixando no geral a qualidade do filme.

Apesar do final clichê e pouco verossímil, no final das contas A Mulher na Cabine 10 acaba se tornando um bom passatempo para quem gosta de filmes de suspense policial. Está acima de muuita coisa feita pela Netflix. Nota: 6.0.


P.S.: sobre a tal parte da explicação que me incomodou bastante (não leia se não quiser levar um spoiler médio da trama): por que a pessoa x entrou na Cabine 10 naquele momento para flagrar aquilo que estava acontecendo? O filme não dá nenhuma explicação para essa pessoa saber que algo acontecia naquela cabine, ou para estar lá por perto naquele momento. Não sei se isso é explicado de modo satisfatório no livro (e talvez até seja, dadas as várias alterações que o filme fez em relação à obra original), mas se não for... bem decepcionante.

Você conhece Hokuto no Ken mais do que imagina... e agora pode conhecer ainda mais!

Graças à explosão de publicações de mangás iniciada no Brasil nos anos 90, hoje em dia quase todas as grandes obras de quadrinhos japon...