Um dos filmes de Hollywood mais famosos e elogiados de todos os tempos, O Poderoso Chefão (1972), é baseado no livro de mesmo nome (The Godfather, no original) publicado em 1969 pelo estadunidense e filho de imigrantes italianos, Mario Puzo.
Anos depois, Mario Puzo escreveria a continuação de O Poderoso Chefão, que também foi adaptada para os cinemas. Claro que estamos falando de O Poderoso Chefão Parte 2 (1974), certo? Errado. Ah, então a continuação escrita por Mario Puzo só pode ter sido a base para O Poderoso Chefão Parte III (1990)... Errado novamente! Acompanhem esta complexa e confusa história.
Ato I - O Poderoso Chefão 1 e 2
A história de O Poderoso Chefão começa com... problemas financeiros. Em 1965 Puzo já tinha 45 anos de idade e havia publicado apenas dois livros. Ambos bem elogiados pela crítica mas... com poucas vendas. Então seu editor lhe sugeriu: por que não escrever sobre a máfia? Mario não gostou da idéia. Ele não entendia do assunto, e queria consolidar a imagem de escritor "sério" que estava construindo até então. Porém, repleto de dívidas, o autor aceitou a sugestão e seu livro sobre a fictícia família Corleone foi um enorme sucesso de vendas, ficando por exemplo mais de um ano na lista dos mais vendidos da New York Times. E isso seria só o começo... pois Puzo ficaria realmente rico alguns anos depois, quando sua obra foi adaptada para os cinemas por Francis Ford Coppola.
Com as finanças resolvidas para o resto da vida, Mario Puzo não teve mais nenhum interesse, a curto prazo, de escrever um novo livro da saga O Poderoso Chefão. Mas ele se interessou em continuar sua história nos cinemas, e juntamente com Coppola, a dupla escreveu o roteiro de O Poderoso Chefão Parte 2. O filme funciona ao mesmo tempo como uma prequela e uma continuação do anterior: há eventos mostrando como o jovem Vito Corleone se tornou "o Chefão" (e isto também veio do livro The Godfather de 1969), misturados com o início de Michael Corleone assumindo os negócios do pai (agora uma fase totalmente inédita, criada especificamente para o filme).
Como curiosidade, diz a lenda que Al Pacino não gostou do roteiro original do segundo filme, e só assinou contrato após Coppola ter reescrito boa parte do material. Isto significa que em teoria a maioria do roteiro têm as mãos do diretor estadunidense, e não de Puzo. De qualquer forma, após O Poderoso Chefão Parte 2 tanto Francis Ford Coppola quanto Mario Puzo ficaram satisfeitos com o resultado e não pensaram em voltar para a franquia por muitos e muitos anos...
Ato II - O Siciliano
A Paramount passou anos pedindo para que Coppola fizesse um Poderoso Chefão 3, e o diretor sempre recusava veementemente pois entendia que já tinha contado tudo sobre a família Corleone. Em contrapartida, Mario Puzo voltou a se interessar pelo assunto "máfia" no início dos anos 80, e ficou obcecado com a história real do mafioso siciliano, Salvatore Giuliano.
Então em 1984, Puzo publicou o livro O Siciliano, que traz muito da história real de Salvatore Giuliano para dentro do universo de O Poderoso Chefão. Na obra, o mafioso foi renomeado para Salvatore "Guiliano", e conta a história da volta de Michael Corleone - com Guiliano - da Sicília para os EUA. A trama se passa nos anos 50, quando Don Vito Corleone ainda é o chefão da máfia em Nova York; ou seja, embora a história sirva de "continuação" para o livro O Poderoso Chefão, sua trama acontece em paralelo com o mesmo. E, outro detalhe importante: Michael Corleone é um personagem secundário, o personagem principal é Salvatore "Guiliano".
Claro que Hollywood iria adaptar este livro também, porém o estúdio Gladden Entertainment foi mais rápido que a Paramount e comprou os direitos do livro para os cinemas primeiro; Coppola foi chamado para dirigir, e como esperado, recusou. O diretor escolhido foi então Michael Cimino que tinha acabado de fazer o filme sobre máfia chinesa O Ano do Dragão (1985), que teve desempenhos aceitáveis de bilheteria e crítica.
Porém, nada deu certo para o filme O Siciliano (lançado em 1987). Para começar, como os direitos da franquia O Poderoso Chefão continuavam com a Paramount, o roteiro não pode usar nada dos Corleone, ou seja, por exemplo o personagem de Michael teve que ser retirado completamente. Talvez por essa necessidade de alterações o roteiro nunca ficou bom, e teve problemas do início ao fim da produção. O resultado é que O Siciliano foi um desastre tanto nas bilheterias quanto na opinião dos críticos.
Ato III - O Poderoso Chefão 3 e o CODA
E quanto a O Poderoso Chefão Parte III (1990)? Lembram que Coppola não queria fazer o filme de jeito nenhum? Ainda sem conseguir se recuperar financeiramente desde 1982, com o fracasso do filme O Fundo do Coração produzido por seu estúdio, Francis topou fazer o terceiro filme para a Paramount. Curiosamente então, a trilogia de O Poderoso Chefão começou e terminou graças à crises financeiras de seus autores.
Ainda que seja um bom filme, O Poderoso Chefão Parte III é facilmente o pior da trilogia, um pouco confuso, desconexo, e desnecessário. Porém recentemente Coppola colocou a culpa de tudo isso nos produtores da época, e lançou, em 2020, The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone; que é uma re-edição do filme O Poderoso Chefão Parte III que agora, segundo o diretor, apresenta uma conclusão “mais apropriada” à trilogia, com maior fidelidade ao tom planejado por ele Puzo, sem interferência do estúdio.
Como principais diferenças, a versão de 2020 possui 4 minutos a menos, e alterações significativas tanto no início quanto no desfecho do filme. Não assisti esta versão até hoje, mas a crítica em geral a considera, de fato, melhor que a original.
Ato IV - Os livros que continuam a saga
Mario Puzo faleceu em 1999, aos 72 anos, porém o universo que ele criou continua se expandindo! Após sua morte, a família do autor contratou o escritor Mark Winegardner para continuar a saga literária, e foram lançados dois novos livros:
- A Volta do Poderoso Chefão (2004): que acompanha a história de Michael Corleone entre o primeiro e o segundo filmes
- A Vingança do Poderoso Chefão (2006): que continua a história de Michael após o segundo filme, além de expandir o universo da franquia
Continuando sob autorização da família Puzo, em 2012 foi lançado o livro A Família Corleone, escrito por Edward Falco, e com o importante detalhe de ser baseado em um roteiro inacabado do próprio Mario Puzo. O livro conta sobre a juventude de Vito Corleone e sua ascensão ao crime.
Porém com esta publicação, a Paramount interveio e resolveu processar os herdeiros do autor: segundo eles, pelo contrato original de 1969, o estúdio comprou todos os direitos autorais e literários da marca O Poderoso Chefão, e no caso os herdeiros só tinham autorização para lançar um único livro (que já havia sido usada com A Volta do Poderoso Chefão, em 2004).
Após um acordo comercial sigiloso entre a família Puzo e a Paramount (até hoje ninguém sabe nada dos termos acordados), o estúdio não somente liberou a publicação de A Família Corleone, como permitiu mais livros, e em 2027 teremos o quarto livro expandido da série: Connie, escrito por Adriana Trigiani. A obra diz ser os eventos de O Poderoso Chefão sob o ponto de vista de Connie Corleone Rizzi, filha de Don Corleone, e interpretada nos filmes por Talia Shire. Portanto, teremos a primeira obra da franquia escrita e protagonizada por uma mulher.





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