Dê uma "Volta ao Mundo" com os melhores jogos de Alocação de Trabalhadores

Recentemente ultrapassei a marca de 450 jogos modernos de tabuleiro e cartas diferentes jogados, e para "celebrar a conquista", resolvi fazer alguns artigos sobre este tema. O primeiro da série será este aqui, onde homenageio aquela que talvez seja a minha mecânica favorita nos jogos de tabuleiro: a alocação de trabalhadores.

Abaixo irei apresentar para vocês meus SEIS jogos favoritos de alocação de trabalhadores. Todos eles estão no meu Top 25 melhores jogos de tabuleiro e cartas da vida. E vejam só, curiosamente, em termos de tema, cada um representa alguma região distinta do planeta. Portanto, convido a vocês a uma viagem pelo mundo comigo através destes excepcionais jogos de tabuleiro! Apertem os cintos, o passeio será feito percorrendo os jogos em ordem alfabética:


Jórvík (2016; 2 a 5 jogadores)

Comecemos nossa viagem pelo mundo por Jórvík, que era como os Vikings chamavam a atual cidade de York (norte da Inglaterra) na época em que a possuíram, entre os anos de 865 à 1035. Em Jórvík cada jogador representa o chefe de uma tribo viking, cujo objetivo é se estabelecer na região (fazer mais pontos), desenvolvendo o comércio e resistindo a invasores.

Sendo a reimplementação de um antigo jogo alemão do famoso designer Stefan Feld, Jórvík é o jogo menos "alocação de trabalhadores" da lista, pois na verdade sua mecânica principal é o leilão: cada "trabalhador" na verdade serve (pelo menos no modo básico do jogo) para dar um lance em uma carta para você comprar a cada rodada. O jogo é muito divertido e tem bastante interação, pois na verdade, atrapalhar os adversários dando lances em cartas que eles precisam muito só para que elas fiquem mais caras, faz bastante diferença.

Jórvík foi publicado no Brasil pela Conclave Editora em 2017 é um dos jogos mais injustamente desvalorizados por aqui... apesar da caixa grande e número considerável de componentes, você consegue comprar uma cópia dele usada (mas "como nova") pela internet por menos de R$ 200,00.


Parks - Second Edition (2025; 1 a 5 jogadores)

 

Agora vamos para as Américas, e mais especificamente, visitar 63 dos mais belos parques naturais dos EUA. Em Parks (2ª Edição), somos trilheiros explorando e admirando paisagens naturais. O jogo se desenvolve em 3 rodadas (ou melhor dizendo, estações), e cada jogador controla dois meeples. Em cada estação os jogadores andam pelo tabuleiro, que nada mais é uma trilha reta de poucos espaços, onde eles devem caminhar com seus trilheiros coletando itens, tirando fotos e realizando outros tipos de ações.

Mecanicamente, o jogo é parecido com aqueles jogos clássicos e antigos como Jogo da Vida e Banco Imobiliário, no sentido que você pega sua peça e vai andando com ela pelas "casas" do tabuleiro. Porém, aqui a movimentação não é feita com dados... você pega seu personagem e anda com ele quantas casas quiser. O "pulo do gato" é que você só consegue ir em uma casa já ocupada (seja por outro trilheiro seu, ou de um adversário) apenas uma vez em cada estação; além, é claro, que você só pode ir para frente, não pode se movimentar para trás. Portanto, quanto mais você "correr na frente", menos itens e ações vai fazer, além de estar facilitando a vida para seus oponentes, dando a eles mais locais no tabuleiro para acessarem.

Além de ter regras simples e ser muito gostoso de jogar, Parks (2ª Edição) tem partidas relativamente rápidas (cerca de 1h) e componente belíssimos, coloridos, de altíssima qualidade. Um jogo para toda a família, que foi lançado no Brasil pela Asmodee neste ano: uma cópia nova custa hoje cerca de R$ 300,00.


Russian Railroads (2013; 2 a 4 jogadores)


Saindo dos EUA, vamos para seu rival histórico, a Rússia. Neste jogo temos um tabuleiro central, e cada jogador também tem seu próprio tabuleiro, onde nele serão encaixados tipos diversos de componentes. E mesmo assim, Russian Railroads é o "alocação de trabalhadores" mais "puro" desta lista, já que a única ação disponível para os jogadores por turno é pegar um dos seus trabalhadores (meeples), alocá-lo em algum espaço do tabuleiro central ainda livre, e ganhar os recursos daquele local.

Mas isso não significa que o jogo seja simples... ele é consideravelmente complexo, requer bastante planejamento e muitas partidas "para dominá-lo". Apesar do tema "trens", ao contrário de jogos como Ticket to Ride aqui você não está gerenciando locomotivas e vagões, e sim, os trilhos de 3 famosas linhas ferroviárias russas. As ações dos trabalhadores te permitem comprar peças de trilhos de diferentes cores, cada cor tem um "custo" diferente (e consequentemente pontua mais ou menos no final do jogo), assim também como quanto mais extensa estiver cada linha férrea ao final da partida, mais pontos você faz.

Embora com regras bem simples, entendo que Russian Railroads está entre os mais complexos desta lista para "aprender a jogar bem". Mesmo assim, é muito gostoso jogá-lo, e suas partidas costumam levar 30 min por jogador. Como curiosidade, Russian Railroads nunca foi lançado no Brasil. Em seu lugar, veio o Ultimate Railroads via editora Devir, uma caixa luxuosa que inclui tudo o que já saiu de extras para este jogo: suas duas expansões German Railroads e American Railroads, outras mini-expansões, e a inédita expansão Asian Railroads.

Nunca joguei com nenhuma destas expansões, então não posso opinar a respeito. Hoje o jogo se encontra esgotado nas lojas. Quando lançado, esta caixa gigante custava cerca de R$ 900,00; com certa dificuldade ainda se encontram cópias usadas do mesmo na internet para comprar, por pouco mais de R$ 1000,00.


Tzolk'in: O Calendário Maia (2012; 2 a 4 jogadores)


Depois de quase circunavegar pelo frio norte da Terra, já estava na hora de irmos para algum local tropical. Voltemos ao tempo para a época da civilização Maia, que se localizava no que hoje é Guatemala, Honduras e sul do México. Graças a seu sistema de movimentação de engrenagens, Tzolk'in: O Calendário Maia é um dos jogos de tabuleiros mais geniais que conheço.

No jogo cada jogador representa uma tribo Maia, e durante quatro estações, deve colocar seus trabalhadores para colher milho, armazenar madeira e fazer oferendas aos deuses, que são as coisas necessárias para alimentar e desenvolver seu povo. Na imagem acima é possível visualizar as geniais engrenagens que citei antes. Em seu turno, cada jogador pode colocar um ou mais de seus trabalhadores (estes "pinos" que no recorte acima vemos nas cores vermelha e azul) dentro de uma posição de uma engrenagem, e após todos os participantes jogarem, o turno acaba e as engrenagens giram simultaneamente uma posição. Com isso, todos os trabalhadores passam a acessar a "casa" seguinte do tabuleiro daquela engrenagem, que dá um bônus maior.
 
Quando você, em sua ação "remove" um trabalhador de uma engrenagem, você recebe os itens demarcados naquela região do tabuleiro; mas há um porém: se você demorar e sua peça dar a volta completa na roda, ela "cai" e você fica sem ganhar nada. 

Tzolk'in: O Calendário Maia é um jogo de componentes belíssimos, inteligente, e bastante temático. Mas há um porém: ele pode ser um pouco punitivo se você não jogar direito. É que ao final de cada estação, você é obrigado a alimentar cada um de seus trabalhadores com 2 milhos; e se não conseguir, vai perder bastante pontos. Ele é distribuído no Brasil pela Devir, e um jogo novo custa por volta de R$ 450,00. Por ser uma caixa grande e pesada, repleta de componentes, o alto preço se justifica.

 
As Viagens de Marco Polo (2015; 2 a 4 jogadores)

A mesma dupla de criadores de Tzolk'in (os designers italianos Simone Luciani e Daniele Tascini) entregou três anos depois esta outra obra prima, As Viagens de Marco Polo, que por sua vez é um alocação de trabalhadores bem diferente do anterior, já que aqui uma das mecânicas principais é baseada em rolagem de dados.

No jogo, você controla um personagem histórico real com alguma relação com Marco Polo, famoso comerciante italiano do Séc XIII, que passou duas décadas de sua vida viajando por regiões do Oriente, saindo de Veneza e não se limitando aos reinos "mais próximos" da Pérsia e Índia, mas supostamente também chegando até a China. Conforme se vê no tabuleiro acima, temos um mapa de quase toda a Ásia, e inclusive se chegarmos até Pequim (Beijing), ganhamos pontos extras de vitória por isso. Em outras palavras em nossa "Volta ao Mundo" agora vamos passear por quase 20% dele rs.

Dentre os personagens jogáveis temos Niccolo e Matteo Polo (respectivamente pai e tio de Marco), Kublai Khan (o imperador Mongol que governava a China naquela época), Guilherme de Rubruck (um frade franciscano contemporâneo a Marco Polo que escreveu bastante sobre o império Mongol do Séc XIII), e etc. Uma das principais características de As Viagens de Marco Polo é que cada personagem possui um poder único bem forte, e que é bastante diferente dos demais, o que faz a experiência (e a estratégia) de jogar com cada um deles algo bem diferente.

O jogo transcorre por 5 rodadas, e no início de cada uma delas cada jogador rola simultaneamente seus 5 dados (trabalhadores) para, ao longo da mesma, alocá-los no tabuleiro e realizar suas ações e/ou obter itens e dinheiro. A questão é que quanto maior o número do dado, mais "forte" é a ação que você faz, mas em contrapartida, nos lugares onde é permitido alocar trabalhador (dado) onde alguém já se posicionou antes (nem todos os locais permitem isso), aí você tem que pagar para usar o espaço, e neste caso, quanto maior o valor do dado, mais caro fica.

Jogão; é um dos meus Top 3 jogos da vida. Assim como Tzolk'in, sua duração é de cerca de 30 min por jogador e ele também foi lançado no Brasil pela Devir. Uma cópia nova dele também está na casa dos R$ 450,00, porém é bem mais difícil de achar uma. Cópias usadas podem ser encontradas com mais facilidade, em sites especializados como a Ludopedia, por exemplo.

 

The White Castle (2023; 1 a 4 jogadores)

Depois de ParksThe White Castle é o jogo com partidas de menor duração desta lista (entre 1h e 1h30), além de ser também o jogo lançado mais recentemente (se levarmos em conta que a primeira edição de Parks foi criada em 2019). Na nossa última parada chegamos à Terra do Sol Nascente, e o manual do jogo crava exatamente onde (e quando) estamos: Japão, 1761. Nosso objetivo? Ser o clã que mais agrade, através de serviços, a família que controla o Castelo Branco, uma das mais influentes daquela época.

Aqui temos alocação de trabalhadores "em dobro". Em seu turno, primeiro os jogadores alocam algum dado, que estão disponíveis para todos em cima de algumas pontes em miniatura, e que são montadas sob o tabuleiro. Colocamos este dado em algum espaço do tabuleiro, para realizar alguma ação, e boa parte delas vai acabar liberando algum de seus meeples (trabalhadores), que por sua vez também são colocados no tabuleiro para realizar ações.

Durante a partida, cada jogador irá jogar apenas 9 vezes. Sim, só isso! E nesse sentido, The White Castle é simples para se jogar. Porém, para vencer neste jogo (e fazer muitos pontos), o segredo é conseguir fazer, em seu turno, um combo de várias ações em seguida. E aí está fascinante segredo (e dificuldade) de dominar esta pequena obra prima.

The White Castle tem uma produção belíssima, com centenas de componentes, e um visual oriental bem colorido e característico. Lançado pela editora Devir, talvez por ser o jogo de menor caixa desta lista, é também o mais barato para se comprar novo, cerca de  R$ 250,00. Mas um alerta: não pense que por ter caixa menor, ele entrega pouca coisa... vêm tanto conteúdo dentro dela que uma vez aberta e os componentes destacados das folhas originais, provavelmente você não vai conseguir fazer caber tudo na caixa novamente. E estou falando sério!

 


+ Jogo Bônus: Blacksmith Brothers (2016; 2 a 4 jogadores)

Encerrando meu texto, resolvi fugir do tema e trazer um jogo extra. Trata-se de um alocação de trabalhadores sem "local de viagem" definido, pois ele é sobre fantasia medieval. Quis adicionar este jogo no meu artigo pois além de também gostar bastante dele, trata-se de uma produção 100% nacional. Desta forma temos um game brazuca na lista!

Aqui cada jogador possui apenas dois trabalhadores... dois ferreiros, e gêmeos (!), e o objetivo é construir o maior número possível de objetos para o reino. Então, em seu turno, os jogadores alocam os irmãos em lugares como a forja, o mercado, as minas, etc; em suma você precisa fazer em ordem, todo o processo da produção de uma peça metálica... da sua extração, transportes, até a etapa final, que é vendê-la já pronta no castelo do Rei, e com isso ganhar pontos de vitória. O jogo tem dois diferenciais: primeiro, sua pontuação, que depende da ordem de chegada na tabela que se encontra no canto inferior esquerdo do tabuleiro. Isto requer estratégia do jogador, pois como a pontuação varia de acordo com as entregas coletivas, você precisa escolher o momento certo de vender uma peça mais ou menos valiosa para receber menos ou mais pontos. A outra diferença são suas "pedrinhas" representando os metais, que são muito bonitas e bacanas, e minerá-las no seu mini-tabuleiro individual acaba se tornando um "mini-jogo" dentro do próprio jogo.

 
 
Porém, por se tratar de um game nacional feito há uma década atrás, quando "tudo era mato" e o design nacional ainda estava engatinhando, Blacksmith Brothers tem alguns problemas. Os componentes são bons e resistentes, mas não possuem o mesmo acabamento dos jogos que são lançados hoje, em 2026. Além disso, a iconografia do jogo é ruim, e fica difícil saber olhando no tabuleiro o que é cada local, e que bônus cada um dá quando alocado.

De qualquer forma, Blacksmith Brothers é realmente bem gostoso de jogar. Foi lançado pela Ludofy Creative e você ainda consegue comprar cópias usadas dele por cerca de R$ 200,00.

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