Já vou começar avisando que o filme Coyote vs. Acme é muito bom. Porém, toda a história por trás dele, até sua chegada aos cinemas é igualmente boa. Por incrível que pareça, esta idéia do personagem Willy Coiote processar a gigantesca empresa ACME por seus produtos que sempre falham não é algo novo, e surgiu pela primeira vez em 1990, quando o escritor Ian Frazier publicou um bem-humorado artigo na The New Yorker - uma conceituada revista semanal estadunidense - simulando como seria uma petição "real" do Coiote contra a ACME na justiça.
Algumas pessoas tentaram, sem sucesso nos anos 90 e 2000, convencer a Warner a fazer um filme com esta premissa. Quem finalmente conseguiu um "ok" do estúdio foi James Gunn - sim, aquele que hoje é o "chefão" dos filmes da DC Comics - em 2015. Depois de um lento processo de desenvolvimento e vários roteiros, Coyote vs. Acme começou a ser filmado em 2022, e anunciado para estrear nos cinemas no meio de 2023. Posteriormente, a data que estava reservada para o filme seria trocada para lançar Barbie, e o filme teve seu lançamento adiado para "2025 ou 2026"...
Mas o grande golpe veio em Novembro de 2023, quando a Warner veio a público informar que, embora Coyote vs. Acme estivesse finalizado, eles preferiram não lançá-lo, optando por declará-lo contabilmente como "prejuízo", e assim poupar cerca de US$ 30 milhões em impostos. Porém o cancelamento gerou bastante revolta e comoção dos fãs na internet, o que fez a Warner aceitar a vender os direitos de distribuição do filme para interessados, e a venda aconteceu quando a pequena distribuidora Ketchup Entertainment comprou os direitos por quase US$ 50 milhões.
Coyote vs. Acme é um filme que se passa em um mundo em que humanos e personagens de animação coexistem normalmente. Apesar de isto já estar visível no trailer, só "caiu a ficha" para mim quando o filme começou, e imediatamente me lembrou do ótimo Uma Cilada para Roger Rabbit, de 1988. Porém se este último é um filme bem mais "adulto" (com direito a gangsters, mortes e "bebê fumando cigarro"), Coyote vs. Acme é pra todas as idades, com indicação a partir dos 6 anos.
Na trama, como já dito anteriormente, cansado de se machucar e explodir com os aparelhos da ACME em suas infinitas tentativas de capturar o Papa-Léguas, Willy Coiote resolve contratar um advogado, o especialista Kevin Avery (Will Forte) para processar esta gigante companhia. Defendendo a grande corporação há o bem sucedido advogado Buddy Crane (John Cena), que ao mesmo tempo esconde um obscuro segredo desta companhia...
Tecnicamente falando, Coyote vs. Acme é suficientemente bom. A mistura de atores e cenários reais com desenhos está longe de impressionar, mas está bem feita na maioria das cenas. Em termos de som e trilha sonora, não temos nada "épico", e sim os recursos padrão usados em desenhos da TV dos Looney Tunes. O que o filme realmente se destaca é seu roteiro, e é dele que vamos falar a partir de agora.
Apesar de termos aqui um filme "de advogados e tribunal", e não termos um número tão grande de piadas em Coyote vs. Acme, ainda assim o roteiro consegue a façanha de ser bem engraçado, e fazer rir em vários momentos; e também - imagino eu - de não ser desinteressante para crianças: as constantes loucuras dos personagens animados compensam a falta de ação dos humanos.
Durante as investigações para o caso contra a ACME, Kevin e sua assistente Paige (Lana Condor) começam a encontrar referências a um tal de "Projeto Sísifo". Mas quem é Sísifo? Como o próprio filme explica, trata-se de um personagem da mitologia grega que foi punido pelos deuses para rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha; o problema é que sempre que ele está perto de alcançar o topo, uma força invisível derrubava a pedra montanha abaixo, de volta ao ponto de partida, fazendo com que Sísifo tivesse que repetir o processo infinitamente.
Não querendo dar "tantos" spoilers assim, mas o que este singelo filme "infantil" de nome Coyote vs. Acme faz é jogar na nossa cara que todos somos Sísifo: o Coyote que nunca alcança o Papa-Léguas, o Frajola que nunca pega o Piu-Piu, o advogado Kevin que nunca consegue derrotar a ACME, ou nós mesmos, o público, que diariamente somos esmagados pela rotina do dia a dia. Ah, e somos Sísifo até para rir: lembram que disse anteriormente que o filme me fez rir bastante? Pois é: Coyote vs. Acme é divertidíssimo, risadas garantidas para todas as idades, e a maior parte das piadas são físicas... as mesmas trapalhadas de sempre que os personagens que já conhecemos fazem desde décadas atrás. E continuam engraçadas!
E calma que o filme tem mais camadas: uma de suas "piadas" é que como os personagens de desenho não morrem, podem ser "explodidos" e pouco depois estão de volta "inteiros", então você poderia fazer qualquer coisa com eles... Oras, foi exatamente isso que a Warner (e seu representante máximo, o CEO David Zaslav) fizeram com seu filme de desenhos na vida real! É assustadoramente triste como a vida imita a arte...
Mesmo com todos os elogios e qualidades descritas até agora, Coyote vs. Acme não leva minha nota máxima pois ele também possui algumas falhas: algumas explicações inverossímeis ou ingênuas demais (o filme também é para crianças), inclusão de personagens desnecessários à trama (sim, estou falando do sr. figurão Pernalonga), mas principalmente, a opção por um desfecho não tão corajoso, que acaba sendo um pouco contraditório (mas não tanto) com a tal mensagem do filme que enalteci até agora.
Ainda assim, fica para o público escolher qual dos elogios será o seu primeiro a citar, quando for referenciar Coyote vs. Acme: "a melhor mistura de live-action e animação desde Roger Rabbit", "o melhor filme Looney Tunes já feito" ou "um filme que confunde ficção e realidade em tantas camadas que te faz repensar a vida e sociedade". Nota (de 1 a 6):
PS.: quando eu disse algumas vezes na minha crítica que o filme é para "todos os públicos", faço uma ressalva. Coyote vs. Acme não perde tempo explicando quem são os seus personagens, então para nós adultos que passamos a infância assistindo Pernalonga, Coiote, Patolino e etc, está tudo bem; mas provavelmente uma criança de hoje vá perder um pouco da graça do filme se não conhecer estes desenhos. Portanto, pais, deem um "banho de loja" de animações da Looney Tunes em seus filhos antes de levá-los aos cinemas!


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