
As gerações mais novas não sabem, mas se hoje o público de animes no Brasil é gigantesco, a "explosão" de fãs começou nos anos 90, e ela veio de duas fontes. A primeira foi a TV aberta, onde uma grande quantidade da população infantil e adolescente assistia através da TV Manchete (e posteriormente via SBT, Record e Globo, respectivamente nesta ordem) clássicos japoneses como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z, Sailor Moon, Yu Yu Hakusho e Pokemón.
Já a segunda fonte para surgimento de fãs veio da TV paga, onde tínhamos uma opção bem mais "curiosa" e bem menos
mainstream: o canal
Locomotion.
A Locomotion nasceu em 1996 em Miami, para ser um canal especializado em animações para o público da América Latina. E ela se transformou rapidamente com o passar dos anos. No começo, passava desenhos infantis mais clássicos, como O Gato Félix, Popeye e As Aventuras de Tintim; porém com menos de um ano de canal, sua grade já tinha se modificado para dar foco em animações mais "adultas", boa parte delas também exibidas na MTV, como por exemplo South Park, The Head e Æon Flux.
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| Duckman e The Critic |
Com o passar do tempo, a Locomotion passou a trazer para o canal
um número maior de produções para público mais adulto, porém agora séries cada vez mais
cult e "diferentonas", como por exemplo
Duckman: Detetive Particular,
The Critic e Ren & Stimpy. O passo seguinte foi transmitir animes: no começo os mais famosos, como
Ghost in the Shell,
Neon Genesis Evangelion e
Saber Marionette J.
Foi nesta época de transição que a Locomotion chegou ao Brasil, em 1998/1999. Seja via grade da DirecTV (via satélite) ou TVA (via cabo). Porém a história da Locomotion não parou por aí. Até o final de sua vida, em 2005, ela foi se especializando cada vez mais em animes, trazendo títulos cada vez mais obscuros, e não abandonando a linha de programação mais "adulta".
Para fechar este artigo, ao invés de dar detalhes de animes bem mais famosos e que fizeram grande sucesso na
Locomotion, como por exemplo os já citados
Neon Genesis Evangelion e
Saber Marionette J, além de
Cowboy Bebop,
Serial Experiments Lain e
Trigun, escolhi três dos títulos mais "malucos" e hoje bem pouco conhecidos do público geral para relembrá-los. Vamos à eles:
Alexander (1999; 1 temporada; 13 episódios)
O anime lançado no Brasil apenas como
Alexander, fora daqui também pode ser conhecido como
Alexander Senki (seu nome original Japonês), ou
Reign: The Conqueror, que é como ele foi lançado nos EUA. Trata-se da adaptação da trilogia de livros Emperor's Fantasy - Alexander's War Chronicles, lançadas entre 1996-97, escrita pelo
polímata japonês Hiroshi Aramata.
Os livros contam a história de
Alexandre, o Grande, ex-Rei da Macedônia e famoso grande conquistador dos tempos antigos. A ponto bastante curioso aqui é que o autor mistura fatos históricos reais de toda a vida de Alexandre com elementos de ocultismo, mitologia oriental, filosofia grega e fantasia apocalíptica. É como se o histórico protagonista fosse quase sobrenatural, e ao mesmo tempo "vítima" de um grandioso e inevitável destino de conquistas e tragédia final. Alexandre teria nascido para conquistar e destruir todo o Mundo Antigo, para desta forma - e somente desta maneira isto seria possível - dar o nascimento a uma nova era para a Humanidade, tornando-o também algo inevitavelmente maior e mais terrível que um humano, um ser superior e uma lenda imortal.
Com uma única temporada de 13 episódios, o anime de
Alexander é consideravelmente fiel à obra de Hiroshi Aramata. Mas como se as "loucuras" do escritor original não fossem o suficiente, o desenho adiciona mais bizarrices, o que o torna uma obra única. Até seu visual é muito diferente: ao invés do grego clássico, o anime segue o design da série futurista
Æon Flux. O grego é fundido com elementos
cyberpunk, máquinas e prédios gigantescos, tudo é grandioso e futurista. E nada disso pertence aos livros originais.
Com um conteúdo mais adulto, Alexander conta com algumas cenas de nudez, e aliás, por motivos que me fogem a compreensão, tanto Alexandre quanto seus principais generais vestiam o tempo todo uma pesada armadura da cintura para cima, porém na parte debaixo usavam apenas uma "tanguinha". A trama conta toda a vida de Alexandre o Grande, do início de sua
vida militar até a morte.
Como exemplos de misticismos e fantasias: a mãe Olímpia é retratada como uma feiticeira má, e com poderes mágicos reais; Alexandre busca pelo Platoedro,
um objeto mágico que supostamente conteria todo o conhecimento do
mundo; os discípulos da seita / culto de Pitágoras (já falecido há 200
anos), que constantemente enviam assassinos para matá-lo, pois temem que
Alexandre destrua o mundo; seu cavalo Bucéfalo é um animal gigantesco
que, antes de ser domado por Alexandre, literalmente matava e devorava
homens pela floresta.
O melhor mesmo é ver os fatos históricos misturados no meio de tudo isso, e são vários. Alguns momentos marcantes vêm de passagens famosas, como o encontro de Alexandre com Diógenes, o Cínico (um personagem bastante fascinante), o modo com que ele resolveu o problema do Nó de Górdio, e a fundação da primeira Alexandria, no Egito.
No final das contas, uma das maiores diferenças entre os livros e o anime, é que na obra literária há uma constante disputa entre Alexandre (instinto/impulso) contra seu mestre Aristóteles (razão), que até está presente no desenho, mas de forma bem mais indireta. Mas o mais legal de Alexander é que ele mistura tanta coisa, real com ficção, ciência com misticismo, ocidental com oriental, que dado seu curto número de episódios, é uma experiência acessível e ímpar para quem curte História e animes.
Eat-Man (1997-1998; 2 temporadas; 24 episódios)
Eat-Man é a adaptação do mangá de mesmo nome criado por Akihito Yoshitomi e que foi publicado entre 1996 a 2003. A história é sobre o mercenário Bolt Crank, um homem que não conhece muito o próprio passado, e tem o estranho poder de comer literalmente qualquer coisa para depois materializar, através de suas mãos, qualquer objeto que tenha comido.
Isso faz com que ele mastigue e coma armas e máquinas com certa facilidade, como se fossem alimentos "comuns", e depois as recrie de forma instantânea, inteiras e funcionais quando desejado. Uma de suas "manias" é ficar mastigando parafusos como "petiscos". Embora não há muito detalhes do mundo onde Eat-Man está situado, e nem mesmo a época, podemos afirmar que estamos em um futuro razoavelmente próximo, pois por exemplo embora ainda existam carros e veículos "normais", principalmente as corporações já usam carros voadores, além do transporte via naves estar bastante banalizado.
Com histórias interessantes e com um clima noir bem executado, ainda assim nos 12 episódios da primeira temporada, elas começam geralmente sem contexto nenhum, com várias coisas da trama simplesmente "jogadas" ou deixadas sem explicação no final. Este clima de mistério, de "deixar perguntas no ar", deixou os fãs do mangá insatisfeitos, que além disso reclamavam da falta de fidelidade com o material original.
Portanto, para a segunda temporada, o anime foi até rebatizado. Chamado de Eat-Man '98, os 12 episódios da temporada seguinte foram bem mais focados na ação, com bem menos clima de mistério, não deixando quase nada sem resposta, e principalmente, reproduzindo as mesmas histórias do mangá.
Independente da temporada, que de fato possuem tons diferentes, ambas trazem histórias com tramas de qualidade, ainda que também tragam bastante violência. Ah, e apesar de "mercenário", não necessariamente Bolt Crank é contratado para matar pessoas; na verdade, ele é um "faz-tudo", e em boa parte dos episódios sua missão não é ser um matador, e sim fazer algo completamente diferente, como por exemplo proteger uma pessoa ou recuperar um objeto.
Those Who Hunt Elves (1996-1997; 2 temporadas; 24 episódios)
Animação do mangá do mesmo nome (Elf wo Karu Monotachi
no original), escrito e desenhado por Yu Yagami. Sua premissa já era
bastante polêmica nos anos 90 (imaginem hoje), o que lhe fez ser banido de alguns
países, como por exemplo a China. Na trama, três jovens japoneses do
nosso mundo - o lutador Junpei, a famosa atriz Airi,
e a colegial fanática por armas Ritsuko - são acidentalmente invocados
para dentro de um universo de fantasia medieval. Para voltar para casa,
só há um jeito: declamar o mesmo feitiço que os trouxe, para tirá-los de lá. O problema é
que devido a outro acidente, o texto do feitiço foi dividido em 5
partes e está impresso, como se fosse tatuagem, no corpo de 5 elfas desconhecidas. É
então que o trio, junto com Celcia - a maior das magas elfas - saem
percorrendo este mundo procurando pelos fragmentos do encanto para
reuni-los, nem que isto signifique sair "despindo" qualquer elfa que
eles veem no caminho (e contra a vontade delas). Daí o nome do mangá/anime:
o quarteto é referenciado naquele mundo por "Aqueles que caçam elfas".
Apesar do seu tema, há alguns atenuantes: em nenhum momento há de fato nudez, apenas
insinuações; assim como não há cenas de violência... Apesar de sua sinopse, dentre os três animes que apresento neste artigo, este é surpreendentemente o menos "público adulto", que menos teria restrição de idade. Afinal, trata-se principalmente de uma comédia, e em segundo lugar de aventura. Ah,
e de quebra há algumas passagens bem interessantes de amizade e
heroísmo. É por tudo isso que Those Who Hunt Elves acaba sendo aceitável apesar do seu assunto.
E Those Who Hunt Elves não é famoso apenas pelo tom de bastante comédia, mas de comédia nonsense:
como exemplos, a poderosa elfa Celcia (cujo nome inteiro é Celcia Marie
Claire) passa a maior parte do anime transformada ou em um cachorro ou
em um panda, o que rende piadas de Junpei
o tempo todo; o quarteto na verdade também é acompanhado por um tanque
de guerra, que está possuído pela alma de um gato(!), Mihke. Com isso o
tanque os acompanha e segue as ordens do grupo sem a necessidade de
nenhum combustível (e as vezes sai correndo sem controle atrás de algum
pequeno animal para caçá-lo).
Na primeira temporada, Those Who Hunt Elves até se leva um pouco a sério e seus protagonistas tem dificuldades reais para encontrar os fragmentos do feitiço; porém na segunda temporada o anime muda bastante seu o tom, ficando ainda mais cômico e nonsense.
Embora eles continuem atrás do feitiço, já não há mais muito senso de
urgência ou perigo; e os próprios atos de "despir" elfas são bem mais
raros.
Há
uma explicação para esta mudança: Yu Yagami começou a escrever o mangá
em 1994, mas só o terminou em... 2003! Portanto, durante o anime, em
termos de mangá a história mal estava em sua metade. Como resultado, no
mangá o grupo reúne os 5 fragmentos apenas uma vez e voltam para casa,
terminando a história.
Já no anime, o quarteto reúne os 5 fragmentos ao
final da primeira temporada, e então Celcia invoca o feitiço... mas tudo dá
errado e ele se quebra em milhares de pedaços... com a busca tendo que recomeçar novamente. Aliás, muito pior: ao final da
segunda temporada ainda faltam 1013 pedaços para serem resgatados... e o desenho "acaba" por aí, já que o anime foi descontinuado e nunca teve mais temporadas. Mesmo ficando "em aberto", Those Who Hunt Elves é uma obra bem engraçada, com personagens cativantes, boas histórias de fantasia medieval, e muito menos ofensivo que
seu nome ou enredo podem inferir.
E vocês, ó meu público: chegaram a assistir algo da Locomotion? Se sim, escrevam suas lembranças nos comentários!
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