E finalmente chegou aos cinemas brasileiros O Agente Secreto, nosso filme indicado para o Oscar 2026, e já vencedor de dois prêmios em Cannes 2025: o de Melhor Ator (Wagner Moura) e o de Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho).
Na história, que se passa em 1977, somos apresentados a Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que está retornando à sua cidade natal Recife após muitos anos, e aparentemente fugindo de algo. Porém este seu afastamento não foi suficiente, e ainda há pessoas querendo vê-lo morto...
Já adianto que o mais impressionante e elogiável de O Agente Secreto é seu roteiro, que consegue apresentar, de forma coerente e bem familiar para nós brasileiros, temas como corrupção na política, na polícia e dos empresários, pobreza, racismo, preconceito contra o nordeste, perseguição da ditadura militar, violência policial, complexo de vira-lata, memória, manipulação da verdade e folclore (ufa!) dentre outros temas. É muita coisa agrupada, e de forma magistral!
E a qualidade do roteiro não fica apenas em seus temas, mas também no que desperta no espectador, com direito a vários momentos bizarros e inesperados, e algumas grandes quebras de expectativas do público. O ápice destas "reviravoltas" acontecem na sequência de ação final do filme, cenas estas que talvez somente nós brasileiros conseguiríamos inventar.
Em termos técnicos, O Agente Secreto tenta reproduzir os anos 70, tanto em termos de fotografia (com cores mais "desgastadas") como na música e design de produção. A trilha sonora é muito boa, nacional, e na maioria das cenas combina muito bem com a ação da tela. Objetos e figurino não me impressionaram tanto... menos os carros, que são destaque: não pouparam esforços para colocarem Fuscas "de colecionador" no filme rs.
O Agente Secreto é facilmente o melhor filme de Kleber Mendonça Filho que assisti até hoje (os outros foram O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023)) e também, digamos, o menos "diferentão", sendo o mais fácil para ser aceito pelo público em geral. Mas apesar de ser um filme excelente, assim como todos os outros filmes de Kleber que acabo de citar O Agente Secreto também possui algumas imperfeições bem claras, que impedem de dar uma nota maior para esta produção.
Algo que me incomodou foram as constantes inserções de rápidas cenas de figurantes fazendo sexo, o tempo todo no filme, para efeito cômico. Precisava? Só para reforçar para os gringos o "clichê" de que aqui no Brasil tudo é uma "putaria"? Também são constantes as citações à filmes estadunidenses. Até imagino que isso tem um propósito claro de agradar a Academia. Mas é sério que precisava disso também? No atual momento político mundial?
Outro problema bem relevante é mais técnico: ao optar por colocar alguns personagens dos "dias de hoje" para interromper a narrativa, O Agente Secreto sofre com várias quebras de ritmo. Em algumas vezes até fazem sentido - para fazer o público respirar - mas na maior parte das incursões atrapalha, e acabam tirando o espectador de dentro do filme, além de que, a interrupção final é tão abrupta e acelerada que pode confundir (presenciei algumas pessoas da minha sessão que não entenderem o final da história).
E finalmente, a meu ver Kleber Mendonça Filho também costuma "divagar" em seus filmes e colocar cenas desnecessárias; O Agente Secreto é seu trabalho em que isso menos acontece, mas o problema está lá novamente. Também não há a necessidade, por exemplo, de tantos personagens, de vários diálogos, e consequentemente, de um filme com 2h e 40min de duração. A longa duração somada às quebras de ritmo "estranhas" tornam O Agente Secreto cansativo em alguns momentos.
Com muitas qualidades e alguns defeitos, O Agente Secreto funciona como uma genial cápsula do tempo, mostrando de maneira bem inusitada mas muito real os múltiplos problemas da sociedade brasileira nos anos 70 e se credencia para a inclusão para a lista de melhores filmes nacionais dos últimos tempos. Nota: 8,0.
Atualização: o ator alemão Udo Kier, presente tanto neste O Agente Secreto como também em Bacurau, faleceu neste 23 de novembro de 2025, aos 81 anos. As causas da morte não foram reveladas.

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