sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Os indicados ao Oscar 2015


Nesta última quinta-feira, vulgo "ontem", foram divulgados os indicados para o Oscar 2015, cuja cerimônia acontecerá no dia 22 de fevereiro. Poucos dos nomes lembrados deram as caras nos cinemas brasileiros. Como já é tradição do Cinema Vírgula, irei apresentar os principais indicados, tecer alguns comentários e trazer algumas curiosidades.

Desta vez temos 8 indicados ao Oscar de Melhor Filme. É o menor número desde 2009, quando a Academia criou sua nova regra de "indicar até 10 filmes, desde que estes alcancem pelo menos 5% das votações". São eles*:
* = em parênteses o número total de categorias indicadas para cada filme

Boyhood, Birdman e Whiplash estavam entre os favoritos, portanto, foi uma grande surpresa ver O Grande Hotel Budapeste aparecer (ainda que empatado) como filme com maior número de indicações.

Outra surpresa foram as ausências de Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (5 indicações) e Garota Exemplar (apenas uma).

Desde a implantação da nova regra de 2009 expandindo o número de indicados a Melhor Filme, Foxcatcher é o primeiro a receber indicação de Melhor Diretor e não estar na principal lista de indicados. Dito isto, não acho muito "justo" ver que Selma entrou na disputa de melhor filme com apenas 2 indicações. Porém isto não é algo tão incomum: a mesma coisa aconteceu com Tão Perto e Tão Forte em 2002, também com 2 indicações. Ah, também não estou falando que Selma é pior que Foxcatcher, afinal, não assisti nenhum deles aindaSelma, inclusive, provavelmente é outro injustiçado: o filme teve problemas de distribuição entre os votantes e muitos acabaram não o assistindo a tempo.

E lamento bastante que Garota Exemplar tenha tido apenas uma indicação (a de melhor atriz para Rosamund Pike, que como disse aqui, é merecidíssmo!). Era dado como certo que a produção também seria indicada no mínimo também para Melhor Filme e Roteiro Adaptado. Não foi.


As ausências
Além das ausências citadas no bloco acima, houve outras que chamaram a atenção. As não-presenças de Jennifer Aniston (por Cake) e Jake Gyllenhaal (por O Abutre) como indicados ao prêmio de Melhor Atriz/Ator gerou comoção. Mas a maior surpresa foi a não indicação de Melhor Atriz para Amy Adams, que venceu o Globo de Ouro pelo papel em Grandes Olhos.

Entre os filmes, a não inclusão de Uma Aventura Lego entre os indicados a Melhor Animação também causou estranheza. Eu particularmente torci o nariz ao ver o fraco Como Treinar o Seu Dragão 2 entre os indicados. Mas ele já venceu o Globo de Ouro, para minha decepção.

Interessante constatar que os épicos Noé e Êxodo: Deuses e Reis não levaram nenhuma indicação. E por falar em Blockbusters, Capitão América: O Soldado Invernal, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido levaram uma indicação cada. Guardiões da Galáxia levou duas. Já o fraco O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos também só levou uma indicação, de Melhor Edição de Som. Todas as indicações citadas neste parágrafo foram indicações técnicas, de menor importância.


Participação brasileira
Se não conseguimos entrar nos indicados de Melhor Filme Estrangeiro com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, nem entre os indicados a Melhor Canção Original com Rio 2, ou ainda, sem a indicação de O Caminhão do Meu Pai como Melhor Curta-Metragem, foi uma agradável surpresa ver que o Brasil estará presente concorrendo ao prêmio de Melhor Documentário com O Sal da Terra, que narra a trajetória do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. O filme, que na verdade é uma produção franco-brasileira, é dirigido pelo consagrado diretor alemão Win Wenders e pelo brasileiro Juliano Salgado, filho de Sebastião.


Curiosidades
  • Bradley Cooper continua sendo o queridinho da Academia e recebeu a terceira indicação consecutiva como ator. Como o considero apenas razoável, não gostei.
  • Há nada menos que nove atores concorrendo ao prêmio pela primeira vez: Steve Carell, Benedict Cumberbatch, Michael Keaton, Eddie Redmayne, Felicity Jones, Rosamund Pike, JK Simmons, Patricia Arquette e Emma Stone. Já Maryl Streep está presente mais uma vez - sua 19ª indicação - e continua ampliando seu recorde ano após ano.
  • A Marvel poderá enfim levar seu primeiro Oscar para casa. Somando quatro três indicações, Capitão América: O Soldado Invernal (1), Guardiões da Galáxia (2) e Operação Big Hero (1), suas chances são maiores do que nunca.
  • O filme polonês Ida era dado como certo para estar entre os Melhores Filmes Estrangeiros. E foi indicado. Mas a grande surpresa é que ele também foi indicado para Melhor Fotografia. Desde 1967 é apenas a 11ª vez que um filme preto-e-branco leva uma indicação destas (embora o mesmo tenha acontecido ano passado, com Nebraska)
  • Interestelar foi o não indicado ao Oscar de Melhor Filme com maior número de indicações: cinco. Todas técnicas, nenhuma das principais.

E vocês? O que acharam dos indicados? Opinem!



Atualizado em 29/01: apesar de apresentar personagens da Marvel, Operação Big Hero é uma produção da Disney. Portanto, nada de Oscar pra Marvel se esta animação levar o prêmio

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Crítica - Êxodo: Deuses e Reis (2014)

TítuloÊxodo: Deuses e Reis ("Exodus: Gods and Kings"Espanha / EUA / Reino Unido, 2014)
Diretor: Ridley Scott
Atores principais: Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Ben Kingsley

Visualmente maravilhoso, bom na ação, porém falho no restante

Embora seja um filme de 2014, somente agora assisti Êxodo: Deuses e Reis. O segundo grande épico bíblico hollywoodiano do ano (o outro foi Noé). Com um visual quase inacreditável de tão belo, o diretor Ridley Scott erra em quase todo o resto.

Êxodo: Deuses e Reis é mais uma interpretação da história bíblica de Moisés, porém aqui há um grande enfoque em apenas um pedaço da vida do patriarca: a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito.

A história começa com Moisés (Christian Bale) ainda príncipe do Egito, desconhecedor de suas origens. Sua primeira participação em cena já é um alerta do tom do filme que veremos a seguir: Moisés tira sarro das crenças egípcias, mostrando um caráter ateu, antipático e arrogante que permanece por quase todo o filme. Mais ainda, ele é visualmente um estranho no ninho: se veste diferente, e é o único egípcio do planeta com barba. Se ele foi criado a vida toda dentro da corte real, não há nenhuma justificativa para ele se portar e vestir de maneira diferente dos demais. Este é o primeiro dos muitos erros de Êxodo: Deuses e Reis.

Antes das críticas, vamos aos elogios: o filme é visualmente maravilhoso: cenários soberbos, efeitos especiais perfeitos, belíssima fotografia, figurino, direção de arte. Tudo que encanta os olhos é irretocável. Vale a pena ressaltar que sim, há bastante efeito especial (mais de mil), porém muito do que vemos também é real. A produção não economizou nos cenários, e grandes partes dos palácios foram montados fisicamente. Também é importante avisar que o filme foi filmado em 3D... e muito bem filmado! Repleto de tomadas de plano longo, a sensação de profundidade é bem grande, e portanto, fica a recomendação de assistir Êxodo sob este formato.

Outro ponto positivo são as cenas de ação. Elas não são lá muito impressionantes, mas são suficientemente realistas e bem filmadas. Ridley Scott ainda sabe prender a atenção do espectador através da ação. Entretanto, em termos emoção, Êxodo: Deuses e Reis falha miseravelmente. O único momento do filme que me trouxe alguma emoção foi nos créditos finais, quando Ridley escreve uma dedicatória ao irmão e também diretor Tony Scott, falecido em 2012.

Parte da "culpa" deste vazio emocional vem dos atores: o filme tem várias atuações ruins. Os veteranos John Turturro e Ben Kingsley são os que se salvam. Christian Bale até atua bem... mas ele não interpreta exatamente um Moisés... interpreta seu papel de sempre: um personagem "durão", "mal humorado", e especialmente neste filme, sem carisma nenhum.

Há de se criticar a "mão pesada" do diretor. Sutileza não é com ele mesmo. Por exemplo, para nos "convencer" que o Faraó ama seu filho, ele diz em voz alta duas vezes: "você dorme bem porque eu te amo"... Como se o ato de falar em voz alta convencesse alguma coisa... Pois em atos, o Faraó não parece se importar com nada nem ninguém, o que inclui seu filho. Outro exemplo de "mão pesada" é a trilha sonora, que não dá trégua um instante: toda cena precisa ser "épica", e com isto, haja música instrumental no último volume.

Finalmente, o roteiro, que consegue trazer uma história dinâmica, rápida (os anos e acontecimentos passam correndo), e prendem a atenção: mesmo no ritmo ele não está isento de alguns pequenos pecados, como a interrupção de personagens inúteis, como a mãe do Faraó, interpretada pela Sigourney Weaver.

Fora isto, em sua essência, o roteiro é bem contraditório. Assim como em Noé, é trazida uma abordagem "realista", questionando em todo momento se Deus esteve mesmo lá presente, ou se - no caso - nada mais era do que um delírio - respectivamente de Moisés e Noé. Por exemplo, Moisés só passa a ver Deus após levar uma forte pancada na cabeça; as pragas do Egito são todas explicadas "cientificamente" como sendo uma consequência natural da outra, e assim vai... Porém, apesar deste enorme esforço "realista", há momentos em que não há dúvidas: Deus existe, está fazendo coisas "milagrosas", como por exemplo, a morte dos primogênitos, ou fazer a noite sumir instantaneamente, transformando o céu em um dia.

Ainda sobre roteiro ruim, o que dizer sobre Moisés, que quando vai até o Faraó avisar para libertar seu povo, caso contrário todos os primogênitos morrerão, simplesmente fala: "ó, vai dar me*** grande aí, proteja seu filho". Custava explicar o que ia acontecer? O Faraó claramente não entendeu o que Moisés disse. Que sentido tem este diálogo então?

Ah, e quanto as muitas inconsistências temporais e históricas do filme, nem vou entrar em detalhes. Mas digo, com certa surpresa, que Êxodo: Deuses e Reis é bem mais fiel a Bíblia do que foi Noé.

Repleto de falhas, Êxodo: Deuses e Reis ainda assim possui dois atrativos: o visual deslumbrante e, porque não, uma história-base (a vida de Moisés) interessante. São dois argumentos suficientes para conferir o filme nos cinemas. Nota: 6,0

sábado, 3 de janeiro de 2015

Retrospectiva Cinema Vírgula de 2014

Feliz 2015 a todos vocês, leitores! Mas antes de encararmos o ano novo, que tal uma reflexão sobre o que de melhor e pior aconteceu neste 2014?

Cinema
Em termos de qualidade, 2014 foi outro ano em que o Cinema não brilhou muito. Poucos foram os títulos que vi e que realmente me empolgaram. Ainda assim, o número de boas opções foi grande, deu para me divertir ao longo do ano.

Em termos comerciais o resultado também não foi para se comemorar: em número de bilhetes vendidos nos EUA, tivemos o menor número desde 1995, e uma queda de 80 milhões de ingressos em relação ao ano passado.

Em termos de arrecadação (também apenas dentro dos EUA) a queda foi menos significativa, mesmo assim, cerca de 4% a menos que o ano passado. A 20th Century Fox, entretanto, não tem o que reclamar. Com crescimento de arrecadação de 66% em relação a 2013, eles foram o estúdio de maior sucesso de bilheteria neste ano, impulsionados principalmente por, em ordem: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, Planeta dos Macacos: O Confronto e Como Treinar o Seu Dragão 2.

Parte desta falta de qualidade é justificado pelos estúdios não se arriscarem a fazer novos títulos, e investirem em continuações e reboots de franquias já conhecidas, cujo retorno financeiro é mais garantido. Este fenômeno será ainda mais evidente em 2015; espero que neste ano pelo menos as continuações sejam melhorem...

Cinema Brasileiro: eles fizeram a parte deles. Nós, não
Para mim 2014 ficará marcado como um ano de bastante qualidade no cinema nacional.

Infelizmente, acabei assistindo apenas um filme brasileiro nos cinemas: O Lobo Atrás da Porta, que por sinal é ótimo! Mas o ano apresentou outros filmes muito elogiados pela crítica, como por exemplo: Entre Nós, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (nosso indicado ao Oscar), e a animação cult O Menino e o Mundo.

Acostumado a produzir filmes de apenas 3 gêneros: comédia romântica, comédia pastelão e policiais vs bandidos, o principal fato a se comemorar em 2014 é justamente o grande crescimento de opções nacionais fora destas categorias. Os quatro filmes citados acima são gratos exemplos disto.

Porém, se a qualidade aumentou, o mesmo não se pode dizer da renda. O público total diminuiu em relação a 2013, mas não muito. O que realmente preocupa é que se em 2013 tivemos 18% do público em filmes nacionais, pra 2014 o número despencou para 12%. O pior é que os filmes nacionais de maior público foram as famigeradas comédias. Até que a Sorte nos Separe 2, O Candidato Honesto e Os Homens São de Marte... E É Pra Lá que Eu Vou! foram os filmes de maior bilheteria.

Se os filmes de qualidade não trazem dinheiro, um dia deixarão de ser feitos. Então, cabe a nós, cinéfilos, reverter isto em 2015. E a "bronca" vale pra mim também (não disse que só assisti um nacional em 2014?).

Como curiosidade, sabem quais foram as 5 maiores arrecadações de 2014 em nosso país? 1 - Malévola (74,5 milhões de Reais), 2 - A Culpa é das Estrelas (69,5 milhões), 3 - Noé (68,5), 4 - X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (64,3) e 5 - Rio 2 (64). Até que a Sorte nos Separe 2 - nacional que mais arrecadou - é apenas o 13o terceiro desta lista, e isto ainda porque na sua conta está incluída também a bilheteria de dezembro de 2013.

Os 5 melhores e os 5 piores
Como já é tradição - e provavelmente a parte mais esperada deste texto, segue minha lista dos 5 melhores e 5 piores filmes de 2014. Lembrando que só entram na conta filmes que foram lançados nos cinemas brasileiro no ano citado.

Os melhores, em ordem alfabética:
  • Ela: belíssimo, o melhor filme do ano. Merecidamente levou o Oscar de Melhor Roteiro Original, e merecia levar mais prêmios pra casa
  • Guardiões da Galáxia: dentre os vários filmes de super-herói, este foi surpreendentemente o melhor, mais engraçado, e mais belo visualmente
  • O Homem Duplicado: é um daqueles filmes complexos que você só entende o que aconteceu depois que o filme acaba. Mas isto não é um defeito, pelo contrário, o filme é excelente
  • O Lobo Atrás da Porta: nacional, e sensacional. Thriller de primeira
  • O Lobo de Wall Street: politicamente incorreto e exagerado. Mas fora isto, divertido ao extremo. Quando Leonardo DiCaprio vai ganhar merecidamente seu primeiro Oscar?
E embora não tenha atingido o Top 5, faço menção honrosa a Boyhood: Da Infância à Juventude, que além de bom, é uma experiencia cinematográfica incrível: filmar os mesmos atores por 12 anos seguidos requer bastante dedicação.

Os piores, em ordem alfabética:
Dos cinco acima, Hobbit é o menos pior. Mas os outros 4 são bem ruins. Transformers 4 é tão ruim, mas tão ruim, que nem quis perder meu tempo publicando uma crítica deste lixo. Como Treinar o Seu Dragão 2 é um filme que também não gostei e, embora seja melhor que Transformers, também me decepcionou bastante a ponto de não escrever sua crítica.

O que vem por aí?
Minha grande expectativa para 2014 era Interestelar, que embora seja um bom filme, ficou abaixo do que eu esperava. Para 2015 há dois títulos que aguardo ansiosamente. Um deles é Star Wars 7. Não adianta, o lado nerd fala forte. E o outro título estréia já em 22 de janeiro, Birdman. Estou muito curioso sobre o filme pois, apesar de ser "mais ou menos sobre super-herói", mesmo assim consegue estar sendo extremamente elogiado pela crítica. Dentre outras coisas, ele levou 7 indicações ao Globo de Ouro. Como a premiação do mesmo acontece em 11 de janeiro, um pouco antes de sua estréia já teremos um termômetro de o quanto o filme é espetacular ou não.


E vocês? Qual foram seus melhores e piores filmes de 2014? E o que vocês esperam para 2015? Opinem!!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Crítica - Amantes Eternos (2013)

TítuloAmantes Eternos ("Only Lovers Left Alive", Alemanha / Chipre/ França / Grécia / Reino Unido, 2013)
Diretor: Jim Jarmusch
Atores principais: Tilda Swinton, Tom Hiddleston, Anton Yelchin, Mia Wasikowska, John Hurt

Vampiros maduros, diferentes, sob uma ótima trilha sonora

Pelo menos para mim, o mitologia popular em torno dos vampiros sofreu um retrocesso nesta última década. Impulsionado pela saga Crepúsculo, os chupadores de sangue passaram a brilhar como cristais sob o sol, e pior, foram bastante humanizados. Sendo mais específico, eles foram "adolescentizados", ao serem retratados com preocupações e dilemas de um humano adolescente.

Por isto tudo, é uma grande satisfação ver em Amantes Eternos um filme que resgata a mistificação em torno dos vampiros. Melhor ainda por se tratar de uma visão diferente, consideravelmente original, de como eles se comportam.

Em Amantes Eternos os vampiros são apresentados como seres sábios, maduros, discretos. Eles só saem a noite e obviamente vivem de sangue, mas não são maus... não saem atacando as pessoas... por exemplo, obtém sangue subornando funcionários de hospitais.

O mais fascinante da abordagem em relação aos vampiros é a maneira em que eles encaram a existência, o passar do tempo. Afinal, são seres com séculos de vida, e por isto, nada mais os surpreendem, e tudo é visto a longo prazo. Eles possuem poderes sobre-humanos, mas não o usam, não precisam, o tempo já os deixou bem estabelecidos. Ao contrário, eles aproveitaram bem a passagem do tempo para se desenvolverem intelectualmente: um é um grande escritor; outro é um grande músico, etc.

Dos vampiros apresentados, ganham maior destaque o casal Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), e também o velho Marlowe (John Hurt). Não sabemos a real idade de nenhum destes, porém, de Adam e Eve sabemos que já tinham no mínimo centenas de anos de vida ainda no Séc XV (seriam eles o "Adão" e "Eva" originais? embora pouco provável, não sabemos). Já de Marlowe, aprendemos que ele foi o poeta e dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1564 - 1593), o que não deixa de render umas poucas boas piadas no filme.

Isolado, recluso, e sem nenhuma vontade de saber o que acontece no mundo fora de sua casa, Adam em determinado momento pergunta para Eve: "os humanos ainda estão guerreando por petróleo, ou já começaram a guerrear por água?". Pois não visão deles, de longo prazo, isto é inevitável. A visão de que tudo é transitório, mais ainda, a visão pessimista de que tudo entra em decadência é mostrada visualmente ao longo do filme: não a toa ele se passa na maioria do tempo na atualmente sucateada Detroit, uma cidade que esteve no seu esplendor décadas passadas, e hoje, falida, perdeu mais da metade de sua população, tendo dezenas de milhares de imóveis abandonados.

O mais importante de Amantes Eternos, portanto, não é sua história (praticamente inexistente), e sim, seus personagens, o universo dos vampiros. E enquanto os assistimos, somos agraciados em paralelo com uma ótima trilha sonora. Trazer boas músicas, aliás, é uma das principais características do diretor Jim Jarmusch. A trilha, que dentro do filme são as músicas compostas por Adam, são um rock instrumental com leves pitadas de blues e acordes árabes. Na vida real, as músicas foram compostas pela banda Sqürl, da qual o diretor faz parte.

Tecnicamente o filme agrada além da parte sonora. Uma fotografia bonita, somada a uma filmagem "não convencional" do diretor, que as vezes opta por planos inclinados, ou filmagens "do teto para o chão".

Bem lento (afinal, pra que a pressa se você é praticamente imortal?), mas trazendo personagens bem interessantes, Amantes Eternos é uma grata surpresa e um sopro de seriedade e novidade no universo dos vampiros. Nota: 8,0

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Crítica - Homens, Mulheres e Filhos (2014)

Título: Homens, Mulheres e Filhos ("Men, Women & Children", EUA, 2014)
Diretor: Jason Reitman
Atores principais: Rosemarie DeWitt, Jennifer Garner, Judy Greer, Dean Norris, Adam Sandler, Ansel Elgort, Kaitlyn Dever

Filme é retrato fiel da "sociedade digital" contemporânea

Baseado em um livro homônimo de 2011 de Chad Kultgen, Homens, Mulheres e Filhos é o novo filme do diretor canadense Jason Reitman. Conhecido, dentre outros trabalhos, por dirigir Juno (2007) e Amor sem Escalas (2009), sua mais recente produção lembra um pouco estes dois títulos, ao trazer relacionamentos adolescentes e também, por manter um tom pessimista sobre o comportamento humano.

Sendo um filme de personagens, a história mistura relacionamentos (sejam de adolescentes ou adultos) com o impacto que a tecnologia atual (Internet, celulares, games online, etc) exerce sobre os mesmos.

Todo o numeroso elenco é composto de personagens bem caricatos, clichês, exagerados: assim temos o "casal adolescente certinho e fora de moda" Tim (Ansel Elgort) e Brandy (Kaitlyn Dever), um casamento em crise, com Don (Adam Sandler) e Helen (Rosemarie Dewitt) cansados da mesmice, uma mãe psicótica e ultra controladora (Jennifer Garner), uma mãe (Judy Greer) que não conseguiu ser atriz e portanto faz tudo para transformar sua filha ultra-mimada-e-periguete Hannah (Olivia Crocicchia) em uma, a menina ingênua anoréxica (Elena Kampouris) que idolatra um bad boy mais velho, um pai amargurado (Dean Norris) que não consegue se comunicar com o filho, e finalmente, um adolescente viciado em filmes pornô tão perturbados que não consegue ter um relacionamento normal (Travis Tope).

E o que acontece com estes personagens... bem, embora no roteiro surjam algumas surpresas, em geral tudo também é bem previsível, clichê. Apesar disto, todas as atuações são excelentes, e os personagens convencem. Ou melhor, minto: dois deles não convencem, e a culpa não é de seus intérpretes, e sim do roteiro: a personagem da Jennifer Garner, e principalmente, a personagem de Judy Greer. É simplesmente impossível acreditar que a personagem dela faria a "besteira" que é revelada no final do filme.

Devido as características acima, Homens, Mulheres e Filhos não agradou a crítica especializada. Porém não segui esta mesma linha. Sim, os personagens são exagerados, mas suas ações, dilemas, medos, são exatamente um retrato do que temos hoje no mundo "digital" atual. Portanto, quando o filme se encerra, ele leva o espectador a refletir bastante sobre tudo o que assistiu. E isto é ótimo! Arte não é isto?

Outro ponto curioso de Homens, Mulheres e Filhos é, intencionalmente ou não, não conseguir colocar a "culpa" dos nossos problemas na tecnologia. Há mais cenas onde a tecnologia é a vilã, porém há outras onde ela é mostrada como neutra, até positiva. Se a premissa do filme era discutir tecnologia, então neste ponto ele é falho, pois sobre isto se tornou inconclusivo.

Ao contrário do que é vendido, Homens, Mulheres e Filhos não é uma mistura de comédia com drama. É só drama. E mesmo que não sejamos muito surpreendidos com as situações destes dramas, o fato de presenciá-los todos - que afetam homens e mulheres e adolescentes - é o que faz toda a diferença. Homens, Mulheres e Filhos acaba sendo uma fotografia, um retrato da geração classe média ocidental atual. E nos faz refletir para mudarmos, melhorarmos. Sendo assim, o resultado final é que temos sim um bom filme. Nota: 7,0

PS: você que assistiu o filme, não reconhece na foto o cabeludo do canto superior esquerdo? Pois é, ele não apareceu na história mesmo. Trata-se do diretor, Jason Reitman.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Crítica - Lunchbox (2013)

Título: Lunchbox ("Dabba", Alemanha / EUA / França / Índia, 2013)
Diretor: Ritesh Batra
Atores principais: Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui

Sutil e sensível, filme indiano discorre sobre relacionamentos e sociedade

Confesso que pouco conheço o cinema indiano. E um eventual "estranhamento" ao assistir Lunchbox não aconteceu já que o filme tem considerável aproximação com o cinema ocidental. Metade do filme é falado em inglês (a outra metade, em hindi); o ator principal, Irrfan Khan, já atuou em diversos filmes de Hollywood, como por exemplo: Quem Quer Ser um Milionário? (2008), As Aventuras de Pi (2012) e O Espetacular Homem-Aranha (2012); e a atriz principal, Nimrat Kaur, embora menos conhecida, participou de toda a 4a temporada do seriado Homeland.

A idéia inicial do diretor e roteirista Ritesh Batra - em seu primeiro longa metragem - era fazer um documentário sobre os dabbawala, entregadores de um famoso sistema indiano de transporte de marmitas. Funciona assim: um trabalhador sai para trabalhar, enquanto neste tempo alguém de sua família faz seu almoço. Então os dabbawala passam em sua residência, pegam a marmita caseira e as levam ao trabalhador em seu local de trabalho.

Mas o conceito original logo mudou, e ao invés de documentar os dabbawala o filme se tornou um romance. Na história, somos apresentados a Saajan (Irrfan Khan), viúvo, um sério e respeitável contador que se encontra a um mês da aposentadoria. Devido a um engano dos dabbawala, ele começa a receber as marmitas que a jovem e infeliz Ila (Nimrat Kaur) prepara para seu marido. Em pouco tempo eles começam a trocar confidências através de bilhetes diários.

Sutileza e sensibilidade são as palavras chave de Lunchbox. Conforme vamos conhecendo a vida dos protagonistas, de maneira bastante sutil o roteiro apresenta uma infinidade de situações e sentimentos: amor, solidão, abandono, competição, velhice, juventude, depressão, amizade, pobreza, modernidade, etc. Pouco se fala sobre estes assuntos... mas pela simples iteração entre os personagens, ou apenas um olhar... isto já basta para entendermos o que eles estão sentindo.

Também de forma sutil, aprendemos um pouco sobre a cultura indiana. Por exemplo, que casamentos ainda possuem dotes, que o transito é mesmo caótico, e que lá - pelo menos para Ila - o país dos sonhos é o Butão, onde "seu verdadeiro PIB é a felicidade".

Com pouca variação de cenário, cenas filmadas a curta distância em ambientes fechados, o custo para fazer Lunchbox foi baixo: apenas 1 milhão de dólares. Isto não diz, de maneira nenhuma, que tecnicamente o filme é ruim; pelo contrário, a fotografia é boa, o som é bom, e a trilha incidental (usada em algumas vezes para fazer piadas) em geral acerta no tom, refletindo principalmente o estado de espírito de Saajan.

Em um determinado momento, após tanto reclamar de ser ignorada pelo marido, Ila recebe de Saajan a proposta para "fugirem juntos". O fato dela considerar esta idéia sem qualquer estranhamento me pareceu inverossímil; é uma das poucas coisas que não gostei em Lunchbox. A outra coisa que não gostei foi o final, abrupto, que deixa a conclusão em aberto. Entretanto, apesar da minha desaprovação, reconheço que o final é condizente com o restante do filme, e portanto, não o prejudica em nada.

Contada de maneira devagar, Lunchbox apresenta uma boa história, repleta de acontecimentos cotidianos. Sucesso de crítica (levou o prêmio de melhor filme do público em Cannes 2013), é uma pena que ele foi praticamente ignorado no Brasil. Chegou por aqui em fevereiro deste ano, em poucas salas, e vejam só, a distribuidora sequer teve o cuidado de traduzir o nome do filme para o Português. Nota: 7,0

domingo, 28 de dezembro de 2014

Crítica - Ninfomaníaca: Parte 1 e Parte 2 (2013)

TítuloNinfomaníaca: Parte 1 / Ninfomaníaca: Parte 2 ("Nymphomaniac: Vol. I" / "Nymphomaniac: Vol. II", Alemanha / Bélgica / Dinamarca / França / Reino Unido, 2013)
Diretor: Lars von Trier
Atores principais: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf

Sendo de Lars von Trier, filme é mais comportado e superficial do que o esperado

Quando Lars von Trier falou sobre Ninfomaníaca pela primeira vez, se gabava de que iria fazer uma espécie de filme pornô pesado, repleto de cenas de sexo de verdade, sem amenizar nada. Talvez ele estivesse apenas brincando, ou talvez sua idéia original fosse esta mesmo. Vindo de quem veio, ambas as possibilidades podem ter sido a verdadeira.

O fato é que com o passar do tempo seu discurso sobre o filme foi ficando mais ameno. Porém, se em suas declarações von Trier dava pistas de um filme mais light, a promoção do filme ia no sentido contrário: por exemplo, cerca de 15 de seus atores posaram nus em cartazes de divulgação.

Dividido em dois filmes, Ninfomaníaca não faz sentido separadamente, é uma única história. Ao término da Parte 1 temos uma abrupta interrupção do que está sendo contado. É exatamente o mesmo caso de Kill Bill Vol. 1 e Vol. 2. A justificativa para a quebra de ambos é que seria inviável lançar nos cinemas um único só filme de 4 horas. Pode ser isto mesmo. Ou também pode ser a vontade de dobrar a arrecadação. Deixo a conclusão para você, leitor.

O resultado final é que os filmes Ninfomaníaca Parte 1 e Parte 2 realmente entregam bastante nudez e cenas de sexo. Bastante mesmo! Porém sendo de Lars von Trier, é feito de uma maneira mais "comportada" que o esperado. As cenas de sexo são filmadas a uma certa distância, muito dificilmente em close. Para os raros closes, a produtora Louise Vesth jura que foram utilizadas próteses, e não os órgãos genitais reais. Por falar em real, o sexo mostrado é real sim, porém realizado com atores pornô: o rosto dos atores hollywoodianos do filme foram acrescentados digitalmente em cima do rosto dos "dublês". Os efeitos especiais são bem feitos, e portanto, não se consegue distinguir o digital do real.

A história começa com a protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg) desacordada, jogada na rua. Suja, surrada, ela é encontrada por Seligman (Stellan Skarsgård), que comovido com a situação deplorável de Joe, resolve acolhe-la em sua casa, para que ela possa se limpar e se tratar. É então que Joe resolve contar sua longa história, de como ela chegou naquele estado.

Sendo uma espécie de Sherazade moderna (a dos contos de As Mil e Uma Noites, não a do SBT), Joe confessa ser uma ninfomaníaca, e segundo ela mesmo, um ser humano terrível que não é digna nem de pena. Seus "causos" começam pela adolescência - onde sua versão jovem é interpretada com maestria por Stacy Martin - e terminam literalmente na noite onde foi encontrada por Seligman.

É curioso constatar que a estrutura de Ninfomaníaca parece caminhar para o padrão de enredo dos filmes de viciados: primeiro, os prazeres do vício, depois, as consequências físicas e psicológicas do mesmo, então o arrependimento e o tratamento. Mas não é bem isto o que ocorre. Em sua narrativa, Joe pouco demonstra ter tido realmente prazer com o sexo. Ao mesmo tempo, ela não busca uma cura, nem se importa com seus próprios problemas. Seu único arrependimento é o impacto negativo que sua vida teve na vida de outras pessoas.

Ninfomaníaca poderia focar no sofrimento de Joe. Poderia também focar no preconceito que as mulheres viciadas em sexo sofrem (para a sociedade, é algo muito mais condenável do que se o viciado fosse um homem). Porém, acaba trazendo estes assuntos de maneira superficial. Joe aparenta ser uma personagem pouco emotiva, e esta sobriedade se reflete no filme de uma maneira um pouco ruim, trazendo uma história que - embora bem interessante - acaba sendo exageradamente descritiva e dá pouca margem a debates.

Em termos técnicos, Ninfomaníaca é bem realizado. Boa fotografia, bastante diversificação de cenas e localidades, a idade e os sentimentos de Joe são acompanhados pelas cores em que o filme é rodado.

Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin - ambas como a personagem Joe - atuam muito bem, principalmente a última. O filme ainda conta com vários atores famosos, como por exemplo: Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman e Willem Dafoe. Todos também atuam bem, somam ao filme com suas atuações, mas ao mesmo tempo, não trazem nenhuma performance realmente marcante.

Mesmo sendo uma história bem melancólica, sem nenhum alívio cômico, Ninfomaníaca é dinâmico o suficiente para prender a atenção do expectador. O fato das histórias contadas por Joe serem bastante variadas, somado ao fato de ficarmos curiosos para ver "o que acontece depois", não deixam o filme enfadonho em nenhum momento, apesar da duração.

O final de Ninfomaníaca reserva uma pequena surpresa, que aliás, ainda hoje não consigo julgá-la como algo inverossímil ou não. Mas mesmo sem conseguir chegar a uma conclusão, confesso que o final não me agradou. Para não dar spoiler, digo o que exatamente não gostei no "PS" ao final do texto.

Mais comportado e sóbrio do que o imaginado, dando pouca margem a discussões sobre a imagem da mulher em nossa sociedade, ao menos Ninfomaníaca é uma história interessante e variada. Repleto de cenas de sexo, o filme é sem dúvida um filme adulto, porém, nada erótico e 100% drama. O polêmico Lars von Trier foi um pouco mais comportado desta vez. Existe uma versão "sem cortes" com 1h 30min de cenas extras e que foi exibida em alguns festivais. Sem a pressão comercial, talvez só nesta versão resida a visão "transgressora" que von Trier prometera inicialmente.

Versões a parte, eu gostei de Ninfomaníaca, porém a história poderia ser encurtada em um único filme de 3h e o resultado final seria provavelmente o mesmo. Nota: 7,0.


PS: (leiam isto apenas após assistir o filme, já que é um pequeno spoiler sobre o final). O que me desagradou na conclusão de Ninfomaníaca foi: entre trazer redenção aos personagens de Joe e Seligman e chocar o público, o diretor ter optado pela segunda opção. Talvez pela emoção, eu preferiria a opção 1.

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