sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Qual é o melhor filme Brasileiro de todos os tempos? Conheça aqui os principais candidatos e tire sua própria conclusão!

Para comemorar a semana em que o site Cinema Vírgula completa seu 14º ano de vida, trago um artigo bem especial. Qual é o melhor filme brasileiro de todos os tempos? Esta pergunta não tem uma resposta única, porém trago aqui as SETE respostas mais prováveis, baseado em dois critérios: os prêmios que nosso Cinema obteve nos festivais internacionais mais relevantes, e na opinião dos críticos profissionais brasileiros da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Em Setembro de 2016 eles fizeram uma votação, elegendo "Os 100 Melhores Filmes Brasileiros", resultado que usei aqui.

Sem mais delongas, vamos à relação destas sete excepcionais produções nacionais, em ordem crescente de data de lançamento:


1) Limite (1931)

O primeiro filme da lista é certamente o mais desconhecido pelo público, mas o motivo disto não é devido a ele ser o mais antigo; e sim porque ele estava "esquecido" por décadas, sendo resgatado pelo World Cinema Project (WCP), uma organização criada em 2007 (ainda sob o nome de World Cinema Foundation) por nada menos que o cineasta estadunidense Martin Scorsese. Bastante deteriorado, com a ajuda de Walter Salles e da Cinemateca Brasileira a nova restauração de Limite em parceria com a WCP começou ainda mesmo em 2007, e foi finalizada em Setembro de 2010.

Dirigido e escrito por Mário Peixoto, um carioca nascido em Bruxelas (seus pais eram brasileiros, e após vir para o Brasil aos 2 anos de idade, passou o resto de sua vida por aqui), Limite foi um filme revolucionário, experimental.

Nos anos 20 e 30, tínhamos distintos movimentos na Europa para distanciar o Cinema do simples entretenimento que era feito nos EUA. A idéia era transformar os filmes em uma Arte maior, e também contar através deles idéias novas, originais. Em paralelo no Brasil, tínhamos apenas uma pessoa fazendo o mesmo: o jovem Mário Peixoto de 21 anos. Limite, seu primeiro e único trabalho cinematográfico, une em um mesmo filme técnicas da Montagem Soviética (cortes curtos, comparativos e abruptos, filmando com ângulos inusitados) com técnicas francesas como o Impressionismo e o Surrealismo (associações livres de imagens, rostos em close, valorização da experiência sensorial), mas ao mesmo tempo, usando-as "do seu jeito". 

Além disso, Limite traz uma narrativa não linear, e também tem passagens onde vemos os personagens fazendo coisas "triviais", como por exemplo, ficar simplesmente caminhando por um certo período; ambas características só iriam aparecer com mais frequência em filmes décadas depois, mostrando que Limite estava bem a frente do seu tempo.

Limite é um filme mudo que prima pelas suas experiências e qualidades técnicas (a fotografia é excelente para a época). Porém o roteiro, que não era seu propósito, não é seu forte. A trama é simples: o filme começa nos mostrando 3 pessoas à deriva em um pequeno barco ao mar: uma mulher que fugiu da prisão, um homem cuja amante faleceu, e uma mulher já sem ânimo frente ao cotidiano da vida. Pouco é explicado, tudo é bem melancólico, pessimista, e não há muito o que entender logicamente... há mais o que sentir; e certamente mais da metade do filme são imagens de paisagens e objetos. O efeito que Limite causa no espectador também vem da boa trilha instrumental, bem planejada e executada.

Limite não é um filme nada fácil de se assistir. É bem lento, e se encontra entre na lista dos melhores filmes graças a sua importância histórica e maravilhas técnicas. Caso você queira vê-lo, ele se encontra disponível no Youtube. Este é o link onde eu o assisti.


2) O Pagador de Promessas (1962)

Por décadas O Pagador de Promessas foi reverenciado como um dos grandes clássicos do cinema nacional, mas hoje infelizmente ele não é tão lembrado pelo grande público. Dirigido e idealizado pelo paulista Anselmo Duarte, este filme é nada menos o primeiro e único até hoje a conquistar a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes, em 1962. Além disto, também foi o primeiro filme da América do Sul a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1963.

Estrelado por Leonardo Villar e uma jovem Glória Menezes (sim, aquela que você conhece das antigas novelas da Globo), o filme é baseado em uma peça teatral de mesmo nome escrita por Dias Gomes. Ele conta a história de um homem humilde que tenta pagar uma promessa que fez para curar seu burro que ficou doente; o levando a andar muitos quilômetros com uma cruz nos ombros. Porém quando ele tenta chegar em seu destino final, a Igreja de Santa Bárbara em Salvador, é impedido de entrar pelo padre local. Para piorar, durante toda a história, várias pessoas se aproveitam do inocente protagonista. O filme é uma forte crítica ao comportamento da sociedade, e a muitos aspectos da religião, dentre elas o fanatismo, a intolerância e o abuso de poder.

Temos também várias contraposições entre as religiões / cultura de raiz africana com a católica apenas com imagens e som, e isto é bem diferente. O Pagador de Promessas também é famoso pelo seu desfecho marcante, porém vou mais além: ele é um final bem corajoso de se fazer nos dias atuais, imagine então quando foi feito há tantas décadas atrás!

Assistindo o filme hoje, diria que ele se mostra um pouco "ingênuo e desconexo", além de não representar as mulheres de modo muito favorável, algo mais comum na época; ainda assim o importante recado de O Pagador de Promessas continua lá... tanto é que a triste conclusão que se chega é: pouco se mudou na sociedade e nas religiões de 1962 pra cá...


3)  Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)

Dirigido e escrito pelo revolucionário cineasta baiano Glauber Rocha, até a redescoberta do filme Limite, quem ficou no topo da lista dos melhores filmes nacionais por muitos e muitos anos foi Deus e o Diabo na Terra do Sol. Assim como clássicos do cinema mundial como o soviético O Encouraçado Potemkin (1925) e o italiano Roma, Cidade Aberta (1945), a obra é histórica por ser o símbolo de um novo Movimento Cinematográfico de seu tempo.

Na trama, que se passa no pobre e seco sertão nordestino no começo do Século XX, o sertanejo Manoel resolve pegar o dinheiro do seu trabalho para comprar um pedaço de terra; porém quando vai receber a quantia do Coronel, este recusa a dar o dinheiro, querendo explorá-lo. Manoel se enfurece, mata o Coronel e é obrigado a fugir, em uma saga onde ele primeiro se associa ao religioso messiânico Sebastião, e depois ao cangaceiro Corisco, que pertencia ao grupo de Lampião.

Como dito anteriormente, Deus e o Diabo na Terra do Sol é bastante reverenciado. E não apenas pelas críticas sociais, que começavam a chegar nas telonas nesta década, mas principalmente pelo estilo completamente diferente do padrão do Cinema Brasileiro. O filme é um dos principais símbolos do movimento Cinema Novo, cujo slogan “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, batia de frente contra o cinema tradicional nacional de até então, que consistia principalmente de musicais e comédias imitando o formato de Hollywood.

A tal "câmera na mão" junto com muitos close-ups e cortes abruptos de cena criam um clima de tensão constante nunca visto até então; outra novidade é que apesar da presença do "Deus e o Diabo" no título do filme, nenhum personagem parece corresponder a nenhum dos "lados": o religioso Sebastião sabe que está enganando o povo e faz até sacrifícios humanos; já o violento cangaceiro Corisco se vê em uma nobre missão de luta contra a injustiça social. Até mesmo os protagonistas e sua esposa Rosa se alternam fazendo coisas corretas e erradas; ou seja, é um filme sem heróis.

Por outro lado, vendo com olhos de hoje, este mantra de "simplesmente vá e faça" deixou alguns problemas técnicos que me incomodaram: as atuações são bem caricatas e teatrais (no mau sentido), temos cenas improvisadas que não encaixam na trama, e vários diálogos são incompreensíveis, seja porque o ator falou muito baixo ou muito rápido, ou porque sua fala foi sobreposta pela trilha sonora ou pela narração cantada. Pelo que estudei, o negativo original do som de Deus e o Diabo na Terra do Sol não foi preservado em boas condições, e então, a versão que temos hoje é uma restauração que tentou recuperar ao máximo sem modificar a obra original. Em outras palavras, se o filme original tinha estes problemas de "diálogos incompreensíveis", não sei e talvez nunca saberei.


4) Central do Brasil (1998)

Agora vamos com o primeiro dos dois filmes desta lista do diretor carioca Walter Salles. O nome Central do Brasil é uma referência à grande estação de trens de mesmo nome, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro, e aonde se começa a história. Dora (Fernanda Montenegro) é uma professora que trabalha lá como escritora de cartas para analfabetos; e neste local acaba conhecendo um pobre garoto de nove anos chamado Josué. Com o repentino falecimento da mãe, Josué fica sozinho, e então Dora acaba "adotando" o garoto, partindo com ele em uma viagem ao Nordeste, em busca do desconhecido pai do menino.

O filme aborda fortemente temas como desigualdade social e o abandono das populações do interior do Brasil; outro tema muito presente é a solidão, e pelo menos essa angústia é resolvida de certa forma para Dora e Josué, quando eles fazem o caminho inverso da migração padrão, saindo de uma cidade grande do Sudeste e indo para o Nordeste. Central do Brasil acaba sendo em parte um road movie pelo interior pobre brasileiro.

Central do Brasil foi muito bem sucedido em festivais: foi o primeiro filme brasileiro a vencer o Urso de Ouro, prêmio máximo do Festival de Berlim, ao mesmo tempo que Fernanda Montenegro venceu o Urso de Prata de Melhor Atriz. No Globo de Ouro, Central do Brasil levou o prêmio de Melhor Filme de Língua Estrangeira. E já no Oscar... além da indicação a Melhor Filme Estrangeiro, Fernanda Montenegro foi a primeira latino-americana da história a concorrer pelo prêmio de Melhor Atriz... porém foi derrotada pela insípida Gwyneth Paltrow, algo que revolta os amantes do cinema até hoje.


5) Cidade de Deus (2002)

Se Central do Brasil resgatou a autoestima do brasileiro em termos de cinema nacional, Cidade de Deus, do paulista Fernando Meirelles, levou isso a outro patamar. Central do Brasil não foi mal nas bilheterias nacionais, mas Cidade de Deus foi muito bem, ultrapassando 3 milhões de espectadores, e virou um verdadeiro fenômeno cultural. E não só isso, estabeleceu o recorde para filme brasileiro com mais indicações ao Oscar: quatro.

Curiosamente, ele não foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2003. E uma teoria é que isto aconteceu simplesmente porque o filme não foi suficientemente assistido pelos votantes daquela categoria, impedindo portanto sua indicação. Porém, para grande surpresa dos brasileiros, no Oscar seguinte de 2004, e contando também com apoio comercial da Miramax, Cidade de Deus recebeu as suas famosas quatro indicações: Melhor Direção (Fernando Meirelles), Melhor Roteiro Adaptado (Bráulio Mantovani), Melhor Montagem (Daniel Rezende) e Melhor Fotografia (César Charlone).

Nem preciso dizer que este reconhecimento foi justíssimo. Cidade de Deus continua na minha lista geral dos melhores filmes do século XXI. Pena que não levou nenhum Oscar, já que infelizmente aquele ano foi o escolhido pela Academia para premiar a trilogia O Senhor dos Anéis (o filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei venceu todas as 11 categorias que disputou). Ainda assim, Cidade de Deus deveria ter levado pelo menos um dos prêmios... o de Melhor Montagem: o trabalho de Daniel Rezende foi simplesmente primoroso.

Ah sim: a história acompanha a vida de vários personagens que moram na Cidade de Deus, uma perigosa favela do Rio de Janeiro, e acompanhamos a história dos protagonistas desde criança, no fim dos anos 60, até já adultos, nos anos 80. Ao longo do filme, aparecem várias histórias paralelas que se entrelaçam no decorrer da trama. E não são só as histórias que se misturam: também há muita violência misturada com humor, mais ou menos ao estilo dos filmes do Quentin Tarantino.


6) Ainda Estou Aqui (2024)

Walter Salles está de volta na lista. E voltou realizando no dia 02 de Março de 2025 um grande sonho do nosso Cinema: a conquista do primeiro Oscar do Brasil

Ainda Estou Aqui é um filme baseado no livro de mesmo nome escrito por Marcelo Rubens Paiva. Ele conta, sob os olhos de Eunice Paiva, os eventos reais do desaparecimento de seu marido, o político Rubens Paiva, durante a ditadura militar no Brasil. Caso você queira uma análise mais detalhada sobre o filme, é só clicar aqui para ler minha crítica completa.

O Brasil levou uma estatueta, mas no total foram 3 indicações ao Oscar: a de Melhor Filme Internacional (a que venceu), o de Melhor Filme, e o de Melhor Atriz (para Fernanda Torres, repetindo o feito de sua mãe Fernanda Montenegro). Mas se Fernanda "filha" não conseguiu uma "reparação" pela injustiça feita com a Fernanda "mãe" décadas atrás, ela teve melhor sorte no Globo de Ouro, onde venceu o prêmio de Melhor Atriz em Filme Dramáticosendo a primeira mulher sul-americana e também primeira falante de português a receber este prêmioAinda Estou Aqui ainda foi indicado, mas não levou, a Melhor Filme em Língua Estrangeira. Já no Festival Internacional de Cinema de Veneza venceu o prêmio de Melhor Roteiro.

As vitórias nas premiações certamente contribuíram para que Ainda Estou Aqui tenha se tornado um grande sucesso de bilheteria nacional e mundial. No Brasil, foram quase 6 milhões de espectadores; e a arrecadação total ultrapassou R$ 200 milhões (ou cerca de US$ 40 milhões), sendo aproximadamente metade por aqui, e metade no exterior.


7) 
O Agente Secreto (2025)

E encerrando a lista, temos o recente O Agente Secreto, do diretor e roteirista pernambucano Kleber Mendonça Filho. Tão recente que a temporada de premiações para ele ainda nem terminou, faltando ainda saber qual será seu futuro destino nOs Oscars de 2026... já sabemos que lá ele igualou o recorde de Cidade de Deus recebendo quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Elenco, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator (por Wagner Moura).

A história, desta vez fictícia, se passa em 1977, durante a ditadura militar. Acompanhamos o professor universitário Marcelo (Wagner Moura), que retorna à sua cidade natal, Recife, aparentemente fugindo de algo. O filme discute temas como vigilância estatal, manipulação e apagamento da memória e da verdade. Também para O Agente Secreto, caso queira ler a crítica completa, clique neste link.

Além dos Oscars, o filme brilhou em várias premiações internacionais, das quais destaco o Festival de Cannes e o Globo de Ouro. Em Cannes, O Agente Secreto chegou a concorrer pela Palma de Ouro, mas não levou. Porém venceu os prêmios de Melhor Diretor e Melhor Ator (Wagner Moura), sendo este último, algo inédito para o Brasil.

Já no Globo de Ouro, outro recorde de número de indicações para um filme nacional: três; além de ser o primeiro filme brasileiro a ser indicado na categoria Melhor Filme de Drama. Este prêmio o filme não levou, porém nas outras duas indicações: Melhor Filme em Língua Estrangeira, e Melhor Ator em Drama (Wagner Moura), O Agente Secreto venceu! Com o feito, Moura se tornou o primeiro brasileiro (mas não o primeiro sul-americano) a ganhar o prêmio.

Até o momento que escrevo estas linhas, O Agente Secreto chegou a marca de US$ 10 milhões de arrecadação nos cinemas (cerca de R$ 52,2 milhões), sendo mais ou menos metade disso no Brasil, e metade no exterior. Porém agora com as indicações ao Oscar, tudo indica que o filme volte aos cinemas e os números subam consideravelmente.




PS1: Acha que algum filme merecia ter entrado na lista e não entrou? E qual, na sua opinião, é o melhor filme brasileiro de todos os tempos? Escreva nos comentários!

PS2: Na imagem do título deste artigo temos à esquerda uma cena do filme Limite, e à direita um filme que não é um dos sete que trouxe aqui... trata-se do curta-metragem Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado. Ele aparece em 13º lugar na lista dos "100 Melhores Filmes Brasileiros" da ABRACCINE, mas é o primeiro curta dela (tem apenas 13 min de duração), ou seja, acaba sendo o melhor curta-metragem brasileiro de todos os tempos na opinião dos críticos. E é muito bom mesmo! Um soco no estômago! Quem puder assistir, recomendo muito. Um link para assisti-lo é esse aqui.

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