domingo, 8 de março de 2026

Especial Dia Internacional da Mulher: Verna Fields e Marcia Lucas: as montadoras que salvaram as carreiras de Steven Spielberg e George Lucas

Você certamente admira o filme Tubarão (1975) e seu diretor Steven Spielberg; e igualmente o faz para o filme Guerra nas Estrelas, vulgo Star Wars - Uma Nova Esperança (1977), e seu diretor George Lucas.

Porém você nem desconfia que estes dois blockbusters, que graças ao seu novo jeito de contar histórias e grande apelo popular revolucionaram a história do Cinema, tiveram como principais "culpadas" por todo este sucesso as montadoras (ou "editoras", se preferir) de filmes: Verna Fields e Marcia Lucas.

 

Verna Fields

Era uma vez um jovem e talentoso diretor de 26 anos chamado Steven Spielberg, em sua primeira oportunidade em um grande filme de estúdio: Tubarão. E neste contexto, sua inexperiência iria complicar em muito sua vida...

O ousado diretor imaginou um filme grandioso, com grandes tomadas em mar aberto; porém na vida real, o oceano é completamente imprevisível, e sua grande estrela, um gigante e caro tubarão mecânico, se recusava a funcionar corretamente, além de que a água salgada danificava o personagem robótico constantemente. Após semanas de filmagens, o orçamento já estava estourado e Steven Spielberg, desesperado, não tinha uma única cena decente com o tubarão...

Porém quando os primeiros rolos de filme chegaram para Verna Fields editar, ao ver as imagens daquele tubarão atabalhoado que não convencia ninguém, ela teve uma idéia e a levou a Steven: e que tal se não mostrássemos o tubarão? Depois de recuperar do choque de ter que "jogar fora" todos os milhões de dólares gastos com o animal, Spielberg topou a proposta e Verna começou seu trabalho: ela recriou o terror do filme em torno da ausência do tubarão; editou tudo usando cenas subaquáticas em primeira pessoa, olhares assustados das pessoas da superfície, e principalmente, casou as imagens com o ritmo da excelente e marcante trilha sonora criada por John Williams, fazendo que este som passasse a ser o tubarão se aproximando. O resultado? Bem, o resultado vocês já sabem.

Verna Fields venceu o Oscar de Melhor Edição por esse trabalho; e isto está longe de ser seu único mérito da carreira. Ela foi uma editora de filmes muito bem sucedida nos anos 60 e 70, editando vários filmes de sucesso de jovens diretores famosos da época, como por exemplo o próprio Spielberg, Peter Bogdanovich e George Lucas. Na indústria do Cinema, chegou a ganhar o carinhoso apelido de "Mother Cutter", ou "Mãe Editora", já que "cutter" é um dos termos para editor de filmes.

Verna também era editora de som, trabalhando principalmente na TV, onde foi a responsável pelo som de alguns seriados. Ah, e ela não parou na edição não! Foi uma das primeiras mulheres a alcançar um cargo de alta executiva em um grande estúdio, sendo Vice-Presidente da Universal Pictures, cargo que ocupou até a data de seu falecimento, em 1982, com 64 anos.


Marcia Lucas

As citações à Verna Fields ainda não acabaram: em 1967 ela contratou alguns universitários para ajudá-la a editar o documentário Journey to the Pacific, e dentre eles estavam os jovens George Lucas e Marcia Griffin (a futura Marcia Lucas), que se conheceram e anos depois se casaram. Em seu segundo filme, Loucuras de Verão (American Graffiti, 1973), George Lucas queria que sua esposa fosse a editora, porém o estúdio não deixou e o obrigou a contratar... Verna Fields(!). Porém Verna trabalhou pouco no filme, já que logo foi obrigada a retornar para o trabalho de edição de Essa Pequena é uma Parada (1972).

Sobrou então para Marcia Lucas transformar uma versão de 165 minutos na versão final de 110 min que conhecemos hoje. Além disso, antes as histórias eram contadas separadamente, de modo sequencial, e foi ela quem decidiu editá-las contando-as em paralelo. Loucuras de Verão acabou se tornando o primeiro sucesso comercial de George Lucas. Já Marcia, juntamente com Verna Fields, foram indicadas por este trabalho ao Oscar de Melhor Edição, mas desta vez não venceram o prêmio.

E se você acha que Marcia já ajudou bastante George na história acima, o melhor ainda está por vir... No início de 1977, George Lucas chamou vários amigos, a maioria diretores, para uma primeira exibição teste em Los Angeles de seu novo filme, Star Wars. O resultado foi bastante preocupante: com exceção de Spielberg, que gostou do que viu, o restante da sala achou que a obra era confusa, lenta e carente de emoção.

George não tinha contratado Marcia como editora do filme pois na época do começo da produção ela  estava grávida; então ele trouxe o britânico John Jympson. Porém após o resultado perturbador da exibição inicial, Jympson foi demitido e um trio de editores - sendo Marcia Lucas a principal deles - veio às pressas para tentar salvar o filme, que estava programado para ser lançado em poucos meses.

Marcia alterou muitas coisas no corte de George Lucas e John Jympson, transformando Star Wars em algo muito mais humano e dinâmico. Principalmente, ela remontou totalmente a batalha final com os caças que destroem a Estrela da Morte, que no corte original, não tinha nenhum sentimento de urgência. Por exemplo, é só graças a ela que a base rebelde está na iminência de ser destruída, e que Han Solo aparece na última hora com sua nave para ajudar Luke.

Marcia também ajudou no roteiro, e ela convenceu seu marido a fazer diversas alterações. Por exemplo, foi dela a idéia de que Obi-Wan Kenobi se sacrificasse, pois originalmente ele fugiria junto com os heróis; ela quem sugeriu que o espírito de Kenobi aparecesse e falasse para Luke "usar a Força", ou ainda, foi só graças a Marcia que a cena em que Léia dá um beijo de boa sorte em Luke foi mantida. A conclusão? Como todos sabem, Star Wars se tornou um enorme sucesso de crítica e público, e virou uma das maiores franquias da cultura pop de todos os tempos.

O sucesso, aliás, não foi nada bom para o casal. Milionários de uma hora para outra, enquanto Marcia queria se aposentar e criar uma família, George Lucas resolveu construir seu gigantesco Rancho Skywalker para se tornar um grande produtor de cinema e, em paralelo, transformar seu Star Wars em uma gigantesca franquia com múltiplos filmes.

Quando Star Wars: Episódio VI - O Retorno de Jedi (1983) estava sendo feito, George e Marcia já estavam em processo de divórcio. Ainda assim, Marcia editou algumas partes deste filme, dentre elas algumas de suas cenas mais emocionantes, como as mortes de Yoda e Anakin. E este foi seu último trabalho nos cinemas, com Marcia se aposentando do mundo artístico em definitivo.

Com o passar dos anos, com literalmente dezenas de novas versões e novos documentários sobre os filmes de Star Wars, Marcia Lucas foi sendo gradualmente "apagada" da história por George. Porém, nos últimos anos, livros e documentários feitos por pessoas que não estão mais sob a folha de pagamento de George Lucas / Disney, além de entrevistas de Mark Hamill, têm resgatado a vital importância dela para a franquia.

Ah, e um detalhe final: pela edição em Star Wars, de 1977, Marcia Lucas venceu o Oscar de Melhor Edição. Já seu ex-marido George Lucas, apesar de toda fama, nunca venceu nenhum Oscar diretamente, seja de Melhor Filme, ou Melhor Direção, ou Melhor Roteiro. Sensacional! rsrs

2 comentários:

Anônimo disse...

Excelente leitura, como de costume aqui no Blog! Fernanda Barbosa

Ivan disse...

Obrigado Fernanda! :)

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