Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=3OovzJLVxUo
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme baseado no livro ficcional de 2020 de nome Hamnet, escrito pela Norte-Irlandesa Maggie O'Farrell, que aqui também é co-roteirista junto com a diretora Chloé Zhao (vencedora do Oscar com Nomadland). Ele trata da vida de William Shakespeare e sua esposa Agnes Hathaway, e de como eles lidam com a perda precoce de seu filho Hamnet.
Para quem acaba de ficar bravo comigo pelo spoiler acima, em minha defesa a morte do pequeno Hamnet é mostrada no trailer e também é citada na sinopse oficial do filme; e com este detalhe da trama já dá para perceber que o subtítulo "A Vida Antes de Hamlet" que colocaram aqui no Brasil, e que não existe no original, é um bocado idiota.
A história começa nos apresentando William (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley). Aprendemos que Shakespeare voltou da "cidade grande" para trabalhar em uma pequena vila rural para ajudar seu pai a pagar suas dívidas; já Agnes é apresentada como uma espécie de curandeira local, sempre em forte contato com a natureza, e que costuma ter visões proféticas. A dupla se conhece, rapidamente se apaixona e tem sua primeira filha.
E é com este clima bucólico e cotidiano que seguimos até a metade do filme, com alguns problemas. Hamnet constantemente mostra o casal como muito apaixonado um pelo outro, com eles declamando seu amor, até vemos eles em algumas cenas de sexo... porém não "sentimos" esse amor, não há qualquer demonstração verdadeira de afeto ou cumplicidade... tudo fica apenas em nossa imaginação. Eu não vi uma única cena no filme que me faça entender porque Agnes se apaixonou por Shakespeare, fora que a atuação de Paul Mescal é bem ruim. Para não ofender, vou dizer que ele passa o filme todo com uma única expressão, de "estou com dor de dente".
Aliás, o mesmo pode ser dito sobre a emoção de "ódio"... os personagens gritam com os outros do nada, você até entende porque estão gritando, mas não sente ser real. A primeira metade de Hamnet, em geral, é lenta e repleta de emoções ocas. Talvez um dos motivos disto acontecer seja a opção por não ter nenhuma trilha sonora, algo que costuma ajudar a trazer sentimentos para o espectador; de qualquer forma, a coisa mais próxima de "emoção" que o filme traz são algumas cenas que induzem tensão a platéia por nos fazerem a acreditar que algo muito ruim vá acontecer em breve. Porém isso não acontece, é sempre alarme falso.
Então exatamente na metade de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet uma tragédia de fato (e enfim) acontece, e os rumos do filme mudam, felizmente para melhor. E ainda assim, a maneira que a tal tragédia é contada não me agradou, pois de certa forma, acaba fazendo alusão a elementos sobrenaturais, que me parecem desnecessários para a mensagem da trama.
Em sua segunda metade o filme fica um pouco mais dinâmico, com as histórias de William e Agnes se alternando menos lentamente, e com alguma emoção genuína colocada, enfim, com o apoio de trilha sonora. O melhor vem com o ato final, onde Shakespeare apresenta para o público pela primeira vez sua nova peça, Hamlet.
É durante a apresentação da peça em que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet enfim faz sentido, amarrando tudo o que ele contou nas intermináveis 1h e 30min anteriores. Pela primeira vez vemos de forma convincente que Shakespeare tem algum sentimento, e de modo improvável até mesmo as visões que o pequeno Hamnet herdou de sua mãe se concretizaram. Tudo converge para emocionar o espectador e, pela reação das pessoas nas mídias sociais, parece ter funcionado perfeitamente.
Mas ainda assim, mesmo em seu ápice, Hamnet deixa um bocado a desejar; seu desfecho é bem piegas, e um exemplo disso é que até dá para aceitar Agnes se emocionar e querer tocar / acolher o ator do personagem de Hamlet, mas o restante do público não. Aliás, o comportamento de Agnes é totalmente inverossímil. Uma coisa é você estar abalada pela morte do filho, outra é se comportar durante a peça toda como se fosse o doidinho da praça. Também chego a ficar indignado com a facilidade com que Agnes "perdoa" Shakespeare, um "pai" totalmente ausente.
As únicas coisas que se realmente se salvam Hamnet: A Vida Antes de Hamlet são as atuações de Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet, e de Jessie Buckley, que está bem apesar dos exageros e provavelmente levará o Oscar de Melhor Atriz. A direção ruim de Chloé Zhao conseguiu fazer que a ótima Jessie não estivesse em seu melhor. Mas pelo menos serviu para a atriz provar mais uma vez que é versátil e carismática, e se ela levar o Oscar não acharei ruim. Só não seria tanto por Hamnet, e sim pelo conjunto da sua carreira. Nota: 5,0.
PS 1: conforme o filme explica em seu letreiro incial, "Hamnet" também era escrito como "Hamlet" na época de Shakespeare, e portanto, dá para se dizer que ambos são o mesmo nome. Sobre a tese principal do filme (e do livro), de que Hamlet tenha sido escrito por William devido a morte de Hamnet, não há nenhuma comprovação histórica sobre isso.
Eu particularmente acredito que o nome da peça ter sido o nome de seu filho, e o próprio protagonista da história ser "um filho", não são coincidências; não tenho dúvidas que Shakespeare estava sim homenageando sua criança. Mas, e quanto ao resto da história de Hamlet? O que temos, além da tal homenagem, para indicar que houve uma inspiração direta? É fato que a peça debate bastante sobre a morte e a dor da perda; por outro lado, ela é principalmente uma história sobre vingança, fala do luto de um filho pelo pai (e não o contrário), e foi escrita 4 anos depois que Hamnet morreu.
PS 2: no caso do nome da esposa de William Shakespeare acontecia a mesma coisa, tanto podia se escrever Agnes quanto Anne Hathaway, ainda que nas referencias escritas que temos à ela sejam muito mais comuns a grafia Anne. O "triste" é o motivo da escolha pelo nome Agnes... a mudança foi feita apenas no filme (não existe no livro) para que o público não "confundisse" a protagonista com a atriz de mesmo nome do nosso tempo.

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