segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Crítica - Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (2014)

Título: Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência ("En duva satt på en gren och funderade på tillvaron", Alemanha / França / Noruega / Suécia, 2014)
Diretor: Roy Andersson
Atores principais: Holger Andersson, Nils Westblom, Viktor Gyllenberg
Trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=i4zUsmDQ_Mk
Nota: 7,0
Triste, melancólico, louco e interessante

Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza 2014, o filme sueco Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência é... estranho, contemplativo, diferente.

Seu tema é uma reflexão sobre a vida comum, sobre o ser humano comum. E desta forma, esta obra do diretor sueco de 72 anos Roy Andersson tem um pouco de Monty Python e um pouco de Wes Anderson. Ela lembra a trupe britânica ao fazer do filme uma sucessão de esquetes, além do humor ácido e de principalmente ironizar os absurdos de nosso comportamento. Já do diretor estadunidense, Andersson empresta algumas características como a presença de uma infinidade de personagens e situações bizarras; a câmera fixa, onde os atores são quem se movem em frente a câmera e não o contrário. Cada esquete tem cerca de 3 minutos, e dentro de cada uma delas, não há cortes.

Ao mesmo tempo, Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência é bastante diferente de Wes e dos Python: aqui tudo é estático, apático, quase morto. Todos os personagens são pessoas tristes, cansadas, bem pálidas (visual reforçado pela maquiagem). Você até consegue captar o humor - inteligente - por trás dos absurdos mostrados, mas dificilmente ri: está contagiado com a melancolia do filme.

Apresentando um número grande de personagens (a maioria de maneira superficial, anônima), os dois vendedores ambulantes Sam (Nils Westblom) e Jonathan (Holger Andersson), são o mais próximo do que temos de "fio condutor" da trama, já que aparecem em várias esquetes. O fato de ambos serem pessoas tristes e mal humoradas que tentam vender artigos de diversão infantil é apenas uma das diversas ironias do filme. Eles também são quem melhor representam o quanto somos repetitivos, o quanto a vida é repetitiva. E quase todo personagem do filme, em algum momento, repete um gelado "Fico feliz que esteja tudo bem.". Ou seja: as pessoas vivem mecanicamente, e pouco se importam realmente com as outras.

Se já não bastasse a crítica aos absurdos da vida que levamos hoje, as últimas esquetes do filme pertencem ao sub-tílulo "Homo Sapiens". E aí somos relembrados que não somos apenas chatos e perdidos: também somos cruéis.

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência nos mostra uma visão extremamente pessimista da humanidade e da vida que levamos. Ao mesmo tempo, ao optar pelo absurdo, assistimos este pessimismo com interesse e curiosidade. E ao final da história nos pegamos refletindo sobre a existência, da mesma maneira que o pombo do título. Nota: 7,0

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Critica - The Babadook (2014)

Título: The Babadook ("The Babadook", Austrália / Canadá, 2014)
DiretorJennifer Kent
Atores principais: Essie Davis, Noah Wiseman
Trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=mxylXl9wrck
Nota: 5,0
Muito bem dirigido, filme de terror sensação da Internet tropeça no roteiro

Filme de terror psicológico dirigido pela atriz australiana Jennifer Kent - sua estréia como diretora e roteirista em longa-metragem - The Babadook fez bastante sucesso via cópias piratas pela Internet em 2014. Sendo um filme independente de baixo orçamento, ele sequer chegou aos cinemas brasileiros. Eis então que no começo de junho deste ano, ele enfim chegou a nosso país de maneira oficial, via Netflix.

Na história, vemos a mãe solteira Amelia (Essie Davis), que cada vez mais tem problemas com o comportamento errático de seu filho de seis anos, Samuel (Noah Wiseman), obcecado em se preparar para se defender de um terrível monstro que está prestes a chegar. Não surpreendentemente, um dia ela encontra um estranho livro de fábulas em sua casa, intitulado "Mr. Babadook", o qual ela lê para seu filho ao colocá-lo para dormir. Basicamente, o livro diz algo como: "o Senhor Babadook vai se aproximar cada vez mais de você, lentamente, até que você morra. Não tem volta.". E é então que mãe e filho começam a ser progressivamente assombrados por esta entidade.

Nada original, certo? E, de fato, o roteiro é o ponto fraco do The Babadook. Por outro lado, o filme é muito bem dirigido. Filmado o tempo todo com cores frias, do cinza ao azul, uma casa velha realmente assustadora, lentes e enquadramentos "estranhos" que emulam com perfeição o ponto de vista do olhar de uma pessoa extremamente cansada e insone; não dá para negar que em termos de atmosfera, o filme é extremamente bem sucedido em nos transmitir uma sensação de medo, de que "algo está muito errado".

Reitero que tecnicamente o filme é muito bom. Mesmo tendo na imagem o seu destaque, até a trilha sonora agrada bastante. Ela é discreta, e contribui para o clima de suspense sem apelar para os clichês do gênero.

Dividido em três atos, The Babadook falha por encantar com sua atmosfera de terror apenas em seu segundo segmento. Ele é realmente assustador. Porém, no primeiro, há menos suspense e nada de sobrenatural, é mais uma história de uma mãe com dificuldades de lidar e ajudar seu filho difícil. Já o ato final é bem fraco, bastante decepcionante.

Aclamado no festival de Sundance, e em geral bastante elogiado pela crítica especializada, The Babadook tem sido elevado por supostamente ser uma bem sucedida metáfora para a depressão (no caso da mãe) e/ou na metáfora para o autismo (no caso do filho). De minha parte, contesto parcialmente ambas as associações.

O suposto autismo da criança faz sentido no primeiro ato. Mas, a partir do segundo (quando a mãe termina de ler o livro), o garoto é completamente descartado pela trama. Já a depressão da mãe se sustenta por mais tempo, e é uma associação que também convence. Entretanto, para este caso, há duas contradições: a cena final e o fato de que mãe e filho sofrem os efeitos de conviver com a tenebrosa entidade. E ele não está sofrendo depressão, portanto... "Ah, mas é tudo alucinação de Amelia": sim, ao pensar deste jeito, a tese da depressão não teria furos; entretanto, o roteiro do filme enfraquece ainda mais. Prefiro, então, não seguir por este caminho.

The Babadook foi tão elogiado que talvez pela alta expectativa que eu tinha antes de assisti-lo, isto pode ter prejudicado minha avaliação. Portanto, para quem é fã de filme de suspense (e não de terror), acho interessante conhecê-lo. Para mim, apenas o segundo ato (muito bom) valeu a pena. Restou a sensação de algo com ótimo potencial ser mal aproveitado. Nota: 5,0

terça-feira, 21 de julho de 2015

Entenda os Joões dos contos de fadas (que nunca são Johns, geralmente são Jacks e deveriam ser Jacós)

Não são apenas os super-heróis de quadrinhos que estão constantemente sendo reinventados nos cinemas. Outro gênero muito comum de filmes são as adaptações dos "contos de fadas" (que não necessariamente possuem fadas - são geralmente contos infantis fantásticos do folclore europeu).

E um personagem bem frequente nestas adaptações é o intrépido João. Nos últimos três anos, você pôde encontrá-lo em João e Maria: Caçadores de Bruxas (2013), Jack, o Caçador de Gigantes (2013) e Caminhos da Floresta (2014).

Correto? Não, há algo errado: a frase acima está incorreta pois que os "Joões" dos filmes citados são personagens distintos. Toda esta confusão se deve a uma má tradução dos nomes destes protagonistas aqui no Brasil.

Vamos então aprender a distinguir os "Joões" e suas respectivas histórias?

João e o Pé de Feijão é uma história do folclore inglês, e certamente, a mais famosa dentre todas as histórias do "João". Publicada pela primeira vez em 1807, seu nome no original é Jack and the Beanstalk. Nela, um menino pobre vai ao mercado e troca a única renda da família, uma vaca, por feijões mágicos. Feijões estes que, ao plantados, geram um pé de feijão gigante que o leva a um reino acima das nuvens, onde ele encontra um gigante mau e sua esposa. É o gigante que fala “Fa-fi-fo-fum!”, e de quem João rouba uma harpa de ouro e a famosa gansa que bota ovos de ouro (exato: não é uma galinha).

João o Matador de Gigantes (Jack the Giant Killer) é outra fábula inglesa, ainda mais antiga, e publicada pela primeira vez em 1711. Nela os gigantes coexistem com os humanos na terra mesmo, e a história acontece durante o reino do Rei Arthur. Sozinho, o jovem fazendeiro João (que é bem mais velho que o João do Pé de Feijão) consegue matar o gigante que comia o gado dos fazendeiros da região. Após a façanha, ele recebe o título de “Matador de Gigantes” e acaba fazendo disto seu meio de vida. Ele acaba vivendo várias aventuras e matando vários gigantes, sendo que para cada gigante morto João toma posse (ou é presenteado) de algum item mágico. São estes itens que tornam sua missão cada vez mais fácil e menos absurda. João acaba conhecendo o filho do Rei Arthur, vira Cavaleiro da Távola Redonda, e finalmente, termina sua história casando com a filha de um Duque, que fora resgatada por ele das mãos de um... adivinhem?... gigante.

Note que a tradução nos dois contos acima do nome do herói para João não está errada, afinal Jack é considerado uma variação de John (João em inglês). E o significado do nome John / João é “Deus é Gracioso”. Porém Jack também é considerado uma tradução do hebreu Jacob: o nosso Jacó. E o significado do nome Jacó é: “vencedor, cheio de energia, astuto”. Muito mais correto e próximo do aventureiro (e nem sempre honesto) Jack das fábulas, não? Portanto, aqui no Brasil o correto seria que todo Jack fosse traduzido como Jacó.

João e Maria é outra história "de Joões" que é bem famosa. Agora, deixamos o folclore inglês e partimos para o folclore alemão. O conto de João e Maria (Hänsel und Gretel, no original) foi registrado pelos Irmãos Grimm em 1812. Na história, dos irmãos são abandonados na floresta pelos pais, que não tem condições de sustentá-los. Perdidos, eles são atraídos por uma casa feita inteiramente de doces, cuja habitante é uma bruxa, que os aprisiona. Ao final, os irmãos conseguem matar a bruxa e voltar para casa dos pais, agora com provisões suficientes para viver pro resto da vida.

Curiosamente, apesar do nome bem diferente - Hänsel - a tradução para nosso idioma também não está errada, já que Hänsel é uma variante de Johannes, que por sua vez é o equivalente ao John inglês e ao João português.

Existem vários outros Jack's da literatura inglesa, e muitos deles sequer são humanos. Alguns nem tiveram o nome traduzido para o português, mas mesmo assim você já deve ter ouvido falar deles. Eis mais dois exemplos:
  • Stingy Jack / Jack-o'-lantern: aqui Jack é um bêbado vagabundo e mal caráter que fez um pacto com o diabo para não ir ao inferno. Ao morrer, por ser mau, não foi aceito no céu. Mas também, pelo pacto, não foi ao inferno. Desta maneira, ele é um morto-vivo preso em nosso mundo. A Jack-o'-lantern (aquela lanterna típica do Halloween feita com uma casca de abóbora no formato de uma cabeça humana) é baseada em sua história.
  • Jack Frost: é a geada sob forma humana. Aparece em diversos poemas e contos da língua inglesa desde o século XIX.

Note que todos os Joões / Jacós / Jacks (e o Hänsel) acima são completamente diferentes uns dos outros. Entretanto, o escritor de quadrinhos Bill Willingham teve a divertida idéia de fazer para seu ótimo título, Fables (ou Fábulas, publicado atualmente no Brasil pela Panini), que todas estas aventuras dos Jacks foram mesmo vividas por uma única e mesma pessoa: o desonesto Jack Horner. Mas isto é outra história.

Fechando então com os 3 filmes do início deste texto: o João de João e Maria: Caçadores de Bruxas é o Hänsel de Hänsel und Gretel; já o Jack de Jack, o Caçador de Gigantes é uma mistura dos dois Jacks: Jack and the BeanstalkJack the Giant Killer - note que neste filme ele já é adulto. E finalmente, em Caminhos da Floresta, o João é uma versão mais fiel do menininho João que temos em Jack and the Beanstalk.

Que este texto tenha dissipado todas as dúvidas "joonísticas" de uma vez por todas. :)


PS: ah, e João, em russo, é Ivan. E este fato não contribuiu em nada na minha motivação para escrever este texto. :)

domingo, 12 de julho de 2015

Crítica - Enquanto Somos Jovens (2014)

TítuloEnquanto Somos Jovens ("While We're Young", EUA, 2014)
Diretor: Noah Baumbach
Atores principais: Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver, Amanda Seyfried, Charles Grodin
Trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=3wzLmJdeCMg
Nota: 5,0
Sem grandes emoções, além de não entregar o que promete

Sabiam que Enquanto Somos Jovens estreou nos cinemas brasileiros no mês passado? Pois é. Em parte por ter chegado aqui via uma distribuidora pequena (Mares Filmes), em parte pela grande concorrência de blockbusters como Jurassic World, o fato é que este foi um filme que passou desapercebido em território nacional.

Mas valia a pena tê-lo assistido? Não muito. Apesar de nomes famosos como Ben Stiller, Naomi Watts e Amanda Seyfried, Enquanto Somos Jovens não engrena. Pelo próprio nome do filme, e pelos trailers, o suposto tema do filme é do casal quarentão Josh e Cornelia (Stiller e Watts), desiludidos com o rumo de suas próprias vidas, conhecerem e se encantarem com um casal hipster de vinte e poucos anos: Jamie e Darby (Adam Driver, Amanda Seyfried). Assim, o casal "velho" passa a se comportar como jovens descolados.

E, de fato, este é o tom do filme em seu começo. Entretanto, esta premissa não é bem explorada: mais passamos o tempo conhecendo os personagens e seus universos do que propriamente vemos discussões a respeito do amadurecimento e do choque de gerações. E nisto de conhecermos os personagens, aprendemos que Josh é um cineasta fracassado, apaixonado por documentários, mas que está há 8 anos sem lançar nada, trabalhando de maneira preguiçosa em sua "grande obra".

É então que o foco do filme passa a ser a carreira do personagem de Stiller. Se por um lado com isto o filme ganha dramas e reviravoltas bem mais interessantes, por outro, esquece-se a trama vendida, e todos os demais atores. Sim: é um filme de Stiller e, como sempre, ele é irritante e sem carisma.

O tema de "adultos versus adolescentes" só é retomado na conclusão do filme, onde - ó, que surpresa - o casal mais velho entende que amadurecer faz parte da vida. De novidade mesmo, é que o diretor e roteirista Noah Baumbach não alivia para os hipsters: os mesmos são apresentados como pessoas rasas e nada espontâneas.

Baumbach, que também possui a mesma idade de "quarenta e poucos anos" dos protagonistas, é mais conhecido como roteirista do que diretor. Ele co-roteirizou dois filmes (A Vida Marinha com Steve Zissou (2004) e O Fantástico Sr. Raposo (2009)) do ótimo Wes Anderson. Mas mesmo esta sua maior carreira no roteiro não foi suficiente para ele entregar um bom roteiro em seu próprio filme. Em geral expositivo, seu texto alterna entre monotonia e alguns trechos interessantes. É pouco. Nota: 5,0

terça-feira, 30 de junho de 2015

Crítica - Timbuktu (2014)

Título: Timbuktu ("Timbuktu", França / Mauritânia, 2014)
Diretor: Abderrahmane Sissako
Atores principais: Ibrahim Ahmed, Abel Jafri, Toulou Kiki
Trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=e6fdNIQPktY
Nota: 8,0

Triste contemplação da intolerância religiosa

Com indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2015, o filme Timbuktu do diretor mauritânio Abderrahmane Sissako é outro que agradou bastante a crítica especializada e ganhou diversos prêmios importantes em festivais ao redor do mundo.

Na história vemos a ocupação da histórica cidade de Timbuktu, em Mali, por um grupo jihadista - fato que de realmente ocorreu em 2012 (a cidade foi libertada cerca de 9 meses depois). O primeiro diferencial em Timbuktu é que nele já não temos mais guerra; no início da história a cidade já está dominada e seus habitantes de maneira razoavelmente resignada, já se acostumaram com a situação.

Corretamente Timbuktu não critica as religiões, e sim, seus extremismos. A população original de Timbuktu já é, em boa parte, islâmica. Mas mesmo partilhando dos mesmos credos, eles sofrem bastante nas mãos dos radicais. O próprio filme mostra sutilmente o quão absurdas são algumas das reivindicações, como por exemplo, o que a proibição de mulheres exibirem as mãos e pés em público representa para uma jovem que trabalha limpando peixes, e obviamente não pode usar luvas para isto.

Sutileza, aliás, é uma boa palavra para Timbuktu. Ele é um filme lento, são raras as cenas de ação ou violência explícita. Mas ao mesmo tempo toda opressão está lá, nos diálogos, em belas cenas simbólicas, como por exemplo, crianças jogando futebol com uma bola imaginária, já que não lhes é permitido praticar esportes.

Outro aspecto diferente é que jihadistas aparecem mais humanizados. Em alguns momentos, vemos eles se questionando se o que estão fazendo está correto. Outro exemplo: um de seus líderes do grupo, Abdelkerim (Abel Jafri), claramente deseja Satima (Toulou Kiki), mas como ela é casada com Kidane (Ibrahim Ahmed), ele a deixa em paz, não querendo infringir nenhuma lei. Mas mesmo Abdelkerim não segue sempre "as leis": em outro momento, o vemos  fumando escondido - já que fumar também é proibido por eles - sendo este mais um exemplo de contradição e hipocrisia que temos no enredo.

A família de Kidane e Satima protagoniza uma subtrama que liga as partes do filme, mas que curiosamente não tem tanto a ver com assuntos religiosos. Ao ter uma de suas vacas mortas, Kidane vai tirar satisfação com o culpado e... bem, não vou contar o que acontece, mas o fato é que tudo o que acontece depois é reflexo de uma infeliz combinação de ódio e falta de diálogo. Um mal que atinge toda a humanidade cada vez mais, dia após dia.

Timbuktu deixa nos deixa uma mensagem forte: religião - independente de qual - não é o problema. O problema é a maneira que os homens a distorcem a seu favor em nome da violência. Melhor ainda: o grande problema é a falta de compaixão. É uma mensagem até "clichê", embora uma enormidade de pessoas não a entendam. E o grande mérito de Timbuktu é transmitir estas idéias de maneira diferente, contemplativa, através de belas paisagens, cenas emblemáticas e marcantes que são pura poesia. Nota: 8,0

sábado, 27 de junho de 2015

Crítica - Minions (2015)

TítuloMinions ("Minions"EUA, 2015)
Diretores: Kyle Balda, Pierre Coffin
Atores principais (vozes): Pierre Coffin, Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Allison Janney, Geoffrey Rush
Trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=ly-GueGW3_s
Nota: 6,0

Ainda que muito divertidos, os Minions mereciam ser melhor aproveitados

Os simpáticos Minions apareceram pela primeira vez em 2010, como coadjuvantes do divertido Meu Malvado Favorito, e rapidamente ganharam o carinho do público. A continuação do filme original, Meu Malvado Favorito 2 (2013), foi bem inferior, mas ainda sim, um bom entretenimento... justamente graças aos Minions, que roubaram a cena! Portanto, por mais caça-níquel que possa parecer, até mesmo eu considerei justo os divertidos baixinhos amarelos receberem seu próprio filme.

E enfim, o protagonismo dos Minions aconteceu. Co-dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin (o primeiro, novo na franquia; o segundo, diretor dos dois Meu Malvado Favorito e, ainda, que fez as vozes dos Minions em todos os filmes, inclusive este), apesar de ser bastante divertido, Minions não traz um roteiro bom o suficiente para explorar todo o potencial das atrapalhadas criaturinhas.

Minions começa bem. Ao estilo "documentário de ciência", um narrador apresenta as origens dos amarelinhos, desde o surgimento da vida, passando por dinossauros, até os tempos atuais. Eles possuem um único grande desejo comum: servirem ao mais malvado "chefe" de sua época. Desta maneira, os vemos servindo um tiranossauro rex, faraós, Drácula, Napoleão Bonaparte... até chegarmos ao "hoje", que no caso do filme, é 1968.

Toda esta sequencia de "a evolução dos Minions ao longo da história" - que aliás, é uma das promessas do filme - é divertidíssima. Porém, não dura nem 5 minutos... fora o fato de que a maioria de suas cenas já estarem presentes no trailer. Então, chegamos a história do restante do filme, que é de três Minions (Kevin, Stuart e Bob), que saem ao mundo em busca da maior vilã da época, Scarlett Overkill.

É aí que Minions enfraquece. Sem nenhum carisma, tanto Scarlett quanto qualquer outro personagem humano do filme não empolgam em nenhum momento. A trama principal - de ajudar Scarlett a roubar a coroa da rainha inglesa - é bem desinteressante. Não há nenhum "ponto alto", tudo transcorre de maneira burocrática. Não que o filme não seja bastante engraçado e divertido. Ele é. Na verdade, há várias piadas espalhadas ao longo de toda a história; algumas não tão boas, mas outras, realmente ótimas (as com o rato, a com o globo de neve... são geniais). Confesso ter gargalhado em vários momentos ao longo de toda a projeção. O problema é que todas estas ótimas cenas não possuem ligação com a trama principal. É como se tivéssemos ótimas esquetes cômicas espalhadas pelo filme com um "algo" ligando todas elas. É neste "algo" que Minions decepciona.

Outro ponto que decepciona um pouco é que o filme é menos "louco" do que o esperado. Com o foco sendo dado em apenas três Minions, e não no grupo todo, temos uma espécie de road movie de família, onde Kevin é o "pai", Stuart é o "adolescente rebelde", e Bob é a criança. Esta estrutura faz com que apenas Bob seja verdadeiramente aquele carinha absurdamente louco, insano, empolgado e fofo que todo Minion deveria ser. Principalmente Kevin, é bem mais comportado que os demais.

A ambientação dos anos 60 funciona bem no filme. Com várias referências históricas, e boa representação visual daquela época, esta sensação de viagem no tempo é reforçada por uma ótima trilha sonora, da qual fazem parte músicas clássicas de The Beatles, The Doors, The Who, dentre outros.

Para quem gosta dos Minions (e tem como não gostar deles?), vale a pena assistir seu primeiro filme: as risadas estão garantidas. Entretanto, o encerramento também transmite um ar de frustração: ele poderia ser muito mais engraçado. Será que os Minions só se desenvolvem bem em pequenas participações como coadjuvantes? Espero que não. E daqui alguns anos poderemos ter esta resposta. Certamente Minions ganhará continuação. Nota: 6,0

PS: o engraçadíssimo idioma falado pelos Minions (que felizmente não são traduzidos), é na verdade uma enorme mistura de palavras básicas do francês, inglês, italiano, espanhol e um pouco de japonês. Criada pelo diretor/animador/dublador francês Pierre Coffin, ao contrário do que aconteceu com outros idiomas fictícios, como por exemplo o Klingon (Star Trek) e o Na'vi (Avatar), o "Minionês" não foi levado a sério por seu criador. Não há um "dicionário" sobre a língua. Tudo foi feito de improviso, mas o resultado não deixa de ser sensacional.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Crítica - Mortdecai: A Arte da Trapaça (2015)

TítuloMortdecai: A Arte da Trapaça ("Mortdecai", EUA / Reino Unido, 2015)
Diretor: David Koepp
Atores principais: Johnny Depp, Gwyneth Paltrow, Ewan McGregor, Paul Bettany
Trailerhttps://www.youtube.com/watch?v=dzJOiP7UMPo
Nota: 6,0

Atores fazem a diferença tornando esta comédia agradável

Mortdecai: A Arte da Trapaça mal havia sido lançado e os críticos ao redor do mundo já faziam questão de massacrá-lo, anunciando em manchetes que Johnny Depp não é mais o mesmo, sendo este seu 3º fracasso consecutivo (aliás, o maior fracasso de bilheteria de sua carreira).

Exagero. É verdade que Mortdecai: A Arte da Trapaça está bem longe de ser um grande filme, mas ainda sim, consegue divertir em alguns momentos, o que já o torna melhor do que várias "comédias" fracas que saem por aí.

Baseada na série de livros de mesmo nome do britânico Kyril Bonfiglioli, conhecemos aqui Charles Mortdecai (Johnny Depp), um negociante de artes endividado e não muito honesto. Após um quadro valiosíssimo ter sido roubado, ele é ameaçado pelo Inspetor Martland (Ewan McGregor) para que o ajude a recuperar a peça. Sem saída, e ao mesmo tempo com esperança de ter parte da dívida perdoada, o excêntrico Mortdecai aceita a aventura.

Fazendo o papel de um lorde britânico rico e extremamente mimado (que nunca fez esforço físico na vida), ao investigar um crime o Mortdecai de Depp lembra um bocado o Inspetor Clouseau da franquia A Pantera Cor de Rosa. Assim como o francês, Mortdecai é acompanhado por um assistente que está sempre salvando o "patrão" de suas trapalhadas (e pagando fisicamente por isto), que neste caso, é o seu criado pessoal Jock (Paul Bettany).

Completando o quarteto de atores principais, ainda há a esposa de Charles, Johanna (Gwyneth Paltrow), que tem tanto seu marido quanto o policial Martland a seus pés.

A trama de Mortdecai: A Arte da Trapaça é bem fraca. Mas é a relação entre Depp, Paltrow, McGregor e Bettany que salva o filme. Seus personagens - todos bastante caricatos - são carismáticos e engraçados. E principalmente no caso de Johnny Depp, não dá para deixar de reconhecer que o ator desta vez se esforçou mais em sua atuação, e enfim volta a trazer algumas caretas diferentes do pirata Jack Sparrow. Os quatro conseguem entreter bem o público com a interação entre eles durante quase todo o filme, tornando-o bem agradável. A exceção fica para a parte final, exageradamente longa e monótona.

Voltando a comparar Mortdecai com Pantera Cor de Rosa, o primeiro possui menos cenas de ação que o segundo, além de serem menos inspiradas também. Ação não é o forte de Mortdecai, e nem a trilha sonora, totalmente inexpressiva. Talvez com um diretor melhor que David Koepp, o filme teria se desenvolvido melhor nestes dois quesitos.

Resumindo, se você gosta dos maneirismos de Johnny Depp, Mortdecai: A Arte da Trapaça não vai decepcionar. Muito longe de ser uma grande comédia, pelo menos, seus atores garantem alguns sorrisos. Nota: 6,0.

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