terça-feira, 5 de abril de 2022

Dupla Crítica Filmes Netflix - O Projeto Adam (2022) e A Bolha (2022)

Mais dois filmes lançados bem recentemente na Netflix cuja crítica trago aqui no Cinema Vírgula.  Ambos misturam ação, comédia e vários atores famosos. Mas serão idênticos também em qualidade? Leiam abaixo para descobrir a resposta!



O Projeto Adam
 (2022)
Diretor: Shawn Levy
Atores principais: Ryan Reynolds, Walker Scobell, Mark Ruffalo, Jennifer Garner, Catherine Keener, Zoe Saldaña, Alex Mallari Jr

Não vejo nada demais em Ryan Reynolds como ator, mas quando ele fez Deadpool em 2016 sua carreira mudou totalmente. Meio que misturando a vida real com a ficção, desde então Reynolds passou a fazer apenas filmes de ação misturado com comédia, e mais ainda, passou a entregar sempre produções bem divertidas. É uma fórmula que pelo jeito ainda renderá vários frutos e está longe de se desgastar. Por exemplo, ano passado ele lançou o bom Free Guy: Assumindo o Controle, e depois Alerta Vermelho, um filme bem meia boca, mas que ainda assim também diverte bastante. E 2022 começa com outra comédia de ação de Ryan, O Projeto Adam. Mais uma vez, diversão garantida.

A história de ficção científica e viagem no tempo começa em 2050, onde vemos Adam (Reynolds) voltando do futuro para 2022 em uma missão misteriosa. Mas algo dá errado e ele acaba precisando de sua versão de 12 anos (Walker Scobell) para completá-la. A história então "brinca" com a relação e traumas do Adam adolescente e adulto com eventos relacionados aos seus pais (interpretados por Mark Ruffalo e Jennifer Garner).

Ainda que não seja o foco de O Projeto Adam, o filme traz efeitos especiais bem interessantes e respeitáveis. Como disse antes, a história está mais interessada no relacionamento entre os personagens, e misturando drama com humor (e várias referências a cultura pop), resulta em uma produção que se não é brilhante nem original, pelo menos emociona e diverte.

Ah, e para quem não entendeu a piada (muito boa, aliás) da camiseta que tem uma foto do Nicolas Cage mas com o nome John Travolta embaixo, trata-se de uma referência ao bom filme de ação A Outra Face, de 1997. Nota: 7,0.



A Bolha
 (2022)
Diretor: Judd Apatow
Atores principaisKaren Gillan, Iris Apatow, Fred Armisen, Maria Bakalova, David Duchovny, Keegan-Michael Key, Leslie Mann, Kate McKinnon, Pedro Pascal, Guz Khan, Peter Serafinowicz

Filme que estreou mundialmente neste 1º de Abril, A Bolha é uma comédia com elenco numeroso, estrelando dezenas de atores e comediantes famosos, e como se isso já não bastasse a produção ainda acrescenta algumas participações especiais, como a dos atores James McAvoy, Daisy Ridley e John Cena, e o cantor Beck dentre outros.

Geralmente um filme não encontraria espaço para tanta gente na tela, e o problema deste A Bolha é justamente o contrário: ele dá minutos para todos. Portanto, para ter cenas de todos seus personagens, a produção é desnecessariamente longa, desconexa, e com graves problemas de ritmo.

Na história, a maior parte do elenco são atores de uma famosa franquia de ação, a fictícia "Feras do Abismo" e eles estão "presos" dentro de um estúdio durante a fase mais grave da pandemia de Covid-19 para gravar o sexto filme da série. A comédia faz piadas sobre como os atores são "mimados" e deslocados do mundo real, além de piadas sobre a indústria do entretenimento como um todo, e de eventuais absurdos no combate à pandemia.

E olha, algumas piadas são até engraçadas - dei algumas risadas - e o carisma do elenco ajuda. Porém temos muitas piadas e cenas praticamente idênticas repetidas o tempo todo à exaustão, o que faz de A Bolha algo que vai muito mais pro chato do que pro divertido. Uma pena, já que gosto de Karen Gillan e ela - que seria o mais próximo de uma protagonista deste filme - merecia algo de mais qualidade para demonstrar seu talento de atriz. Nota: 5,0.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Dupla Crítica Filmes Netflix - Sorte de Quem? (2022) e O Páramo (2021)

Bom dia, boa tarde, boa noite. Tudo bem? Trago mais duas críticas de filmes de dois lançamentos originais Netflix deste ano de 2022. O primeiro deles aliás é recente, estreou em terras brasileiras mês passado, em Março. Confiram!



Sorte de Quem? (2022)
Diretor: Charlie McDowell
Atores principais: Jason Segel, Lily Collins, Jesse Plemons, Omar Leyva

Mais um filme original Netflix que aposta em atores famosos para fazer sucesso, Sorte de Quem? é um drama policial que nos mostra um ladrão interpretado por Jason Segel furtando tranquilamente uma casa de férias de um rico casal interpretado por Jesse Plemons e Lily Collins. Porém, quando a dupla aparece de surpresa na casa e pega o personagem de Jason em flagra, ele acaba transformando o casal em reféns, e tudo começa a fugir rapidamente de controle.

A história começa interessante e com um clima mais de nonsense do que de drama ou violência. Entretanto, ao longo do tempo isto não muda, e temos muita repetição dramática na tela. Na verdade acabamos presenciando um filme de suspense que ao mesmo tempo é tão "anti-suspense" que a maior dúvida que o espectador tem enquanto o assiste é se teremos ou não alguma surpresa no final. Felizmente a surpresa é entregue, e de maneira condizente com o que o filme apresentou. Porém, muito pouco para "salvar" dezenas de minutos da trama que foram pura enrolação. Apenas a personagem de Lily Collins recebe um desenvolvimento interessante, assim como também é ela quem entrega a melhor atuação.

Sorte de Quem? até não é ruim, mas seria muito melhor se tivesse 30 minutos a menos e se Jason Segel tivesse uma atuação mais enérgica. Ah, e mais uma vez os tradutores do título do filme erraram feio... O título original "Windfall" é uma gíria para "grande quantidade de dinheiro recebido de maneira inesperada", e faz muito mais sentido aqui. Nota: 6,0.



O Páramo (2021)
Diretor: David Casademunt
Atores principaisInma Cuesta, Roberto Álamo, Asier Flores, Alejandra Howard

Filme espanhol de terror que mistura temas como o horror da guerra, terror sobrenatural, paranóia, e as consequências de alimentar seu medo interior. A história nos mostra a família do menino Diego (Asier Flores), que vive com seu pai (Roberto Álamo) e sua mãe (Inma Cuesta) no campo. A história se passa no século XIX, e a família mora isolada de tudo e todos para fugir de qualquer conflito armado.

Com ótima fotografia e com cenas de suspense muito bem construídas, O Páramo entretanto peca por não variar nas maneiras em que traz tensão e terror ao longo do filme. Por não se aprofundar muito nem na mitologia criada dentro do universo do filme, ou na história de seus personagens, O Páramo não tem uma história muito interessante para contar, e como resultado apesar da boa produção acaba sendo apenas mediano. Os maiores destaques ficam mesmo pela ambientação trazida e a atuação de Inma Cuesta. Nota 5,0.

domingo, 27 de março de 2022

Curiosidades Cinema Vírgula #009 - Tudo sobre a estatueta do Oscar!

Hoje é dia da cerimônia dos Oscars 2022, onde literalmente centenas de pessoas estarão disputando a honra de levar para casa sua cópia da tão sonhada estatueta da foto acima. Momento melhor para aprendermos tudo sobre este tão cobiçado objeto não há, não é mesmo? Então bora conhecer.

  • Presente desde a primeira cerimônia, o nome oficial da estatueta é Academy Award of Merit, sendo que seu nome foi oficialmente aceito como Oscar em 1939. Sua imagem foi criada por Cedric Gibbons, então diretor de arte da MGM, e esculpida pelo artista George Stanley.
  • O prêmio mede cerca de 34 centímetros de altura e pesa cerca de 3,8 quilos. Desde sua primeira aparição em 1929 ele não sofreu alterações, com exceção de sua base que sofreu leves mudanças de forma e tamanho até 1945, quando se chegou no formato atual.
  • A imagem retrata um cavaleiro medieval (que representaria os valores da Indústria do Cinema) empunhando uma espada e em pé sob um rolo de filme com cinco raios. Estes representam os ramos originais da Academia: Atores, Escritores, Diretores, Produtores e Técnicos.
  • Em seus primeiros anos, as estátuas eram de bronze sólido e banhadas a ouro, porém logo seu material foi substituído por uma liga de metal banhada a ouro, formato que permaneceu por muitas décadas... até um recente 2016, quando a Academia resolveu retornar o bronze como principal material da estatueta. Curiosidade: durante a Segunda Guerra Mundial a escassez de metais fez com que por três anos os vencedores do Oscar recebessem estatuetas de gesso. Alguns anos após a guerra, a Academia se propôs a trocar as estátuas dos vencedores pelos prêmios de metal banhados a ouro tradicionais.
  • Em alguns anos dentro do intervalo entre 1935 e 1961, doze atores receberam o prêmio especial Academy Juvenile Award, ou "Oscar Juvenil", um prêmio honorário a quem "contribuiu excepcionalmente para o cinema com menos de 18 anos". E o vencedor levava para casa uma bizarra estatueta versão miniatura do Oscar!! Dentre os vencedores do prêmio tivemos Shirley Temple, Mickey Rooney e Judy Garland. A foto abaixo mostra Judy segurando sua cópia da estranha premiação, com Mickey Rooney ao seu lado.
  • Não há uma explicação oficial do porquê o Oscar tem este nome, embora existam três versões concorrendo. A primeira e mais conhecida vêm de Margaret Herrick, então bibliotecária da Academia, que ao ver a estatueta pela primeira vez disse que ela se parecia com seu "Tio Oscar", um de seus primos. Já a atriz Bette Davis relatou outra história, e em sua versão a estátua ganhou esse nome pois ela a fazia se lembrar de seu marido Harmon Oscar Nelson Jr saindo do banho. Finalmente, o jornalista Sidney Skolsky também diz ser o "criador" do nome Oscar, inspirado em um antigo bordão "Will you have a cigar, Oscar?". Embora seja a versão menos provável das três, o fato é que foi em um artigo de 1934 de Sidney que o termo "Oscar" foi publicado pela primeira vez na história como sinônimo do famoso prêmio da Academia.
  • O vencedor do Oscar não pode vender sua estatueta. Ou melhor, pode: a Academia obriga que os vencedores assinem um contrato que exige que eles ofereçam a estatueta à Academia por US$ 1,00 (um dólar!) antes de vendê-la a qualquer outra pessoa. Se você não assinar o acordo, nada de levá-lo pra casa! A regra vale "apenas" para os prêmios a partir de 1950, respeitando a data em que ela entrou em vigor.
  • A regra acima foi criada para que não exista um mercado de pessoas lucrando com a premiação, mas ela não impediu a continuação das já existentes (e muitas) transações para as estatuetas anteriores à 1950: o ilusionista David Copperfield por exemplo pagou US$ 232 mil pelo Oscar de Melhor Direção de Casablanca (1944), e 10 anos depois o vendeu por mais de US$ 2 milhões; Michael Jackson comprou o Oscar de Melhor Filme de E o Vento Levou (1939) por US$ 1,5 milhão; infelizmente após sua morte o paradeiro da peça é desconhecido.
  • Já Steven Spielberg seguiu o caminho "contrário" deste mercado e em pelo menos três vezes "resgatou" estatuetas antigas em leilões, comprando-as para posteriormente doá-las para a Academia. Ele fez isso com um Oscar de Melhor Ator de Clark Gable (de 1934) e com dois Oscars de Melhor Atriz de Bette Davis, um de 1935 e outro de 1938. O total do dinheiro gasto pelo diretor nestas compras supera um milhão de dólares (e relembro que Bette Davis é justamente uma das três pessoas que dizem ter dado o nome de Oscar à estatueta).
  • E a regra "anti-venda" também não impediu o mercado ilegal. A revista Forbes publicou uma matéria em 2006 estimando que cerca de 75 Oscars pós-1950 haviam sido vendidos ilegalmente até então.
  • Em 2000, todas as 55 estatuetas encomendadas para o prêmio daquele ano foram roubadas no porto de Los Angeles, antes mesmo de desembarcarem. Dias depois elas foram encontradas abandonadas em uma lixeira próxima.
  • O compositor Oscar Hammerstein II foi a primeira pessoa - e até hoje a única - de nome Oscar a receber um prêmio Oscar da Academia. Foram duas vezes, e faz muito tempo! A primeira vez em 1942 e a segunda em 1946.
  • E por falar em nomes, sabiam que todos Oscars entregues no palco permanecem totalmente sem nome? Isto é feito para garantir o segredo dos vencedores antes que os apresentadores os revelem de dentro dos envelopes. São criadas as plaquetas para todos os nomes finalistas e, somente após a cerimônia os vencedores pegam sua plaqueta e a colam no seu troféu.

Ufa! Enfim acabou! Agora bora assistir o Oscar de hoje!




PS: Já viu as outras curiosidades do Cinema Vírgula? É só clicar aqui!

sábado, 26 de março de 2022

Crítica - Drive My Car (2021)

Título: Drive My Car ("Doraibu Mai Kâ, Japão, 2021)
Diretor: Ryûsuke Hamaguchi
Atores principaisHidetoshi Nishijima, Toko Miura, Masaki Okada, Reika Kirishima, Park Yoo-rim, Jin Dae-yeon
Nota: 6,0

Difícil para assistir, emocionalmente recompensador em seu final

Encerrando minhas críticas da safra de filmes do Oscar antes do acontecimento da premiação acontecer, desta vez escrevo sobre Drive My Car, filme japonês indicado a 4 Oscars, incluindo o de Melhor Filme. A trama é uma adaptação de uma história de mesmo nome de uma coletânea de contos do livro Onna no Inai Otokotachi, escrito em 2014 por Haruki Murakami. Estes contos possuem um tema em comum, que são homens que perderam suas mulheres, sejam por que elas o trocaram por outro ou porque faleceram.

Nesta história conhecemos o casal Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), ator, e sua esposa Oto Kafuku (Reika Kirishima), roteirista. Percebemos que ambos se dão bem, vivem a princípio felizes, mas algo aparenta estar errado e em um primeiro momento não sabemos o porquê. Após o repentino falecimento de Oto, o filme avança 2 anos e encontramos Yusuke contratado como diretor de uma futura peça de teatro em um importante festival; ele trabalha com a jovem Misaki (Toko Miura), que é sua motorista para levá-lo do hotel ao trabalho, e com o tempo ambos acabam se tornando amigos, e discorrendo sobre suas respectivas dores do passado. É assim que as respostas são então reveladas.

Drive My Car tem sem dúvida uma história muito bonita e emocionante. A história de vida de Yusuke, Misaki, e até de outros personagens menores é bem comovente. O próprio desfecho do filme é belo e marcante. Dito tudo isso, a maneira com que o filme foi contado não me agradou.

Isso porque Drive My Car é bem difícil para se assistir. É um filme lento, com 3h de duração, praticamente sem trilha sonora, repleto de diálogos e inicialmente bem confuso. Apenas na metade do filme, ou seja, com pouco menos de 1h e 30 min, é que Yusuke e Misaki começam a verdadeiramente se interagir e a história começa a fazer sentido como um todo. Isso sem contar que temos muitas cenas de ensaio e produção da peça de teatro... são cenas longas e repetitivas que se fossem removidas não fariam falta nenhuma ao enredo... só estão aí para testar a paciência do espectador.

Outro ponto que me incomoda são inclusões feitas no filme que eu interpreto terem como maior objetivo de agradar os festivais ocidentais, principalmente o Oscar (e se foi isso mesmo, funcionou como se pode ver...): a presença de falas em vários idiomas (e vários em inglês), ou a de uma personagem muda. Não, eu não li o conto original que deu origem ao filme; mas li sua sinopse e pelo que tudo indica estes elementos não estão mesmo lá. Aliás, relembro a vocês que a obra original é um conto, ou seja, um texto curto, e para dele se criar 3h de filme certamente temos muita coisa inventada.

Mas como disse no subtítulo deste texto, o final de Drive My Car é tão tocante que é recompensador. Portanto, é mais uma questão de se preparar para o que você vai assistir. Se você está disposto a encarar mais de uma hora de pura monotonia para depois se emocionar e ter algumas surpresas, Drive My Car vale a pena. Eu certamente não me arrependi de tê-lo assistido. Nota: 6,0.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Crítica - Batman (2022)

Título: Batman ("The Batman", EUA, 2022)
Diretor: Matt Reeves
Atores principaisRobert Pattinson, Zoë Kravitz, Colin Farrell, Jeffrey Wright, Andy Serkis, John Turturro, Peter Sarsgaard, Paul Dano
Nota: 8,5

Um Batman verdadeiramente diferente, e por isso merece ser assistido

Depois de muita expectativa (e um pouco de controvérsia) é lançado o Batman do "vampiro"  Robert Pattinson. Particularmente, depois de tantos filmes já lançados do Morcegão, me questionava se não era uma atitude precipitada já lançar um novo reboot do personagem nas telonas. E a resposta, felizmente, é um não: este novo Batman traz novidades em muitos sentidos, atualiza o herói para a nova geração, e é uma grande contribuição (e recomeço) na mitologia deste personagem nos cinemas.

Na história deste Batman, que é uma história de origem, vemos um Bruce Wayne (Robert Pattinson) que acaba de completar 2 anos atuando como Batman em Gotham City. Porém, frustrado e perdido, ele já pondera sobre a eficácia de suas ações, enquanto ao mesmo tempo surge na cidade um serial killer que se intitula Charada, que começa a matar políticos e policiais importantes. Em suas investigações, Batman acaba contando com a ajuda de pessoas como Selina Kyle (Zoë Kravitz) e o policial "Jim" Gordon (Jeffrey Wright), aprendendo segredos obscuros sobre Gotham e até sobre sua família, enquanto se descobre como pessoa e herói.

A trama trazida pelo diretor e co-roteirista Matt Reeves mistura com bastante eficiência e coesão várias histórias em quadrinhos, dentre as principais: Batman: Terra Um (maior referência, e que aliás não é considerada cânone das HQs), Batman: O Longo Dia das Bruxas e Batman: Ano Um (destes dois vêm principalmente a ambientação e os personagens). E não só isso! A história também mistura / homenageia vários filmes, como por exemplo Zodíaco (2007), Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995) e Taxi Driver (1976).

O personagem Batman - criado em 1937 - mudou muito ao longo das décadas. E este Batman de Matt Reeves segue a tendência das últimas décadas de ser alguém sombrio e violento. Porém não é "a" versão mais violenta e sombria que já tivemos nos filmes; mas certamente é a versão mais melancólica de todas. Além de (finalmente!) termos pela primeira vez nos cinemas um Batman detetive!

Sim, pois na prática nada mais temos que um policial buscando pistas em busca de um assassino em série que, seguindo o costume, deixa "pistas" de suas intenções ou paradeiro. E mais ainda, este Batman de Robert Pattinson é também a versão mais realista já trazida para as telonas: o personagem erra várias vezes, apanha bastante, e principalmente, não conta com nenhum grande aparato tecnológico.

E se o personagem Batman trazido aqui é diferente das outras versões de todos os filmes anteriores, a maneira com que ele é filmado também. Em Batman a câmera está quase sempre bem perto do herói, é quase como se estivéssemos ao seu lado o tempo todo dividindo com ele sua visão e pensamentos. Nas poucas vezes que isso muda, e então temos filmagens com planos mais abertos, os ângulos das câmeras são um pouco "incomuns", em geral capturando as cenas de cima pra baixo, como se fossem nos jogos de videogames. Aliás, há um bocado dos videogames atuais de Batman neste filme: da maneira com que as lutas são coreografadas até a sua vestimenta; afinal, o fato do Morcegão vestir uma armadura é algo muuuito mais presente em jogos do que nas HQs.

A história em Batman não parou nas mudanças apenas em seu personagem principal e também mudou vários personagens, como por exemplo a Mulher Gato, o Comissário Gordon, o próprio Charada... porém o mais importante é que em todos esses casos a essência dos personagens está lá, intacta (fora os atores estarem muito bem). Sinceramente não vejo nenhum motivo de reclamação nessas mudanças. Ou melhor, vejo uma, em relação ao Alfred, que aqui não é um mordomo e sim um guarda-costas: é a única modificação do filme que realmente reprovo e a meu ver distorce algo central de um personagem.

Outro ponto positivo importante deste filme é que mesmo sendo um filme de origem, ele apresenta Gotham City e seus personagens de uma maneira bem natural, sutil, mas ao mesmo tempo eficiente. Não tem nada daquele costumeiro didatismo chato onde o roteiro fica explicando explicitamente coisas ao espectador. E mais ainda: não, não há cenas dos pais do Batman sendo mortos (milagre!)... todo mundo já sabe disso, então pra que colocar no roteiro novamente?

O filme tem quase 3 horas de duração e é tão bom - tanto como filme de ação como filme de drama e suspense - que nem vi a hora passar. Contribui com isso a boa fotografia (e a ótima aplicação da iluminação e sombras) e a ótima trilha sonora, que apesar de um pouco pesada e repetitiva, deixa o espectador dentro do universo do filme o tempo todo. Faço questão de mencionar seu compositor: Michael Giacchino.

Mas apesar de tantas qualidades e de um roteiro redondinho, Batman perde um pouco a mão em seu ato final. Se uma de suas maiores qualidades é ter sido o tempo todo "realista e pés-no-chão", em seus últimos 30 minutos o diretor joga um pouco disso fora, uma pena. E o curioso, entretanto, é que esse ato final teria que acontecer de alguma maneira, porque ele é essencial para concluir o ciclo de aprendizado do protagonista (lição aliás muito atual e importante no mundo de fanáticos extremistas atual). Em outras palavras, o que acontece no ato final é dramaticamente imprescindível, porem para mim o diretor falhou ao não encontrar uma forma de apresentá-lo de um jeito mais crível.

E finalmente, o que falar sobre o tão questionável Robert Pattinson? Como Batman ele foi bem; mesmo bastante coberto pela máscara e armadura, com sua boa atuação e postura corporal conseguimos entender bem suas expressões e sentimentos. Já como Bruce Wayne... não gostei... temos aqui um Bruce "emo" e com atuação contida. De certa forma, é a pior maneira possível de retratá-lo já que reforça todo o estereótipo ganho por Pattinson fazendo o Edward da saga Crepúsculo. Só que acho que a escolha foi proposital... para agradar justamente o público que veio assistir ao filme por ser fã deste ator.

Batman é um filme que pela mistura de gêneros e diversas novidades deverá agradar tanto aos que curtem filmes de super-heróis quanto aos que curtem filmes policiais ou de suspense. E em nome das inovações, por favor, que um futuro Batman 2 NÃO traga mais uma vez uma história com o Coringa. Nota: 8,5.



PS: o filme possui uma "pequena" cena pós-créditos, que nada mais é que um texto escrito "Good bye", e após isso, a exibição do link https://www.rataalada.com/ , que realmente existe e te convida a responder 3 enigmas (em inglês). Acertando-os, você como brinde ganha acesso a algumas imagens extras. Nem vale a pena o esforço rs.

domingo, 13 de março de 2022

Crítica - O Beco do Pesadelo (2021)

Título: O Beco do Pesadelo ("Nightmare Alley", Canadá / EUA / México, 2021)
Diretor: Guillermo del Toro
Atores principaisBradley Cooper, Cate Blanchett, Toni Collette, Willem Dafoe, Richard Jenkins, Rooney Mara, Ron Perlman, Mary Steenburgen, David Strathairn, Holt McCallany, Tim Blake Nelson
Nota: 8,0

Um filme "clássico" com grande elenco e produção impecável

O Beco do Pesadelo é um filme Neo-noir dirigido, produzido e adaptado por Guillermo del Toro, baseado em um livro de mesmo nome escrito em 1947. Ele não chega a ser um filme noir "padrão" por não ser em preto-e-branco (embora seja bem escuro e com poucas variações de cores), e não ser uma aventura de detetive/policial (mas têm crimes envolvidos), mas certamente preserva muitas características deste subgênero de filmes, como o pessimismo e os personagens de caráter questionável. Para quem está acostumado com os filmes deste grande diretor mexicano (Hellboy, O Labirinto do Fauno, A Forma da Água), irá reconhecer de imediato seu estilo visual, mas irá estranhar a falta de elementos fantásticos.

Na história, que se passa em 1941, acompanhamos a vida de Stan Carlisle (Bradley Cooper), um "ninguém" que não tem nada e resolve começar sua vida trabalhando em um circo itinerante. O filme se divide em duas partes: a vida de Stan no circo, onde ele conhece e se apaixona por Molly (Rooney Mara) e começa a aprender truques de Mentalismo; e a parte final, onde ele e Molly deixam o circo e saem em tour pelos EUA para viver dos seus truques. É em uma destas viagens que Stan conhece a psicóloga Lilith Ritter (Cate Blanchett), que o ajuda a tornar seus "golpes" mais sofisticados e lucrativos.

Mesmo sendo um filme bom e interessante, entendo que o maior encanto em O Beco do Pesadelo vai para o cinéfilo, já que a produção é realmente espetacular. A fotografia é excelente, assim como o design de produção, a maneira com que a câmera passeia em meio dos personagens e objetos, apresentando-os. Tudo muito bom! Fora o verdadeiro desfile de vários atores e atrizes famosos; a lista é bem grande, e embora não tenhamos aqui nenhuma atuação de "tirar o fôlego", é um prazer ver que  temos várias boas atuações, e que todos os atores são bastante competentes e críveis no que fazem, especialmente a genial Cate Blanchett.

Mas apesar de tantas qualidades, e de um roteiro bem escrito, acredito que o espectador em geral não vá sair de O Beco do Pesadelo "bastante empolgado" com o que viu. A história é boa, mas é um bocado previsível, além de melancólica e demorada, sem qualquer alívio cômico ou ironia. Temos aqui um conto interessante, porém sem muita ousadia, e sem o dinamismo presente nos filmes de hoje no qual os espectadores estão acostumados. É como se um diretor e roteirista dos anos 50 pegasse um bom texto da época e filmasse com a tecnologia atual.

Em resumo, como história e diversão O Beco do Pesadelo é bom; e tecnicamente ele é ótimo. Fazendo um balanço entre estas duas coisas, e com meu lado cinéfilo sendo bem ouvido, o filme leva Nota 8,0.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Curiosidades Cinema Vírgula #008 - Entenda porque em Eu Sou a Lenda (filme de 2007) te contaram a história errada!

Tive a idéia de escrever este texto após a surpreendente notícia desta semana, que Will Smith e Michael B. Jordan irão atuar e produzir um novo filme de Eu Sou A Lenda. E tudo que vocês lerão a partir de agora terá grandes spoilers sobre o filme de 2007, portanto, só continue se você já tenha visto o filme antes.

Eu Sou A Lenda é sem dúvida um bom filme de suspense e ação. Mas seu final é bastante controverso (e ruim). Lembrem-se que nele o personagem de Will Smith (Robert Neville) se sacrifica. Então como ele poderá aparecer no novo filme? Seria através de flashbacks? Ou a história se passaria antes do evento do filme original?

Pois saibam que existe a chance de não ser nenhum dos dois: na verdade, este filme de Eu Sou A Lenda possui dois finais. Além do final "oficial" dos Cinemas, há o final alternativo presente no DVD. Nele, Will Smith não morre. Então talvez o novo filme passe a considerar esse final o "verdadeiro"?  Daqui uns anos saberemos...

Mas a questão principal é que, independente do final, em nenhum momento do filme há uma explicação do porquê ele se chama Eu Sou A Lenda. Pois bem, no livro de mesmo nome escrito por Richard Matheson em 1954, onde a história é contada originalmente, temos esta resposta de maneira bem explicita.

No livro, o personagem Robert Neville descobre nos capítulos finais que existem dois tipos bem distintos de infectados ("vampiros"): os "vivos" e os "mortos-vivos", sendo que o primeiro grupo ainda é bastante racional e não perdeu sua humanidade; estavam tentando retomar a vida normal e reconstruir a sociedade. E lembrem-se que Neville dedicava a sua vida em matar qualquer tipo de vampiro (mas sem saber distinguir ou ter consciência da diferença entre eles).

Pouco antes de morrer - sim, no livro Neville também morre - o protagonista avalia sua vida e conclui que para os infectados "vivos", ele - Neville - era um monstro; algo que os matava durante a noite enquanto dormiam. Para a nova humanidade que surgiu após a infecção da bactéria apocalítica, ele passou a ser o "bicho-papão"... seu nome seria usado em histórias para assustar as crianças futuras. No novo mundo que estava nascendo, os monstros e lendas mudariam... e então ele conclui, triste: "Eu sou a lenda", que são literalmente as últimas palavras que pensa antes de morrer.

Esta conclusão espetacular e arrepiante muda completamente a história de Eu Sou A Lenda que vimos o filme, pois afinal, o personagem de Will Smith não é o "mocinho", e sim o "vilão". O final alternativo presente no DVD até "lembra" um pouco dessa conclusão, ao mostrar um vampiro com sinais de racionalidade, e um Neville arrependido ao se deparar com isso. Ainda assim, é algo bem sutil e muito longe do desfecho sensacional do livro.

Quem quiser ver os dois finais do filme de 2007, clique aqui para assistir (está em inglês e sem legendas, porém são pouquíssimos diálogos).




PS: Já viu as outras curiosidades do Cinema Vírgula? É só clicar aqui!

Conheça Hitman - a HQ precursora de The Boys - que agora está completa no Brasil e é a verdadeira obra prima de Garth Ennis

O grande criador e roteirista de quadrinhos norte-irlandês Garth Ennis é mundialmente conhecido pelos seus trabalhos com Preacher , suas mar...