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domingo, 23 de novembro de 2025

Crítica Prime Video - Éden (2024)

Título
Éden ("Eden", EUA, 2024)
DiretorRon Howard
Atores principais: Jude Law, Ana de Armas, Vanessa Kirby, Daniel Brühl, Sydney Sweeney, Jonathan Tittel, Felix Kammerer, Toby Wallace
Nota: 7,0

Estrelado e com ótimas atuações, filme é baseado em bizarra história real

Lançado nos cinemas mundiais ano passado, Éden, o mais recente filme do prestigiado diretor estadunidense Ron Howard (já vencedor do Oscar pelo filme Uma Mente Brilhante) sequer chegou nos cinemas brasileiros, e por aqui estreou diretamente nos streamings, mês passado, via Prime Video.

A chocante história, que ocorre no início dos anos 1930, é baseada em fatos reais, onde um pequeno grupo de pessoas, por motivos diversos, decidiu recomeçar sua vida na ilha Floreana, a ilha mais ao sul do arquipélago vulcânico que conhecemos popularmente como Ilhas Galápagos, e que já se encontrava desabitada há décadas.

A trama começa com a família Wittmer chegando à ilha: Heinz (Daniel Brühl), Margret (Sydney Sweeney) e o filho Harry (Jonathan Tittel) perderam praticamente tudo e, inspirados pela história dos "heróicos aventureiros" Dr. Friedrich Ritter (Jude Law) e sua companheira Dore Strauch (Vanessa Kirby), que já estavam em Floreana há vários anos, resolveram começar uma nova vida por lá.

Todos eles eram alemães, mas mesmo assim, Friedrich não gostou nem um pouco de receber novos integrantes no local. O clima na ilha ficou tenso, mas ainda controlável. Porém tudo explodiu quando um terceiro grupo chegou: a Baronesa Eloise (Ana de Armas) com seus dois amantes / empregados Robert (Toby Wallace) e Rudolph (Felix Kammerer). A interação entre os três grupos iria escalar a tal ponto de tensão onde a história de Éden chegaria até a mortes.

Como ponto mais forte do filme, o elenco estrelar de Éden faz jus a sua contratação e temos ótimas atuações, só por isto valendo a pena assisti-lo. Os conflitos e clima de constante tensão e imprevisibilidade são mais destacados pelos atores do que pelo próprio roteiro.

O que sabemos hoje do que aconteceu na ilha provêm de 3 fontes: dos relatos de Dore Strauch, dos relatos de Margret Wittmer, e das cartas enviadas via correio por Friedrich Ritter (além, é claro, das evidências encontradas via investigações ao longo dos anos pós incidente). Claro que todos os relatos foram bem parciais e muita coisa ficou sem resposta; com isso, os roteiristas Noah Pink e o próprio Ron Howard, disseram que para escrever o roteiro "simplesmente juntaram todas as histórias para criar a única versão que faria sentido". Mas não é bem assim. E no "PS" ao final deste texto eu conto as maiores diferenças do que o filme conta e o que aconteceu na vida real.

De qualquer forma, em linhas gerais, Éden é bem fiel aos fatos verdadeiros dos fatídicos eventos ocorridos na ilha Floreana, e tudo o que aconteceu lá é perturbadoramente interessante. A lamentar, a escolha do diretor / roteirista de praticamente ignorar o desenvolvimento dos personagens, e focar quase em 100% neles fazendo maldades um com os outros. Isso deu mais espaço para os atores brilharem, porém, enfraqueceu a história, tirando dela seus detalhes, além de praticamente impedir a empatia do público com qualquer um dos humanos em tela.

É uma pena em que Éden fracassou absurdamente nas bilheterias, e os motivos disso foram vários: marketing e divulgação fracos, recepção apenas morna da crítica especializada, e chegada aos cinemas no auge da polêmica quanto ao (racista?) comercial de jeans estrelado por Sydney Sweeney para a marca American Eagle.

Pela enorme audiência que programas de "real crime" alcançam na TV e na Internet, mesmo não sendo literalmente deste gênero, Éden tem tudo para manter o interesse deste mesmo tipo de público, e mais ainda, de despertar o interesse nas pessoas que curtem "mistérios do passado", ou ainda, quem simplesmente gosta de ver grandes atuações. Em suma, Éden poderia e merecia um roteiro melhor, porém sua história real mais que se sustenta por conta própria, e seus atores justificam que ele mereça uma melhor chance. Nota: 7,0.

 

PS: as principais diferenças entre o filme e os fatos reais (são spoilers grandes do filme, leia por conta e risco)

As maiores diferenças são em relação ao "desaparecimento" da Baronesa Eloise e seu amante Robert. O filme mostra todos os homens restantes da ilha em grupo para matá-los, e posteriormente o Dr. Ritter enviando uma carta ao governador acusando Heinz Wittmer de ter assassinado o casal. Para começar, na vida real, esta carta não existiu... ou melhor, existiu, porém de modo diferente... Só depois de 6 meses após o sumiço de Eloise e Robert, foi então que o Dr. Ritter escreveu uma carta contando que a dupla havia desaparecido, mas que ele não pôde enviar a carta antes porque os Wittmer o haviam impedido.

Pelos relatos de Margret Wittmer, a Baronesa lhe disse que havia chegado em um iate para levá-la ao Taiti, e que ela deixaria seus pertences para Lorenz; já pela versão de Dore Strauch, ela comenta que na noite anterior ao desaparecimento ela ouviu um grito, e que não viu nenhum barco no dia seguinte, o que a fez suspeitar que ambos teriam sido assassinados pelo outro amante, Rudolf Lorenz. Hoje, a teoria mais "votada" pelos especialistas no caso é que este teria sido mesmo o ocorrido... Lorenz matado os dois e se livrado dos corpos.

Sobre a morte do Dr. Ritter, oficialmente ficou registrado que ele morreu por intoxicação alimentar e desidratação; mas teria sido ele "assassinado" de verdade por Dora? Não dá para saber. Nos relatos de Margret Wittmer há apenas uma leve indireta sobre isso. Ainda assim parece pouco provável que o Dr. Ritter real tivesse se deixado "enganar" daquele jeito. De qualquer forma, o filme não deixa isso claro, mas a Dora real já odiava Ritter quando as demais pessoas chegaram a ilha. E, de fato, as últimas palavras dele antes de morrer, segundo o livro escrito por Margret, foram realmente ele amaldiçoando Dore Strauch.

E finalmente, outra "mentira" que considero relevante, é que embora os 3 grupos se odiassem (e principalmente, que todos odiassem a Baronesa), não há nenhum relato de que ela mandava roubar provisões dos outros grupos, e que ficasse maquiavelicamente jogando um grupo contra o outro; de qualquer forma, alguns incidentes (como o da morte do burro), de fato aconteceram.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Crítica - O Agente Secreto (2025)

Título
: O Agente Secreto (idem, Alemanha / Brasil / França / Países Baixos, 2025)
Diretor: Kleber Mendonça Filho
Atores principais: Wagner Moura, Carlos Francisco, Tânia Maria, Robério Diógenes, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Roney Villela, Hermila Guedes, Isabél Zuaa, Laura Lufési, Thomás Aquino, Udo Kier, João Vitor Silva, Kaiony Venâncio, Alice Carvalho
Nota: 8,0

Kleber Mendonça Filho entrega seu melhor filme e de mais fácil recepção

E finalmente chegou aos cinemas brasileiros O Agente Secreto, nosso filme indicado para o Oscar 2026, e já vencedor de dois prêmios em Cannes 2025: o de Melhor Ator (Wagner Moura) e o de Melhor Diretor (Kleber Mendonça Filho).

Na história, que se passa em 1977, somos apresentados a Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que está retornando à sua cidade natal Recife após muitos anos, e aparentemente fugindo de algo. Porém este seu afastamento não foi suficiente, e ainda há pessoas querendo vê-lo morto...

Já adianto que o mais impressionante e elogiável de O Agente Secreto é seu roteiro, que consegue apresentar, de forma coerente e bem familiar para nós brasileiros, temas como corrupção na política, na polícia e dos empresários, pobreza, racismo, preconceito contra o nordeste, perseguição da ditadura militar, violência policial, complexo de vira-lata, memória, manipulação da verdade e folclore (ufa!) dentre outros temas. É muita coisa agrupada, e de forma magistral!

E a qualidade do roteiro não fica apenas em seus temas, mas também no que desperta no espectador, com direito a vários momentos bizarros e inesperados, e algumas grandes quebras de expectativas do público. O ápice destas "reviravoltas" acontecem na sequência de ação final do filme, cenas estas que talvez somente nós brasileiros conseguiríamos inventar.

Em termos técnicos, O Agente Secreto tenta reproduzir os anos 70, tanto em termos de fotografia (com cores mais "desgastadas") como na música e design de produção. A trilha sonora é muito boa, nacional, e na maioria das cenas combina muito bem com a ação da tela. Objetos e figurino não me impressionaram tanto... menos os carros, que são destaque: não pouparam esforços para colocarem Fuscas "de colecionador" no filme rs.

O Agente Secreto é facilmente o melhor filme de Kleber Mendonça Filho que assisti até hoje (os outros foram O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023)) e também, digamos, o menos "diferentão", sendo o mais fácil para ser aceito pelo público em geral. Mas apesar de ser um filme excelente, assim como todos os outros filmes de Kleber que acabo de citar O Agente Secreto também possui algumas imperfeições bem claras, que impedem de dar uma nota maior para esta produção.

Algo que me incomodou foram as constantes inserções de rápidas cenas de figurantes fazendo sexo, o tempo todo no filme, para efeito cômico. Precisava? Só para reforçar para os gringos o "clichê" de que aqui no Brasil tudo é uma "putaria"? Também são constantes as citações à filmes estadunidenses. Até imagino que isso tem um propósito claro de agradar a Academia. Mas é sério que precisava disso também? No atual momento político mundial?

Outro problema bem relevante é mais técnico: ao optar por colocar alguns personagens dos "dias de hoje" para interromper a narrativa, O Agente Secreto sofre com várias quebras de ritmo. Em algumas vezes até fazem sentido - para fazer o público respirar - mas na maior parte das incursões atrapalha, e acabam tirando o espectador de dentro do filme, além de que, a interrupção final é tão abrupta e acelerada que pode confundir (presenciei algumas pessoas da minha sessão que não entenderem o final da história).

E finalmente, a meu ver Kleber Mendonça Filho também costuma "divagar" em seus filmes e colocar cenas desnecessárias; O Agente Secreto é seu trabalho em que isso menos acontece, mas o problema está lá novamente. Também não há a necessidade, por exemplo, de tantos personagens, de vários diálogos, e consequentemente, de um filme com 2h e 40min de duração. A longa duração somada às quebras de ritmo "estranhas" tornam O Agente Secreto cansativo em alguns momentos.

Com muitas qualidades e alguns defeitos, O Agente Secreto funciona como uma genial cápsula do tempo, mostrando de maneira bem inusitada mas muito real os múltiplos problemas da sociedade brasileira nos anos 70 e se credencia para a inclusão para a lista de melhores filmes nacionais dos últimos tempos. Nota: 8,0.


Atualização: o ator alemão Udo Kier, presente tanto neste O Agente Secreto como também em Bacurau, faleceu neste 23 de novembro de 2025, aos 81 anos. As causas da morte não foram reveladas.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Crítica Netflix - Frankenstein (2025)

Título
: Frankenstein (idem, EUA / México, 2025)
Diretor: Guillermo del Toro
Atores principais: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth, Felix Kammerer, Charles Dance, David Bradley, Lars Mikkelsen, Christian Convery
Nota: 7,0

Del Toro esbanja no visual e entrega a sua versão de Frankenstein

O diretor oscarizado mexicano Guillermo del Toro volta para a Netflix, desta vez pensando bastante nos prêmios da Academia. Tanto é que semanas antes da estréia no streaming, seu Frankenstein chegou a ser lançado em salas limitadas de cinemas pelo mundo todo, inclusive no Brasil (!), o que é muito surpreendente.
 
O filme, meio que obviamente, é a adaptação de del Toro para o livro escrito por Mary Shelley em 1818, de nome Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno, contando a história de Victor Frankenstein (Oscar Isaac) e Monstro (Jacob Elordi) a quem ele deu vida. A trama começa com Victor e o Monstro tendo seu confronto derradeiro no gelado Ártico (o que também acontece no livro), e então há uma pausa, onde primeiro assistimos Victor contando toda sua história, e em seguida, o Monstro detalhando a dele.
 
Ainda que conte com um elenco estrelado e boas atuações (em especial a de Oscar Isaac), o melhor de Frankenstein é seu visual. Como sempre nos filmes do diretor, a fotografia é excelente. O design de produção também é muito bom, mesmo com os figurinos sendo apenas "ok".

É importante ressaltar que aqui estamos diante da versão de Guillermo del Toro em relação a obra original, portanto ele faz várias adições e mudanças em relação aos escritos de Mary Shelley; diria eu, muito mais inclusões do que alterações, na verdade. Principalmente, aqui temos uma maior "história de origem" de Victor, dando-lhe um pai tirano (Charles Dance), traumas de infância e uma abordagem inicialmente mais científica. O diretor também não se conteve e, seguindo a imaginação popular, faz a criação do Monstro ser algo gigantesco, em um "castelo"; pelo menos o visual do Monstro é razoavelmente parecido com o que Mary Shelley descreveu. Para mais detalhes sobre como é o Monstro de Frankenstein do livro, sugiro fortemente ler este breve artigo de curiosidades que escrevi anos atrás.

Ainda sobre o aparência da criatura, um problema: para mim o "Monstro" não é visualmente muito assustador. Muito mais "assustador", entretanto, são as muitas imagens de pedaços de cadáveres que aparecem no filme em close e sem nenhuma cerimônia; para as pessoas mais sensíveis isso pode ser perturbador.
 
Já a história da vida do Monstro é bastante fiel ao livro, mas algumas partes foram cortadas e a narrativa está um pouco corrida. Ah, e temos uma diferença importante: neste Frankenstein a "bondade" do Monstro é bem exagerada, assim como um pouco da "maldade" de Victor. Confesso que esse maniqueísmo constantemente presente nos trabalhos do diretor me fazem gostar menos do seu trabalho.
 
As alterações feitas por del Toro têm seus prós e contras. Por exemplo, é interessante ele trazer via a personagem de Elizabeth (Mia Goth) críticas de como as mulheres eram deixadas a margem da sociedade na época. Por outro lado, entendo que tivemos mais "contras": a presença do "romance", com Victor se apaixonando por Elizabeth, e ela se apaixonando pelo Monstro, é tão clichê e piegas que decepciona.
 
Como resultado final, após várias mudanças e adições, Frankenstein ainda consegue ser mais fiel ao texto original do que a maioria das adaptações que a obra máxima de Mary Shelley costuma receber. E, como a história primordial é boa, por consequência este filme também o é. Ambos fazem refletir sobre a vida e a maldade humana. E um ponto positivo para a adaptação áudio-visual: o filme é mais bem sucedido em emocionar. Nota: 7,0.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Crítica Netflix - A Mulher na Cabine 10 (2025)

Título: A Mulher na Cabine 10 ("The Woman in Cabin 10", EUA / Reino Unido, 2025)
Diretor: Simon Stone
Atores principais: Keira Knightley, Guy Pearce, David Ajala, Gitte Witt, Art Malik, Gugu Mbatha-Raw, Hannah Waddingham, Kaya Scodelario, David Morrissey, Daniel Ings, Amanda Collin, Lisa Loven Kongsli, Paul Kaye, Charles Craddock
Nota: 6,0

Um bom filme de suspense / detetive para se passar o tempo

A Mulher na Cabine 10, filme produção original Netflix, é uma adaptação de um livro homônimo de 2017 escrito por Ruth Ware e best-seller do New York Times. Na trama, conhecemos Laura Blacklock (Keira Knightley), uma premiada jornalista que recebe um convite para passar 3 dias em um luxuoso iate junto com um grupo de milionários. O motivo: escrever sobre a fundação de caridade que irá ser oficializada durante esta viagem, pelo casal Richard (Guy Pearce) e Anne Bullmer (Lisa Loven Kongsli). Com câncer terminal, Anne quer deixar a fundação como seu legado.

Apesar de tanta beleza e luxo, nem tudo ocorre de maneira com que se espera. Durante a primeira madrugada dentro do navio, Laura acorda assustada com barulhos vindo de uma cabine vizinha à sua, a cabine 10. E após ouvir algo grande caindo na água, ela corre para a janela do seu aposento e descobre que o que caiu foi uma mulher. Após gritar por socorro e pararem o navio, um duplo choque: não somente todos os tripulantes continuam sãos e salvos dentro da embarcação, como a tal cabine 10 não possuía nenhum passageiro registrado.

Então vemos a luta de Laura, literalmente conta todos (pois nem seu amigo jornalista que se encontra no barco a ajuda) para provar que não estava louca. A Mulher na Cabine 10 conta com um bom clima de suspense durante o tempo todo, e também consegue transportar muito bem para o expectador o clima de "inadequação" da personagem perante aos milionários esnobes.

Estaria Laura tendo algum delírio? Seria tudo fruto de sua imaginação? Ou tudo o que ela fala de fato aconteceu? Da maneira em que o diretor Simon Stone filmou A Mulher na Cabine 10, a dúvida é bem pequena. O filme é corrido e cheio de ação, não dando muito tempo para a platéia pensar... e se pensar, irá concluir que as chances de Laura estar imaginando tudo são pequenas. Esse tipo de condução da trama foi proposital, pois o diretor não queria que o público passasse pela mesma sensação do leitor na obra original, onde lá, Laura não é uma narradora confiável, pois sofre de insônia e está sempre entupida de fortes remédios.

A trama policial / investigativa dentro do filme é boa - com exceção de um detalhe da explicação da trama que me incomodou bastante, e o qual comentarei no P.S. ao final do texto - e roda de modo bem competente até chegar nas cenas finais, onde então aí sim, finalmente, A Mulher na Cabine 10 decepciona, com um desfecho um bocado implausível e melodramático, baixando no geral a qualidade do filme.

Apesar do final clichê e pouco verossímil, no final das contas A Mulher na Cabine 10 acaba se tornando um bom passatempo para quem gosta de filmes de suspense policial. Está acima de muuita coisa feita pela Netflix. Nota: 6.0.


P.S.: sobre a tal parte da explicação que me incomodou bastante (não leia se não quiser levar um spoiler médio da trama): por que a pessoa x entrou na Cabine 10 naquele momento para flagrar aquilo que estava acontecendo? O filme não dá nenhuma explicação para essa pessoa saber que algo acontecia naquela cabine, ou para estar lá por perto naquele momento. Não sei se isso é explicado de modo satisfatório no livro (e talvez até seja, dadas as várias alterações que o filme fez em relação à obra original), mas se não for... bem decepcionante.

domingo, 28 de setembro de 2025

Crítica - Uma Batalha Após a Outra (2025)

Título
: Uma Batalha Após a Outra ("One Battle After Another", EUA, 2025)
Diretor: Paul Thomas Anderson
Atores principais: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Benicio Del Toro, Regina Hall, Teyana Taylor, Chase Infiniti, Alana Haim
Nota: 7,0

Paul Thomas Anderson surpreende com forte manifesto pró-imigrantes

Depois de 4 anos - após seu premiado Licorice Pizza (2021) - o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson volta com Uma Batalha Após a Outra. Não é a primeira vez que ele discute sobre temas, digamos, polêmicos em relação a sociedade, como por exemplo já o fez em Magnólia (1999) e em O Mestre (2012), mas aqui, temos seu filme mais abertamente político e declarativo.

A história começa nos anos 2000, onde vemos Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) e "Ghetto" Pat Calhoun (Leonardo DiCaprio), integrantes do grupo revolucionário de extrema esquerda "French 75", atacarem e libertarem um centro de detenção de imigrantes na Califórnia, comandado pelo coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn). Vemos depois o grupo realizar mais alguns ataques até Perfidia ser capturada. Com isso, Pat Calhoun e sua recém nascida filha com que teve com Perfidia mudam de nome (ele vira Bob Ferguson) e fogem para outra cidade, mudando de vida para não serem mais encontrados.

Chegamos aos dias atuais. Willa Ferguson (Chase Infiniti), a filha de Pat e Perfidia, vive em paz com seu pai. Ela tem uma leve idéia do passado da sua família e só. Porém depois de tantos anos, o coronel Steven J. Lockjaw resolve encontrar pai e filha para matá-los. É então que temos uma desproporcional caçada do exército contra nossos protagonistas.

Esta segunda parte do filme, "dos dias atuais", é mais longa e tenta ser bem humorada. Na verdade temos muitas "piadas" ao longo da projeção, divididas em dois tipos: brincando com o despreparo do personagem de DiCaprio, por estar há 2 décadas fora da ativa, ou ironizando o grupo de supremacistas brancos ao qual o coronel Lockjaw quer fazer parte. Embora engraçadas, na prática ri muito pouco, pois é difícil rir no meio de uma ação tão frenética e - principalmente - vendo ao mesmo tempo tantas pessoas sendo atacadas / intimidadas.

Portanto, debaixo de tanta ação e piadas, temos bastante violência e denúncia dos maus tratos que os imigrantes e minorias - especialmente pretos e latinos - sofrem nos EUA. É nesse contexto que o personagem sensei de Benicio del Toro se interliga na história, já que a caçada de Lockjaw pelos Ferguson acaba agredindo toda uma comunidade latina.

Como maiores qualidades de Uma Batalha Após a Outra, além de ótimas atuações, temos uma fotografia excelente, que inclusive em muitas vezes conta com uma câmera que segue os atores "em primeira pessoa", correndo atrás da ação. Outro ponto alto é a competência com que Paul Thomas Anderson traz tensão em seu filme: são mais de 2h30 de muito nervosismo e adrenalina.

Denunciando a injusta e covarde violência contra os imigrantes dos EUA, e ao mesmo tempo de certa forma "convocando" as pessoas para reagirem ao fazer dos revolucionários os heróis, Uma Batalha Após a Outra acaba sendo um forte manifesto - e neste sentido me surpreendendo pela coragem - contra a política atual estadunidense. Todas as brincadeiras e personagens "bizarros" do filme tornam assistí-lo algo mais divertido, mas nem de longe conseguem amenizar toda a violência, tanto da própria obra, quanto da vida real. Nota: 7,0

domingo, 21 de setembro de 2025

Introdução a Demon Slayer e a crítica do filme Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito (2025)

Título
Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito ("Gekijô-ban Kimetsu no Yaiba Mugen Jô-hen", EUA / Japão, 2025)
Diretores: Haruo Sotozaki, Hikaru Kondô
Atores principais (vozes): Natsuki Hanae, Hiro Shimono, Reina Ueda, Takahiro Sakurai, Akira Ishida
Nota: 8,0

Trilogia-desfecho começa sendo tudo o que os fãs queriam

Após considerável espera dos fãs, chega finalmente aos cinemas do mundo inteiro o tão esperado desfecho do anime Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba, no original japonês). Ou melhor, chegou o "começo do fim", já que a saga final desta obra será adaptada em uma trilogia de filmes, sendo este o primeiro, e os outros dois chegarão aos cinemas respectivamente em 2027 e 2029.

Demon Slayer é a adaptção em anime do mangá de mesmo nome escrito e ilustrado por Koyoharu Gotōge, história que já foi concluída no Japão em 2020. Para quem não o conhece, trata-se certamente de um melhores e mais populares mangás/animes de ação/artes marciais criados na última década.

Um breve resumo sobre Demon Slayer e porque ele é tão bom: o protagonista da história é Tanjiro Kamado, um garoto que teve toda sua família - pais e irmãos - trucidada por um demônio (na verdade, os demônios deste universo estão muito mais para vampiros com poderes e formas bizarras), tendo sobrevivendo apenas ele e sua irmã mais nova Nezuko, sendo que essa foi mordida e já se transformou em demônio. Entretanto, de alguma forma, Nezuko preservou boa parte de sua consciência humana, e os irmãos conseguem viver juntos. Então Tanjiro decide se unir à organização dos Esquadrão de Caçadores de Onis (outro nome para os demônios), para conseguir uma cura para sua irmã e impedir que outras pessoas tenham o mesmo destino de sua família.

Além de saber trazer constantes atos de heroísmo com maestria, lutas sensacionais com freqüência, tanto em termos de ação quanto em termos de roteiro - onde vemos os heróis tendo que pensar e bolar estratégias em plena luta para conseguir derrotar adversários poderosos de poderes inesperados - um aspecto que faz Demon Slayer ser diferenciado é não mostrar os demônios como 100% malignos. Todos eles, na verdade, são verdadeiros monstros que estão cometendo as maiores atrocidades com humanos, porém, o anime/mangá também nos mostra a sua história, e então entendemos que alguns viraram demônios porque sofreram terrivelmente nas mãos de outros humanos no passado. Outros também não... há os que foram maus desde o início de suas vidas. Em outras palavras, há todo o tipo de vilão... aquele que sempre foi mau, ou o que era bom mas ficou mau porque perdeu tudo e cansou de sofrer; da mesma forma, há os demônios que antes de morrer se arrependem dos seus "pecados", outros não.

O anime, exibido tanto pela Netflix quanto pela Crunchyroll, contava até agora com 4 temporadas e 1 filme. E seu encerramento será, conforme dito anteriormente, com uma nova uma trilogia de filmes... tudo pelo lucro do estúdio de animação japonês Ufotable, responsável por Demon Slayer. Até o momento, Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito já é o segundo filme de maior bilheteria da história do Japão. E sabem qual é o primeiro? Demon Slayer - Mugen Train: O Filme, de 2020, que cronologicamente precisa ser assistido após o término da primeira temporada, e antes do início da segunda.

Uma das cenas iniciais do novo filme, com alguns dos heróis caindo nos andares do "Castelo Infinito"

Infelizmente Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito só faz sentido para quem assistiu todos os episódios do anime, afinal, ele continua exatamente de onde o 8º e último episódio da 4ª temporada acabou, ou seja, com todos os heróis "caindo" dentro do gigantesco (e então desconhecido) covil dos vilões, o tal Castelo Infinito que dá nome ao filme.

Basicamente, é o esforço final dos 7 Hashira (os melhores espadachins do Esquadrão de Caçadores de Demônios) mais os 3 garotos protagonistas Tanjiro, Zenitsu e Inosuke para matar o poderosíssimo Muzan Kibutsuji, o "primeiro demônio"; porém Muzan está protegido não apenas por suas 6 Luas Superiores (seus 6 demônios mais fortes), como também por milhares de demônios menores e pelo próprio Castelo Infinito.

Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito não surpreende, traz exatamente o dele se espera, reunindo tudo o que fez de Demon Slayer ser ótimo e bem sucedido. É como se fosse uma seqüência de alguns ótimos episódios do anime, que aliás fica bem claro com algumas quebras bem grandes de ritmo no filme, quando o mesmo para a ação para contar histórias de flashback.

Mas se é assim, por que assistir esse Demon Slayer nos cinemas e não em casa? Bem, um motivo é que já foi anunciado que ele só irá ser liberado para os streamings em 2026. Mas os dois principais motivos são som e perspectiva. A trilha sonora é muito boa, forte e barulhenta, alternando entre instrumental épico, baladas eletrônicas de ação e ou batidas de tambores orientais. Um som grandioso que você não terá na sua casa. Já as imagens do Castelo Infinito fazem muito mais sentido se vistos em uma sala de cinema. Do jeito que as tomadas das lutas foram feitas, vendo as batalhas em uma telona, você se sente dentro dos largos cômodos, testemunhando tudo ao vivo.

Ah, e quem acompanha o anime já sabe que Demon Slayer é bem violento, e que perdas acontecem dos dois lados... Portanto não fiquem chocados ao já ver no primeiro filme heróis morrendo...

Sendo a primeira parte de uma trilogia, o filme deu pouco espaço para vários de seus personagens, e focou apenas em alguns, que foram: Tanjiro, Zenitsu, Shinobu Kocho (a Hashira dos Insetos), Giyu Tomioka (o Hashira da Água) e as Luas Superiores 2 (Doma), 3 (Akaza) e 6 (Kaigaku). Com isso, imagino que eles - o que inclui o protagonista Tanjiro - pouco aparecerão no capítulo seguinte.

Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito é um bastante promissor começo para o derradeiro arco deste grande anime. Mantendo essa qualidade até o fim, ficarei bem satisfeito. De ruim mesmo é ter que aguardar 2027 e 2029... Nota: 8,0

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Crítica - Corra que a Polícia Vem Aí! (2025)

Título: Corra que a Polícia Vem Aí! ("The Naked Gun", Canadá / EUA, 2025)
Diretor: Akiva Schaffer
Atores principais: Liam Neeson, Pamela Anderson, Paul Walter Hauser, Danny Huston, CCH Pounder, Kevin Durand, Liza Koshy
Nota: 7,0

Felizmente, o Besteirol ainda vive!

Depois de longos 31 anos, a franquia Corra que a Polícia Vem Aí! está de volta com seu quarto filme, no que em tese não é um reboot, afinal o personagem principal é o policial Frank Drebin Jr. (Liam Neeson), filho do falecido policial e herói da trilogia de filmes anteriores Frank Drebin (imortalizado pelo ator canadense Leslie Nielsen, também falecido, em 2010).

Na trama, o policial de Los Angeles Frank Jr. precisa investigar praticamente sozinho um estranho roubo de banco e, em paralelo, descobrir quem assassinou o irmão de seu novo interesse amoroso, Beth Davenport (Pamela Anderson).

Definitivamente o novo Corra que a Polícia Vem Aí! é uma grande homenagem aos filmes originais, seguindo a mesma formula e estrutura dos filmes anteriores e, é claro, com o mesmo estilo de anedotas nonsense, diálogos sem sentido e, piadas visuais inesperadas. Aliás, sobre homenagens, a franquia tem o costume de trazer várias participações especiais, e também o fez aqui, mas muito pouco, o que é uma decepção. Ainda assim, de maneira surpreendente, traz de volta o cantor Weird Al Yankovic (que esteve em todos os outros filmes) e em uma brevíssima aparição Priscilla Presley, refazendo a personagem de Jane, esposa de Frank e mãe de Frank Jr..

O filme traz piadas novas, se aproveitando dos novos tempos, e por exemplo também brinca com temas como o uso de celulares e redes sociais, o que é bem vindo. Por outro lado, dentre suas "modernidades", também faz uso de efeitos de computador criando situações simplesmente impossíveis (a de Frank se transformar em uma garotinha, que vemos no trailer, é um exemplo) e também há cenas onde temos violência sem ser engraçado. Nestes dois últimos casos, o "novo" foi para pior.

Corra que a Polícia Vem Aí! também repete algumas piadas de filmes anteriores, e mesmo que isso possa ser argumentado como "homenagem", ou "tradição", poderia ser evitado. Porém o maior erro do filme, se falarmos de "tradição", é manter objetificação feminina e fazer várias piadas sobre isto. Se durante os filmes dos anos 80 e 90 isso era algo comum, hoje os tempos são outros.

Apesar dos percalços, e de Liam Neeson não ser nem de longe um Leslie Nielsen, o filme acaba sendo como um todo bem divertido, com várias cenas bem engraçadas de besteirol, e resgatando para os cinemas um estilo de humor que há muitos anos não dava suas caras.

Aliás, Neeson não é Nielsen, mas não compromete. Ele vai bem, afinal, faz o esperado do personagem, que é se manter sério nos momentos mais absurdos. Já sua parceira Pamela Anderson, que não aparece tanto no filme, também está bem... inclusive, ela me proporcionou duas dentre as maiores gargalhadas que dei durante a projeção.

Em resumo, o novo Corra que a Polícia Vem Aí! é um bom filme, bem engraçado, que foi feito por pessoas que de fato são fãs da franquia e entendem como ela funciona, sabendo portanto, imitá-la. Porém, pelo menos por enquanto, não conseguiram alcançar a genialidade de seus criadores. 

David Zucker, um dos 3 criadores originais (e também pai dos igualmente geniais Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu! e Top Secret!), declarou lamentando que em nenhum momento foi procurado pela Paramount para qualquer coisa relacionada ao novo filme. Ele inclusive adoraria ter voltado à franquia, e chegou a enviar um script inteiro de um novo Corra que a Polícia Vem Aí! para a Paramount em 2018 (que também nunca teve nenhum retorno).

Não seria melhor para todos se a Paramount tivessem unido os dois principais responsáveis deste novo filme, ou seja, o produtor Seth MacFarlane (de Family Guy, The Orville e Ted) e o diretor/roteirista Akiva Schaffer (de Saturday Night Live) com David Zucker? Nunca saberemos. Mas o que temos pra hoje é a volta de um Besteirol de qualidade. Nota: 7,0.


PS1: o filme possui algumas atrações pós-créditos. já em seu começo, há uma cena de Frank com Beth; depois disso, enquanto os créditos passam, ouvimos Frank cantando a música que ele compôs à Beth (e que Drebin Jr. comenta durante o filme que fez isso); e finalmente, após todos os créditos, temos uma cena curtinha de uns 3 segundos envolvendo Weird Al Yankovic. 

PS2: eu assisti a versão legendada do filme, que foi bem fiel aos diálogos originais, inclusive nas piadas, mantendo os nomes originalmente envolvidos. O mesmo não se pode falar do que foi feito na versão dublada, feita pelo "ator" e "comediante" Antonio Tabet, de quem não tenho confiança. Como não vi a versão dublada, não sei ficou bom ou não, mas já sei que ele optou por "regionalizar" várias coisas, trocando o nome de pessoas e times estadunidenses por nomes brasileiros. Por exemplo, sei que ele trocou um diálogo envolvendo times de futebol americano para fazer piada com certo time de futebol não ter mundial, sendo que o diálogo nativo não tem um contexto nem próximo a isto. Não vejo motivos para mexer com a paixão de um grupo se a piada não está originalmente lá. Não torço para este time, mas desaprovo esta escolha... Tabet já foi inclusive dirigente do Flamengo. Nada como a idoneidade...

sábado, 26 de julho de 2025

Crítica - Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025)

Título
: Quarteto Fantástico: Primeiros Passos ("The Fantastic Four: First Steps", EUA, 2025)
Diretor: Matt Shakman
Atores principais: Pedro Pascal, Vanessa Kirby, Joseph Quinn, Ebon Moss-Bachrach, Ralph Ineson, Julia Garner, Paul Walter Hauser, Mark Gatiss, Natasha Lyonne, Sarah Niles
Nota: 6,0

A Terra 828 é bem diferente e mais inocente que a nossa

Sendo o número 4 o mais importante para o Quarteto Fantástico, olhem só, eles acabam de estrear seu  filme (a ser lançado oficialmente) nos cinemas. Mas apesar de serem quatro filmes, as produções cinematográficas sobre o primeiro grupo de super-heróis da Marvel Comics (criado em 1961 por Stan Lee e Jack Kirby) só trouxeram os mesmos dois vilões até agora: Doutor Destino e Galactus, que se alternaram. Portanto seguindo a ordem, o vilão deste Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é Galactus.

Na história, que se passa na década de 60 de um planeta Terra de uma realidade paralela a nossa, a Terra 828, o Quarteto formado por Reed Richards (Pedro Pascal), sua esposa Sue Storm (Vanessa Kirby), Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach) e Johnny Storm (Joseph Quinn), irmão de Sue, não apenas são os únicos super seres do mundo, como são praticamente os líderes não oficiais do planeta, admirados e amados por todos. Com a gravidez de Sue, a família mais famosa do mundo está preocupada com a chegada do futuro filho do Casal Fantástico, até que surge do espaço algo muito mais preocupante: a alienígena Surfista Prateada (Julia Garner) aparece com uma mensagem: "seu mundo será destruído por Galactus (Ralph Ineson) em breve. Não há o que vocês possam fazer. Aproveitem para se despedirem dos seus entes queridos".

A história de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos acaba sendo - e isso é um pouco frustrante - parecida demais com a do filme Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, de 2007. O que ele traz de novo (e positivo), então? Um visual belíssimo, deslumbrante, efeitos especiais muito bons, e melhores atores do que no filme de duas décadas atrás; em especial, reforçado pelas muito boas atuações de Pedro Pascal e Vanessa Kirby (ah, a competente atriz não tem nenhum parentesco com Jack Kirby rs).

Além de termos um roteiro com uma mesma história já contada antes, e repleta de piadinhas - que ora funcionam ora não, mas que estão lá principalmente para desviar o foco e tentar deixá-la diferente daquela do filme de 2007 - chama a atenção como a trama carece de conflitos. É impressionante como os habitantes da Terra 828 são todos alegres, compreensivos e colaborativos. É quase uma utopia.

Além disso, fora o casal Sr. Fantástico e Mulher Invisível, que tem um leve desenvolvimento dramático, os demais personagens não têm nem desenvolvimento nem drama. Por exemplo, o filme "insinua" que Johnny é mulherengo e isso lhe traria problemas, mas em geral isso não é visto; do mesmo modo, ele "insinua" que assim como nos filmes anteriores, o Coisa sofre com solidão e a aparência do seu corpo; mas na prática, as cenas mostram o oposto.

Em linhas gerais, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é feito para agradar os olhos e ouvidos. Uma trilha sonora heróica e persistente, um visual limpo, sempre bonito, organizado e colorido. E funciona! Acho muito difícil alguém assistir este filme e não sair dele entretido e / ou feliz.

O problema é que debaixo desta bela embalagem não sobra muito conteúdo. A Marvel fez seus malabarismos para, através de um novo visual, tentar trazer algo novo. Mas, em termos de roteiro, o resultado é raso e, o pior de tudo, continua sendo mais do mesmo. Nota: 6,0.


PS: o filme possui duas cenas pós créditos. A primeira, já no começo, mostra uma cena com um "gancho" para futuros filmes da Marvel. Já a segunda, ao final de todos os créditos, é precedida de um letreiro que explica rapidamente o motivo daquela Terra ter o número 828; depois disso, vamos a cena em si, que nada mais é que um comercial em desenho animado "vintage" dos nossos heróis. Descartável.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Crítica - Superman (2025)

TítuloSuperman (idem, EUA, 2025)
Diretor: James Gunn
Atores principais: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult, Edi Gathegi, Anthony Carrigan, Nathan Fillion, Isabela Merced, María Gabriela de Faría, Skyler Gisondo, Wendell Pierce, Sara Sampaio, Frank Grillo, Alan Tudyk
Nota: 7,0

Não é ótimo, mas é bom, importante, e com várias surpresas

A espera acabou! Depois de muita expectativa e material promocional, foi data a largada para a nova fase da DC Comics nos cinemas, agora capitaneada por James Gunn. E já começo parabenizando ele, diretor e roteirista deste Superman, pelo fato de que apesar da divulgação de trailers com 100% de cenas reais do filme (sendo um deles uma versão estendida de 5 minutos), ter me surpreendido bastante com a trama apresentada, bem diferente do que eu imaginava.

A história começa com letreiros... ficamos sabendo que há 3 semanas atrás o Superman (David Corenswet) impediu a Borávia de invadir Jarhanpur (duas nações fictícias), e que neste momento ele acaba de sofrer sua primeira derrota em batalha. E então começam as imagens: o vemos, já muito machucado, na Antártida se arrastando até a Fortaleza da Solidão para se recuperar. Não demora muito para descobrimos que Lex Luthor (Nicholas Hoult) está por trás de tudo isso...

James Gunn traz em seu roteiro, como motivações de Luthor para derrotar Superman, uma soma de narcisismo com xenofobia com oportunidade de enriquecer a qualquer custo. E o faz de maneira muito bem feita, também traçando paralelos com a vida real, especialmente com Trump e a extrema direita estadunidense. Portanto, há um casamento perfeito quando Lex usa tantas vezes a palavra "alien" em seus discursos de ódio (mesma palavra que Trump usa atualmente para descrever imigrantes ilegais), e há também um destaque em Luthor manipulando as mídias sociais com "robôs" e desinformação.

E por falar em mídias sociais, antes que vocês sejam enganados pelas mídias sociais do mundo real, as críticas que Superman faz à extrema direita são de fato as mais explicitas que já vimos em um filme até hoje. Porém, param no parágrafo que escrevi acima. Como um todo, politicamente, o filme é até "bem comportado". Ele não procura se envolver em polêmicas. "Ah, mas ele é claramente anti-guerra e mostra os empresários ricos como malvados"... Sim. As histórias do Superman são assim desde seu nascimento, há mais de 80 anos atrás... Então falar que o filme é "woke" e etc é puro mimimi...

Superman também traz bons efeitos especiais e boas lutas, mas... são bem menos lutas do que eu esperava. A que mais gostei sequer teve a participação do Homem de Aço, aliás... foi uma luta solo do Senhor Incrível (Edi Gathegi). Também para minha surpresa - por se tratar de um filme de James Gunn, o filme poucos momentos cômicos. Inclusive, o primeiro terço do filme é psicologicamente bem tenso, o que imagino deverá causar um certo incômodo em boa parte do público que, sendo fã de filmes de super-heróis, não está acostumado com isso.

Falando de atuações e personagens, enfim temos Lex Luthor digno! O personagem é bem escrito, e a atuação de Nicholas Hoult é muito boa! Já o Superman... David Corenswet não é lá um grande ator, mas pelo menos agora vemos de volta um Super-Homem que é bondoso e ingênuo; eu gostava de Henry Cavill no papel... mas na verdade a versão de Zack Snyder para o Superman era infelizmente um personagem de muita ação com poucos sentimentos ou profundidade. E Lois Lane (Rachel Brosnahan): a atriz também está muito bem no papel; já a personagem é... diferente do que estamos acostumados a ver nas últimas décadas. Ela é inteligente como sempre, porém ao invés de enérgica e falante, vemos uma Lois um pouco mais introvertida e sábia.

Encerrando os pontos fortes do filme, Superman também consegue trazer bons momentos emotivos, trabalhando bem os momentos heróicos, os momentos "família", e os momentos românticos.

Mas... o filme também tem seus problemas. E não são poucos. Para começar, a trama em Superman é um pouco confusa e pouco coesa. Por exemplo, as cenas emocionantes e as ótimas atuações que elogio nos dois parágrafos acima... elas nem sempre se encaixam; o filme peca bastante pela falta de ritmo. É como se individualmente, Superman fosse bem sucedido em nos transmitir seu otimismo e esperança; porém no filme como um todo, não. Falta harmonia.

Eu imagino que parte da "culpa" por este desarranjo é que assim como o filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016), este aqui também teve que em paralelo apresentar novos personagens e iniciar um novo universo. Por isso mesmo que além do Superman, aqui também temos mais 4 super-heróis (Mulher Gavião, Lanterna Verde, Senhor Incrível e Metamorfo). O filme consegue ser bem sucedido ao dar um bom destaque a muitos de seus vários personagens, inclusive seus vilões. De qualquer forma, aqui tivemos o clássico "mais é menos".

Também entendo que há um grande exagero nas tecnologias desenvolvidas por Lex Luthor. Elas são tão avançadas que sinceramente fica difícil acreditar que o Superman, ou qualquer outro herói, poderia derrotá-lo. Outros problemas: as lutas que ocorrem dentro do "universo de bolso" são péssimas, não fazem sentido e mal dá para enxergar alguma coisa (aliás muito deste "mini universo" é sofrível); ao longo de todo o roteiro temos várias "pequenas cenas" que só foram inseridas para criar efeito cômico ou heróico e são bem pouco críveis... só dá mesmo para dar um desconto porque, afinal, estamos falando de um filme de um super-herói de quadrinhos.

Somando prós e contras, o saldo de Superman é positivo. Um bom filme, que resgata os conceitos clássicos do herói, e se faz relevante por, ao mesmo tempo, dar um importante recado político e por ser um promissor pontapé para o novo universo de heróis da DC nas telonas. Nota: 7,0.


PS: o filme possui duas cenas pós créditos. A primeira, já em seu começo, dura apenas alguns segundos e é mais um "pôster" do que uma cena propriamente dita; já a segunda, ao final de tudo, é uma cena cômica que sinceramente, não valeu toda a espera. Entretanto, há de elogiar que ambas as cenas são autocontidas, ou seja, se referem ao próprio filme, e não são como as antigas cenas pós-créditos que a DC fazia (e a Marvel continua fazendo), que são propagandas de filmes futuros.

PS 2: Superman faz uma citação à Supergirl que é referência direta ao que acontece na excelente HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, que já elogiei aqui no blog algumas vezes. Lembrando que o filme da Supergirl, que está previsto para 2026, originalmente também se chamava Supergirl: Mulher do Amanhã, mas agora foi reduzido oficialmente para apenas "Supergirl". Ainda assim, a referência aumenta a minha esperança para que o futuro filme tenha sim muito desta ótima obra. Fico na torcida.

PS 3: Will Reeve, filho mais novo do falecido Christopher Reeve, o primeiro e mais famoso dos Super-Homens dos cinemas, pediu a James Gunn para fazer uma participação neste novo filme e foi prontamente atendido. Ele, que é repórter de TV na vida real, também aparece neste papel em Superman. Ele aparece bem rapidamente em algumas cenas, e a maior delas, é a da foto que reproduzo abaixo. Quando eu fui ver Superman, não sabia dessa curiosidade. Caso você esteja lendo isso aqui ANTES de ver o filme, aproveite a oportunidade para jogar um "Onde está Will?" enquanto estiver no cinema. :)


PS 4: (atualização em 12/07): após ler hoje mais matérias e repercussões sobre o filme, me dei conta que a guerra de Borávia com Jarhanpur têm mais paralelos com guerra entre Israel e a Palestina do que percebi enquanto assistia Superman. Nada muito explícito, mas estão lá. Isto muda um pouco uma frase que disse na minha crítica, que o filme "não procura se envolver em polêmicas". E torna a obra ainda mais relevante.

PS 5: (atualização em 25/07): sabiam que o cachorro Krypto, um dos personagens mais queridos do público, para minha surpresa, é 100% digital? Pois é... isto me gerou sentimentos mistos... a decepção por ele não ser real, e o encanto pela tecnologia estar tão perfeita. Krypto teve sua "personalidade" baseada em Ozu, cachorrinho que o diretor James Gunn adotou enquanto escrevia o roteiro do filme; também dele foram feitas capturas de movimentos. Durante as filmagens, para interagir com os atores, foram usados humanos fantasiados, e também uma cadela de nome Jolene.

PS 6: continuando com o tema animaizinhos: a cena de Superman resgatando o esquilo teve uma rejeição considerável em exibições teste do filme, e por isso o estúdio chegou até a testar cópias sem a cena. Porém após ver o filme deste jeito, James Gunn sentiu "algo faltando", e por entender que seu filme precisava sim preservar a cena para que o público infantil visse que o herói também salva esquilos, bateu o pé e colocou-a de volta, mesmo indo contra as reclamações dos testes e de parte da própria equipe.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Crítica Netflix - The Old Guard 2 (2025)


Título: The Old Guard 2 (idem, EUA, 2025)
Diretora: Victoria Mahoney
Atores principais: Charlize Theron, KiKi Layne, Matthias Schoenaerts, Marwan Kenzari, Luca Marinelli, Chiwetel Ejiofor, Veronica Ngo, Henry Golding, Uma Thurman
Nota: 4,0

Seqüência não faz nada certo e enterra franquia (que a Netflix quer continuar)

Após quase exatos 5 anos depois da estréia de The Old Guard (2020) na Netflix, temos sua continuação, com praticamente mesmo elenco mas com nova diretora. The Old Guard 2 até tinha alguma razão para existir, já que o filme anterior deixou alguns ganchos enormes que justificariam sua continuação.

Mesmo retornando justamente por esses "ganchos", The Old Guard 2 já começa errando em não se preocupar em explicar o que aconteceu antes, o que deixa tudo bastante confuso para quem não viu o filme anterior, e em menor escala, para quem viu mas já esqueceu dos detalhes (afinal, repito, já se passaram 5 anos!).

Então eu ajudarei a relembrar: estamos em um universo onde nossos personagens são os "Imortais", pessoas com milênios de idade, que não morrem por ter uma recuperação a ferimentos ultra rápida (eles podem até ter a cabeça decepada que não tem problema) e que atuam nas sombras ajudando a humanidade em situações de injustiça.

Porém no filme anterior, Andrômaca, ou "Andy" para os íntimos (Charlize Theron), a líder e mais velha do grupo, perdeu sua imortalidade. Além disso, Booker (Matthias Schoenaerts), outro imortal de seu grupo, os traiu e foi banido. O filme começa com Quynh (Veronica Ngo), outra imortal, sendo resgatada do fundo mar após 500 anos em um eterno ciclo de morrer e reviver afogada por uma mulher misteriosa (interpretada por Uma Thurman). Basicamente a partir daí Quynh e Uma Thurman se unem para fazer o mal contra a humanidade e destruir o grupo de Andy.

A verdade é que mesmo com o primeiro filme feito para se ter uma continuação, pelo que vimos do roteiro, esta não estava muito bem planejada, já que a nova história nos traz alguns retcons (bem ruins aliás) e um argumento fraco, que para ser interessante deveria ter sido contado em no máximo uma hora. Porém The Old Guard 2 tem quase 2 horas de duração, e é preenchido com diálogos piegas e cenas de ação apenas medianas que não fazem o menor sentido. Por exemplo, perto do final do filme, o grupo de heróis invade um local fortemente protegido e com seguranças fortemente armados. Assim que eles chegam, todos os inimigos jogam as armas no chão e resolvem "sair no braço" (?????). A explicação que o roteiro dá? "O líder deles é um babaca". Não vou mais comentar por respeito à sétima arte.

Meu horror ao roteiro só não é maior pois The Old Guard não é uma obra original, e sim, a adaptação de uma série de quadrinhos. E se há uma mídia onde retcons são comuns são nas HQs. Portanto, talvez essas várias decisões ruins tenham vindo da obra original e não dos "roteiristas".

E como não há nada que seja ruim suficiente que não possa piorar, a história The Old Guard 2 não acaba ao final do filme! Será necessário ter um filme 3 para concluir o que se começou aqui. Por enquanto The Old Guard 2 vai bem de audiência, mas estamos na sua semana de estréia. Após as pessoas lerem (as justas) críticas detonando o filme, talvez isso mude. Vamos ver se no final das contas a audiência será suficiente para justificar ou não um fim da trilogia e continuar a alimentar a indústria da quantidade ao invés da qualidade. Nota: 4,0

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Dupla Crítica Filmes Prime Video - A Avaliação (2024) e Aqui (2024)


As críticas da vez são de dois filmes de drama que estrearam na Prime Video recentemente, e que, em ambos os casos, investiram pesado em grandes nomes para seu elenco. A Avaliação é produção original Prime Video, e estreou mundialmente em Maio; o que não é o caso de Aqui, que foi feito para ir aos cinemas - e estreou nas telas grandes brasileiras em Janeiro de 2025 - mas teve bem pouca repercussão; aliás, foi um fracasso de publico mundialmente. Posteriormente ele teve seus direitos de exibição comprados pela Prime Video. Confira o que achei de cada um dos dois filmes.




A Avaliação
 (2024)
Diretor: Fleur Fortune
Atores principais: Alicia Vikander, Elizabeth Olsen, Himesh Patel, Indira Varma, Nicholas Pinnock, Charlotte Ritchie

A Avaliação é um filme pós-apocalíptico de ficção científica, em que a humanidade vive em um mundo em que as pessoas praticamente não envelhecem e que também por isso são submetidos a um super rígido controle populacional. Apenas uma pequenina porcentagem das pessoas "mais influentes" da sociedades podem ter o direito de reprodução, porém além disso, para conseguir exercer o tal direito, um casal precisa ser testado (e aprovado) por uma semana por um avaliador profissional dedicado a isto.

Então, neste contexto, vemos o casal de cientistas Mia (Elizabeth Olsen) e Aaryan (Himesh Patel), que desejam uma criança, serem testados pela avaliadora Virginia (Alicia Vikander). Os testes de Virginia são surreais: intrusivos, agressivos, com ela se alternando entre sua persona adulta e simulando ser uma criança "levada" nas mais diversas idades. A tal avaliação é tão absurda, e mostra ao expectador situações tão constrangedoras, que em primeiro momento há uma certa desconfiança sobre a credibilidade do argumento do roteiro. Entretanto, conforme a história se desenvolve, vamos compreendendo que na verdade estamos diante do comportamento humano perante a falta de esperança e sob um regime totalitário... e aí tudo começa a se encaixar, felizmente. Há também um certo debate sobre a dificuldade e sacrifícios que são obviamente necessários quando se tem um filho, mas que nem todos sabem que existem, ou estão dispostos a enfrentar.

Com ótimas atuações de Elizabeth Olsen e Alicia Vikander, e com um final e universo que compensam o desconforto que é assistir a avaliação propriamente dita, o filme acaba sendo uma ficção científica boa e aceitável dentre as muitas opções que surgem nos streamings atualmente. Nota: 7,0




Aqui
 (2024)
DiretorRobert Zemeckis
Atores principaisTom Hanks, Robin Wright, Paul Bettany, Kelly Reilly, Lauren McQueen, Michelle Dockery, Gwilym Lee, David Fynn, Ophelia Lovibond, Nicholas Pinnock, Nikki Amuka-Bird

A turma de Forrest Gump (1994) está de volta, ou pelo menos seu diretor e seu casal protagonista (Tom Hanks e Robin Wright), e foi nisto que o filme Aqui se baseou em fazer sua propaganda. Porém, tirando o tom bastante emocional de ambos os filmes, e o fato de que ambos percorrem por toda a vida de uma família, ambos são filmes bem diferentes.

O conceito de Aqui, como o nome diz, foca em um "aqui", sendo este um local geográfico fixo e específico capturado pela câmera ao longo da história. Portanto, a câmera fica fixa, e diante dela vemos o tempo passar, mas de modo não-linear, imagens desde os dinossauros, passando pela colonização indígena, a conquista pelos ingleses e a construção de uma casa neste local. O "aqui" acaba virando a sala de estar de várias famílias que habitam esta casa ao longo das décadas, e com isto acompanhamos a história de seus habitantes. Apesar de vários personagens de épocas diferentes desfilarem por nossos olhos, na maior parte do tempo, vemos a saga da família Young, que ficam na casa desde o pós Segunda Guerra até por volta de 2010, e é composta principalmente pelo "pai e mãe" interpretados por Paul Bettany e Kelly Reilly, o filho Richard (Tom Hanks) e sua esposa Margaret (Robin Wright). Aliás, vemos estes mesmos personagens com várias idades, então, haja efeitos especiais... e muito bem feitos!

Como resultado final, Aqui acaba sendo moderadamente interessante, ao relembrar para os espectadores, através de suas histórias, que a vida é imprevisível, e que dificilmente sai conforme o planejado. Educativo, emotivo, mas não muito original ou surpreendente.

Este conceito do tempo passar por um lugar fixo pode ser incomum nos filmes, mas já foi explorado um bocado de vezes em outras mídias, como por exemplo nos quadrinhos. Aliás, é de lá que esta história é adaptada da graphic novel de mesmo nome de 2014, escrita por Richard McGuire, que inclusive já foi publicada no Brasil. Em uma entrevista dada em 2023, McGuire contou estar trabalhando em um novo livro que é o contrário de Aqui, ou seja, várias histórias acontecendo em vários lugares ao mesmo tempo dentro do intervalo de apenas 1 minuto. Porém pelo resultado que sua bem sucedida HQ deu nos cinemas, acho difícil que sua futura obra também alcance as telonas... Nota: 6,0

domingo, 8 de junho de 2025

Crítica Apple TV+ - A Fonte da Juventude (2025)

Título
A Fonte da Juventude ("Fountain of Youth", EUA / Reino Unido, 2025)
Diretor: Guy Ritchie
Atores principais: John Krasinski, Natalie Portman, Eiza González, Domhnall Gleeson, Arian Moayed, Laz Alonso, Carmen Ejogo, Stanley Tucci, Benjamin Chivers
Nota: 5,0

Continuamos longe de um novo Indiana Jones

Desde o estrondoso sucesso de crítica e público dos filmes de Indiana Jones, sempre tentam emplacar uma nova franquia para substituí-la. A maioria sendo adaptação de livros ou videogames, como por exemplo A Lenda do Tesouro Perdido e O Código da Vinci (livros) ou Tomb Raider e Uncharted: Fora do Mapa (games). Porém este A Fonte da Juventude, quebrando a regra, é uma história original que foi escrita diretamente para filmes. Ele estreou há cerca de 10 dias na Apple TV+, de onde é, inclusive, produção exclusiva.

Se vocês lerem acima a lista de atores, verão que a Apple não economizou no elenco, trazendo vários atores famosos, tanto de cinema quanto séries recentes. Até mesmo o diretor, o inglês Guy Ritchie, tem considerável fama e prestígio. Na trama, vemos Luke Purdue (John Krasinski) roubando algumas pinturas, até que ele rouba um Rembrandt do mesmo museu onde sua irmã Charlotte (Natalie Portman) é curadora. Ela é demitida e descobre que na verdade seu irmão, contratado pelo bilionário Owen Carver (Domhnall Gleeson), só fez aquilo pois está a procura de pistas para encontrar a mítica Fonte da Juventude. Ela acaba sendo persuadida a se unir ao time na busca, porém além do desafio de encontrar algo que ninguém fez antes, eles precisam fugir da polícia e de um misterioso grupo de Protetores da Fonte, liderados por uma jovem de nome Esme (Eiza González).

A Fonte da Juventude de fato tenta seguir a fórmula dos filmes de Indiana Jones, misturando humor e aventura, misturando história e ficção, e passando algumas por localidades históricas reais e interessantes. Porém, como resultado final, o filme não passa perto de ser bem sucedido, sendo seu maior ponto fraco o roteiro.

Luke passa o tempo todo brigando com sua irmã Charlotte, e também fica o filme todo flertando com sua "inimiga" Esme em um bizarro romance. São apenas estas duas piadas que são repetidas literalmente dezenas de vezes de modo irritante e cansativo por mais de longas duas horas de duração. E, talvez o pior de tudo, em nenhum momento vemos em A Fonte da Juventude seus protagonistas passarem por perigo real. Chega a ser até impressionante... eles são caçados por 3 grupos distintos, todos eles repletos de armas, e ainda assim, nada é filmado como se houvesse algum perigo... Luke e companhia agem como se nunca fossem levar um tiro... e não vão mesmo.

Toda esta descrição não deixa de ser uma frustração ainda maior já que o diretor é Guy Ritchie, justo ele que ficou famoso internacionalmente com os ótimos - e bastante violentos - Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) e Snatch - Porcos e Diamantes (2000). Ele, que nos últimos anos vêm se alternando entre filmes ok e ruins, acaba de acrescentar mais um desta última categoria em sua lista.

No final das contas, mesmo com o elenco estrelado, A Fonte da Juventude só vale mesmo para quem está com muita vontade de assistir algo parecido com Indiana Jones. Sim, você estará diante de algo bem produzido, mas com um roteiro infantil e mediano. Nota: 5,0

domingo, 1 de junho de 2025

Crítica - Lilo & Stitch (2025)

Título
Lilo & Stitch (idem, Austrália / Canadá / EUA, 2025)
Diretor: Dean Fleischer Camp
Atores principais: Maia Kealoha, Chris Sanders, Sydney Elizebeth Agudong, Zach Galifianakis, Billy Magnussen, Courtney B. Vance, Amy Hill, Tia Carrere, Kaipo Dudoit
Nota: 7,0

Enfim a Disney solta uma boa adaptação live-action de desenhos

Mais de duas décadas da animação original, de 2002, a Disney lança a versão live-action de Lilo & Stitch, após uma seqüência de adaptações questionáveis pela empresa do Mickey. Felizmente desta vez temos uma boa adaptação, com um filme divertido, engraçado, mas que fez mudanças para "atualizar" a história para os tempos atuais, e que como veremos a seguir, teve seus prós e contras.

Na história base, praticamente idêntica ao filme original, conhecemos Stitch, também chamado de Experimento 626, um pequenino alienígena azul criado para ser uma arma de destruição. E quando ele é apresentado pelo seu criador, o Dr. Jumba Jookiba (Zach Galifianakis) à Federação Galáctica Unida, Stitch é preso e condenado ao exílio. Porém a pequena criatura acaba fugindo e caindo no Planeta Terra, no Havaí, onde é "adotado" como um cachorro por Lilo (Maia Kealoha), uma garotinha de 6 anos órfã e solitária. Enquanto Lilo tenta "educar" Stitch, o pequeno alienígena precisa fugir dos enviados da Federação Galáctica que tentam recapturá-lo. Ao mesmo tempo, Nani (Sydney Elizebeth Agudong), a irmã mais velha de Lilo, luta para convencer a assistente social Sra. Kekoa (Tia Carrere) à não perder a guarda da irmã.

Comparando com a animação original, temos algumas alterações relevantes nos personagens. No desenho, o assistente social Cobra Bubbles, foi "dividido" neste filme em dois personagens: a inédita assistente social Sra. Kekoa e o agente da CIA Cobra Bubbles (Courtney B. Vance). E em movimento contrário, o que no desenho eram dois personagens alienígenas distintos, o cientista Dr. Jumba Jookiba e o comandante Capitão Gantu, aqui neste Lilo & Stitch, eles foram consolidados apenas no Dr. Jumba. Esta mudança já é mais forte, pois transforma o Dr., que no desenho era um personagem "bonzinho", no vilão da nova história.

Há várias cenas neste Lilo & Stitch que são cópias do desenho original, porém há outras - em destaque para cenas de ação e cenas de piadas - que são novas para o filme, e isto é muito bom. Em geral Lilo & Stitch é um filme dinâmico, engraçado e "fofo", assim como o original, e deve encantar o mesmo tipo de público que agradou quando surgiu em desenho muitos anos atrás. O personagem de Stitch é bem feito, parece bem real, mas a grande qualidade de ter transformado este filme em live-action é a relação Lilo-Nani. Encarar a possibilidade da irmã perder a guarda de Lilo e se separarem tem um peso muito maior com pessoas reais sendo vistas em tela. A presença da nova personagem Sra. Kekoa, mais empática e menos cômica, também reforça este sentimento, sendo então um acerto.

As irmãs Sydney (24 anos) e Siena (20 anos) Agudong ficaram entre as finalistas para interpretar Lilo. Melhor para Sydney, que levou o papel. Dizem as irmãs que ambas ficaram felizes e tudo terminou bem...

Por outro lado, quando eu disse anteriormente que este Lilo & Stitch é "dinâmico", ele o é até demais. Tudo é muito corrido, e temos menos atenção dada a emoção dos personagens do que se deveria. No desenho de 2002, vemos Stitch passar por várias situações que vão "amolecendo" seu coração, e gradualmente o transformando em um ser bom; já neste live-action a quantidade de cenas que fazem isto são menores e mais curtas, fazendo com que nós na verdade nos apaixonemos e torcemos pelo Stitch mais pela memória afetiva que temos dele do que pelo que vimos no filme de agora.

O outro problema é a questão da "família", a Ohana tão falada e repetida no filme original e nesse aqui. De que família sempre fica unida. Bem, a correria deste Lilo & Stitch também enfraquece a força deste recado, mas além de tudo, o desfecho do filme não é o mesmo do desenho, e o novo final escolhido pode ou não enfraquecer esta mensagem de "família" (comentarei sobre isso no meu PS 2 mais abaixo).

Ainda que com mudanças, Lilo & Stitch mantém as qualidades principais do filme original e o reapresenta para as novas gerações. Ele é menos emocionante e engraçado que a animação de 2002, mas ainda assim uma ótima diversão e, por outro lado, consegue de fato ser mais real. Talvez com isso, consiga deixar Stitch algo mais palpável para as crianças atuais. Nota: 7,0.


PS 1: curiosidade, sabiam que Tia Carrere, a atriz que faz a assistente social Sra. Kekoa neste Lilo & Stitch foi quem dublou a Nani do filme original de 2002? E Chris Sanders, que dublou Stitch originalmente, dublou o animalzinho aqui também. Só que Sanders também foi o diretor e roteirista do primeiro desenho; aqui ele só dublou mesmo.

PS 2: aqui comentarei sobre a diferença entre o final deste Lilo & Stitch em comparação ao filme de 2002, não leia se não quiser spoilers. Uma adição que foi feita para este filme de 2025 foi fazer com que Nani tivesse a possibilidade de para a universidade ser bióloga marinha, opção que largou para cuidar de Lilo. Porém no final do filme ela de fato vai para a faculdade, deixando a irmã sob os cuidados de Tūtū (Amy Hill), sua vizinha, e outra personagem nova criada para este filme. Então aí fica o questionamento... com esta atitude, por um lado, é passada a mensagem que "família" é algo além de laços de sangue. Mas por outro lado, o desfecho diminui o sacrifício de Nani. Teria ela "afrouxado" seus votos de Ohana? Fica para você tirar suas conclusões ;)

terça-feira, 27 de maio de 2025

Crítica - Missão: Impossível - O Acerto Final (2025)

TítuloMissão: Impossível - O Acerto Final ("Mission: Impossible - The Final Reckoning", EUA / Reino Unido, 2025)
Diretor: Christopher McQuarrie
Atores principaisTom Cruise, Hayley Atwell, Ving Rhames, Simon Pegg, Esai Morales, Pom Klementieff, Henry Czerny, Hannah Waddingham, Tramell Tillman, Angela Bassett, Shea Whigham, Greg Tarzan Davis
Nota: 6,0

Franquia se despede de modo grandioso, porém com roteiro a desejar

Depois de quase 30 anos, quando tivemos o primeiro Missão Impossível (1996), chegamos ao oitavo e último capítulo da saga: Missão: Impossível - O Acerto Final, que é uma continuação de Missão: Impossível - Acerto de Contas - Parte Um (2023), cuja trama não havia terminado. Pela lógica, este filme aqui deveria se chamar Parte Dois, porém como a bilheteria do capítulo anterior ficou abaixo do esperado, a Paramount Pictures achou comercialmente mais interessante mudar para este nome.

Obviamente, é bem importante que você tenha assistido a primeira parte antes de ver Missão: Impossível - O Acerto Final. Mas ainda assim já nos primeiros minutos de projeção temos um breve e eficiente resumo do que aconteceu no filme anterior, o que já é suficiente para contextualizar os novos espectadores.

Dois meses após conseguir a chave para obter o código-fonte da inteligência artificial Entidade, Ethan Hunt (Tom Cruise) fica sabendo que agora ele tem uma apertada corrida contra o tempo: em cerca de 3 a 4 dias a Entidade terá assumido todo o arsenal nuclear do planeta, e fará um ataque total contra a humanidade. Para impedir que isto ocorra, Hunt e seu time precisa obter do vilão Gabriel (Esai Morales) a localização do submarino afundado Sevastopol (onde o código fonte da Entidade se encontra), retirá-lo de lá, e usá-lo contra esta maligna IA, para destruí-la.

Assim como em Missão: Impossível - Acerto de Contas - Parte Um, mais uma vez temos uma trama com referências e ligações aos filmes antigos da franquia, e também temos um número enorme de personagens. Porém, ao contrário do que vimos no episódio passado, aqui temos um foco muito maior em Ethan Hunt, que disparadamente ocupa mais tempo em tela. Porém ironicamente, as duas vezes do filme em que temos cenas de ação acontecendo em modo paralelo - e de forma tripla, cortando de um dos três "núcleos de ação" para outro - com toda a trupe de Ethan trabalhando em conjunto, é que temos o melhor de Missão: Impossível - O Acerto Final: tensão, ação e emoção nas medidas certas.

Com personagens carismáticos, ritmo acelerado e boas cenas de ação, certamente este novo Missão: Impossível não desagradará seu público. Ainda assim, o roteiro de O Acerto Final é fraco, trazendo de volta muito de ruim que fez, por exemplo, Missão: Impossível 2 virar piada: coincidências absurdas, situações tão bizarramente forçadas que beiram o ridículo. Exemplos: por duas vezes Tom Cruise tem alguns poucos minutos para salvar uma pessoa que está em outro prédio. Como ele vai salvá-la? Oras... correndo(!), afinal, ele é rápido igual ao Flash e todos os prédios do mundo são vizinhos uns dos outros. Ou ainda, quando ele está dentro do gigantesco submarino Sevastopol que pesa milhares de toneladas: basta ele fazer um mínimo movimento lá dentro, que o veículo inteiro se mexe como se fosse um lápis...

Apesar dos pesares, Missão: Impossível - O Acerto Final se conclui de maneira "épica" e aceitável, com uma trama que pode ser definida com palavras como "resumo", "conclusão" e "nostalgia". MAS ainda assim sua cena final é uma cena sem nenhum impacto, vaga, e com consideráveis ganchos para a história continuar.

Eu torço para que Missão Impossível tenha se encerrado. E olhe que sou bastante fã da franquia. Mas ela já se esgotou. O próprio filme, com este seu roteiro contestável, tira sarro dele mesmo várias vezes durante a história, com os inimigos de Ethan ironizando que ele sempre faz a mesma coisa... que Hunt sempre coloca em risco o mundo inteiro só para salvar a mocinha. Missão Impossível precisa se encerrar porque isto é verdade. E também porque se ficava cada vez melhor a partir do filme 4 e chegou em seu ápice no filme 6, agora vem piorando a cada sequência.

Mas se Tom Cruise não mentiu, Missão: Impossível - O Acerto Final é de fato o desfecho de tudo. Em uma Première duas semanas atrás, o ator declarou (sobre o filme): "É o último. Ele não se chama 'Final' à toa". Vou dar meu voto de confiança no astro e acreditar em suas palavras. Nota: 6,0


PS 1: aqui darei outro exemplo concreto do quão ruim e forçado é o roteiro. Como este PS é um pequeno spoiler, é melhor ler somente depois de ter visto o filme. Pois bem: em um determinado momento, com o avião em queda, o vilão tira sarro de Ethan dizendo "eu tenho o único paraquedas", e ele salta com seu paraquedas deixando nosso herói sozinho. Então Tom Cruise fica em situação difícil não é mesmo? Pois bem... sendo forçado a deixar o avião, ele também salta e depois de um tempo em queda livre, Ethan abre um paraquedas (????), que então pega fogo, e depois de mais um tempo em queda livre, ele abre seu SEGUNDO paraquedas (!!!!), para então pousar em segurança... 

PS 2: como peripécia final, Tom Cruise realizou uma de suas cenas de ação mais arriscadas de todas, que foi fazer acrobacias e lutas do lado externo de um antigo avião monomotor de hélice. No vídeo abaixo, segue um curto vídeo de bastidor das gravações destas cenas.



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