Curiosidades Cinema Vírgula #059 - A transgressora biblioteca inagurada por Dua Lipa

Ano passado eu comentei sobre o clube de livros da atriz Reese Witherspoon. E ela está longe de ser a única celebridade a ter este tipo de empreendimento. A cantora britânica Dua Lipa também lançou, em Junho de 2023, seu Service95 Book Club, com foco em livros globais de ficção e não ficção, que sempre trazem temas mais profundos como política, gênero, raça e estruturas de poder.
 
Mensalmente a cantora escolhe um livro, que aparece no site do seu Book Club com seus comentários do porque ela recomendou a obra, e um link para comprá-lo. Dua Lipa também costuma fazer entrevistas exclusivas com os autores, lançadas em vídeo e/ou no podcast do Service95 Book Club.

Três anos depois, em Junho de 2026, ela deu um passo mais ousado: foi inaugurado dentro da histórica Livraria Lello, em Porto, Portugal (a mesma que supostamente inspirou a criação das escadarias de Hogwarts, mas a picareta da J.K. Rowling nega de forma ridícula), um espaço permanente chamado Manifesto Library. Trata-se de uma biblioteca composta de 100 livros distintos, com uma característica em comum: que sofreram censura, banimento ou perseguição ao redor do mundo.


Conhecendo a Manifesto Library
A foto do topo deste artigo é uma foto real da biblioteca Manifesto Library. Um espaço retangular com os livros dispostos em estantes iluminadas feitas de madeira e que, ao centro, há uma espécie de "fosso", com dois níveis de arquibancada, para qualquer um poder sentar e ler os livros daquele catálogo com tranquilidade.
A biblioteca se divide em 4 seções temáticas: Controle, Poder, Voz e Memória. Vamos conhecer um pouquinho mais de cada uma delas?
  • Na seção Controle temos livros que falam de mecanismos de restrição da liberdade de pensamento e ideologias opressoras; como exemplos temos O Conto da Aia (1985), da autora canadense Margaret Atwood; O Processo (1925), do escritor checo Franz Kafka; e Ensaio sobre a Cegueira (1995) do escritor português José Saramago.
  • A seção Poder conta com obras que tratam de forma ainda mais explícita o autoritarismo, governos, censuras, narrativas dominantes. Dentre elas temos 1984 (publicado em 1949), do britânico George Orwell; O Segundo Sexo (também de 1949), da francesa Simone de Beauvoir; e Glória (2022), da autora zimbabuana NoViolet Bulawayo.

Na seção Voz temos obras brasileiras!
  • Já na categoria Voz temos livros sobre pessoas ou grupos historicamente silenciados, excluídos ou marginalizados. Por exemplo obras como O Sol É para Todos (1960), da estadunidense Harper Lee; e O Caçador de Pipas (2003), do afegão Khaled Hosseini. Nesta seção também temos os únicos livros de escritores brasileiros dentre os 100. São dois: Olhos d’água (2014), da escritora mineira Conceição Evaristo, e O Avesso da Pele (2020), do "carioca-gaúcho" Jeferson Tenório.

Olhos d’água é um livro de 15 contos independentes que retratam a dura realidade das pessoas negras na sociedade brasileira. Os primeiros nove contos são protagonizados por mulheres (mães, filhas, trabalhadoras domésticas e idosas), mas depois temos também contos protagonizados por homens. Em novembro de 2021 uma professora de história do Colégio Vitória Régia, em Salvador, foi afastada e posteriormente demitida após indicar a leitura desta obra para seus alunos, o que gerou repercussão nacional.

O Avesso da Pele é um romance ficcional, baseado em elementos reais, em que Pedro, de uma família negra em Porto Alegre, tenta reconstruir a história e morte de seu pai, professor assassinado em uma abordagem policial. Em 2024 o livro foi alvo de censura e retirado de escolas estaduais em 4 estados: GO, MS, PR e RS. Porém até o final do mesmo ano isto foi revertido, e ele chegou a ser incluído como leitura obrigatória na relação de livros para o vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

  • E finalmente, não poderia me esquecer da seção Memória, que coleta livros com o objetivo de preservar testemunhos pessoais e coletivos contra o apagamento deliberado em contextos ideológicos e/ou políticos. Como exemplos temos Pachinko (2017), da sul-coreana Min Jin Lee; Patriota (2024), livro póstumo de Alexei Navalny, morto neste mesmo ano por envenenamento em uma prisão da Rússia; e A Insustentável Leveza do Ser (1983), do escritor checo Milan Kundera.
 
Para quem quiser ver a lista dos 100 livros disponíveis na Manifesto Library ela está aqui (porém o texto se encontra em inglês). E resumindo, dos 100, 9 são títulos originalmente escritos em língua portuguesa, sendo 2 livros brasileiros, 5 portugueses, e 2 livros de autores que nasceram em Angola mas viveram em Portugal.

Dua Lipa falou para você sair do celular e ler mais livros (ou o blog do Cinema Vírgula)!



PS: Já viu as outras curiosidades do Cinema Vírgula? É só clicar aqui!

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